A Busca do Graal 1 – O Arqueiro – Bernard Cornwell

O tesouro de Hookton foi roubado na manhã do domingo de Páscoa do ano de 1342. Tratava-se de um objeto sagrado, uma relíquia suspensa das traves da igreja e era extraordinário que um objeto tão precioso pudesse ser guardado numa aldeia tão obscura. Havia quem dissesse que não deveria ali estar, mas sim ter sido guardado numa catedral ou numa importante abadia, enquanto outros, muitos outros, afirmavam que não era genuíno. Apenas os tolos negavam que as relíquias fossem falsas. Homens bem falantes percorriam os caminhos de Inglaterra vendendo ossos amarelados que diziam ter pertencido aos dedos das mãos e dos pés, bem como às costelas de santos benditos; por vezes, os ossos eram de fato humanos, mas na maioria dos casos, pertenciam a porcos e, até mesmo, a veados. Mesmo assim, o povo comprava-os e venerava-os. – É o mesmo que rezar a São Guinefort – dizia o padre Ralph, soltando uma gargalhada de troça. – Rezem a ossos de presunto, a ossos de presunto! A um porco bendito! Fora o padre Ralph que trouxera o tesouro para Hookton e não queria ouvir falar da sua transferência para uma catedral ou abadia. Assim, durante oito anos, ficou suspenso na pequena igreja, acumulando pó e teias de aranha que cintilavam com reflexos prateados quando o sol entrava pela janela alta da torre poente. Os pardais poisavam no tesouro e em algumas manhãs havia morcegos pendurados no seu cabo. Raramente o limpavam e quase nunca o desciam, embora, de vez em quando, o padre Ralph exigisse que lhe trouxessem a escada e soltassem o tesouro das suas correntes, de modo a poder orar junto a ele, enquanto o afagava. Nunca se vangloriava de o ter. Outras igrejas ou mosteiros, na posse de tal relíquia, tê-lo-iam utilizado para atrair os peregrinos, porém o padre Ralph afastava os visitantes. – Não é nada – respondia, sempre que um desconhecido perguntava o que era a relíquia. – Uma ninharia.


Nada! – e zangava-se se os visitantes insistiam. – Não é nada, nada, nada! O padre Ralph era um homem assustador e mesmo quando não estava zangado, tinha o génio de umdemónio descabelado e a sua ira ostensiva defendia o tesouro. Porém, acreditava ser a ignorância a melhor protecção da relíquia, pois se os homens desconhecessem a sua existência, Deus guardá-la-ia. E foi o que Ele fez, durante algum tempo. A obscuridade de Hookton era de fato o melhor resguardo do tesouro. A pequena aldeia situava-se na costa sul de Inglaterra, onde o Lipp, um ribeiro, quase um rio, corria para o mar junto a uma praia coberta de pequenos calhaus. Meia dúzia de barcos de pesca partiam da aldeia, protegidos à noite pelo próprio Hook, uma língua de seixos que contornava o último braço do Lipp. Mesmo assim, durante a famosa tempestade de 1322 o mar rugira sobre o Hook e desfizera os barcos na parte superior da praia. A aldeia nunca se recuperara de tal tragédia. Antes do temporal, saíam do Hook dezanove barcos mas, vinte anos depois, apenas seis pequenas embarcações enfrentavam as ondas para lá da traiçoeira barra do rio. O resto dos aldeãos trabalhava nas salinas ou criava rebanhos e gado nos montes por trás do aglomerado de cabanas de tecto de colmo, situadas em redor da pequena igreja de pedra, onde o tesouro estava suspenso por entre traves enegrecidas. Assim era Hookton, um local onde havia barcos, peixe, sal e gado, tendo por trás montes verdejantes, por dentro ignorância e à frente o vasto mar. Hookton, como todas as terras da Cristandade, realizava uma vigília no sábado de Aleluia e, em 1342, esse dever solene era levado a cabo por cinco homens que acompanharam o padre Ralph, enquanto este consagrava os Sacramentos da Páscoa e depois poisava o pão e o vinho sobre o pano branco do altar. As hóstias estavam dentro de uma simples tigela de barro coberta com um pano de linho branqueado, enquanto o vinho se encontrava numa taça de prata que pertencia ao padre Ralph, e que fazia parte do seu mistério. Era um homem muito alto, piedoso e demasiado erudito para ser umsimples padre de aldeia.

Dizia-se que poderia ter sido bispo, mas que o diabo o perseguira comsonhos maus e havia quem garantisse ser verdade que anos antes de ter vindo para Hookton estivera fechado na cela de um mosteiro devido a uma possessão demoníaca. Depois, em 1334, os demónios tinham-no abandonado e fora enviado para a aldeia, onde aterrorizava os seus habitantes pregando às gaivotas ou caminhando pela praia a chorar os seus pecados e a bater no peito com pedras aguçadas. Uivava como um cão, quando a maldade lhe pesava demasiado na consciência, mas encontrara também uma espécie de paz naquela terra remota. Construíra uma enorme casa de madeira, onde morava com uma governanta, e fizera amizade com sir Giles Marriott, senhor de Hookton, que vivia num castelo de pedra, meia légua mais a norte. Sir Giles era sem dúvida um gentil-homem, tal como o padre Ralph parecia ser, não obstante o cabelo hirsuto e a voz irada. Coleccionava livros que, logo a seguir ao tesouro que trouxera para a igreja, eram as maiores maravilhas de Hookton. Por vezes, quando não fechava a porta, as pessoas olhavam boquiabertas para os dezassete volumes encadernados a couro, empilhados sobre a mesa. A maior parte estava escrita em Latim, porém havia uns quantos em francês, a língua materna do padre Ralph. Não o francês de França, mas o francês normando, língua dos governantes ingleses, de modo que, embora sem se atreverem a perguntar-lhe, os aldeãos calculavam que o seu sacerdote seria de nobre estirpe. Todos o temiam, embora soubessem que cumpria o seu dever; baptizava-os, dizia missa, casava-os, ouvia-lhes as confissões, absolvia-os, repreendia-os e enterrava-os, mas não os acompanhava. Caminhava só, com o rosto severo, o cabelo desgrenhado e os olhos a brilhar. Todavia e mesmo assim, os aldeãos orgulhavam-se dele. A maior parte das igrejas do campo tinha de suportar sacerdotes ignorantes, com cara de Lua cheia, pouco mais instruídos que os seus paroquianos, mas Hookton tinha no padre Ralph um erudito como era devido, demasiado inteligente para ser sociável, talvez um santo, talvez um nobre de estirpe, um pecador confesso, provavelmente louco, mas, incontestavelmente, um verdadeiro padre. O padre Ralph abençoou os santíssimos Sacramentos para logo a seguir advertir os cinco homens que Lúcifer andava à solta na noite antes da Páscoa e que o maior desejo do demónio era arrebatálos do altar. Desse modo, teriam eles de guardar com diligência o pão e o vinho, tarefa que passaram a cumprir, respeitosamente ajoelhados, logo após a partida do sacerdote, olhando o cálice, com o brasão de armas gravado no seu corpo de prata.

O brasão mostrava um animal mítico, um yale (Animal mítico parecido com um antílope, do tamanho de um cavalo, com presas e cauda de leão. Foi usado pela primeira vez por John, duque de Beauford, 3.° filho de Henrique IV. [N. da T.]), segurando um graal e fora esse nobre objeto que sugerira aos aldeãos a estirpe fidalga do padre Ralph, caído em desgraça por ter sido possuído pelos demónios. O cálice de prata parecia cintilar à luz de duas imensas velas que ficariam a arder durante toda a noite. A maior parte das aldeias não se podia dar ao luxo de ter círios pascais, mas o padre Ralph todos os anos comprava dois aos monges de Shaftesbury e os aldeãos entravam timidamente na igreja para os admirarem. Porém, naquela noite, depois do pôr do Sol, apenas os cinco homens observavam as chamas enormes e firmes. A dada altura, John, que era pescador, soltou um peido. – Deve estar bem maduro para afastar o demónio – disse, fazendo rir os outros quatro. Depois, todos eles abandonaram os degraus do coro e sentaram-se, encostados à parede da nave. A mulher de John mandara um cesto com pão, queijo e peixe fumado, enquanto Edward, que era dono de umas salinas na praia, trouxera a cerveja. Nas grandes igrejas da Cristandade, eram os cavaleiros que faziam esta vigília anual. Ajoelhavam, envergando a armadura e camisas de tela bordadas com leões empinados, falcões inclinados, cabeças de machado e águias de asas abertas, e os elmos enfeitados com cristas de penas.

Porém, não havia cavaleiros em Hookton e apenas o homem mais novo, que se chamava Thomas e estava sentado um pouco afastado dos outros quatro, possuía uma arma. Era uma espada velha, romba e já um pouco ferrugenta. – Crês tu que essa lâmina velha possa assustar o diabo, Thomas? – perguntou John. – O meu pai disse-me que a trouxesse – afirmou Thomas. – Para que quer o teu pai essa espada? – Já sabes que não deita nada fora – disse Thomas, erguendo a velha arma. Era pesada, mas ele levantou-a com facilidade; aos dezoito anos, era alto e imensamente forte. Era muito apreciado emHookton, pois além de ser o filho do homem mais rico da aldeia, era também um rapaz trabalhador. Não havia nada de que mais gostasse do que passar um dia no mar a puxar as redes mascarradas que lhe deixavam as mãos feridas e a sangrar. Sabia navegar à vela e tinha força para manobrar um remo enorme, quando o vento caía; sabia montar armadilhas, manejar o arco, cavar uma sepultura, castrar vitelos, cobrir as casas com colmo e cortar feno durante um dia inteiro. Era um rapaz do campo, enorme, ossudo e de cabelo negro, mas Deus dera-lhe um pai que o queria ver acima das coisas vulgares. Queria que Thomas fosse padre e era por isso que o rapaz terminara o primeiro período da sua estada em Oxford. – Que fazes tu em Oxford, Thomas? – perguntou-lhe Edward. – Tudo aquilo que não devia – respondeu Thomas. Afastou o cabelo negro do rosto, ossudo como o do pai. Tinha os olhos muito azuis, e um pouco encovados, queixo comprido, e o sorriso fácil.

As raparigas da aldeia consideravam-no bonito. – Há raparigas em Oxford? – perguntou John, manhoso. – Mais do que devia haver – concordou Thomas. – Não digas isso ao teu pai – aconselhou Edward. – Ou levas umas boas vergastadas. O teu pai é muito bom com o chicote. – Não há melhor – confirmou Thomas. – Só quer o que é melhor para ti – disse John. – Não o podemos censurar por isso. Mas Thomas censurava o pai. Sempre o fizera. Havia anos que se confrontavam e nada causava tanto atrito entre eles, como a obsessão de Thomas pelos arcos. O pai da mãe fora fabricante de arcos, no Weald, e Thomas vivera com o avô até quase aos dez anos. Depois, o pai trouxera-o para Hookton, onde veio a conhecer o monteiro de sir Giles Marriott, outro homem hábil no manejo desta arma e que passara a ser o seu novo tutor. Thomas fizera o primeiro arco com onze anos, mas quando o pai descobriu a arma de madeira de olmo, quebrara-a sobre o joelho, usando os restos para açoitar o filho.

– Não és um homem do povo – gritara, vergastando Thomas nas costas, na cabeça e nas pernas comas ripas partidas; todavia, nem as palavras nem a pancada tiveram qualquer efeito. E, como o pai de Thomas andava geralmente preocupado com outras coisas, o rapaz tinha muito tempo para se dedicar à sua obsessão. Aos quinze anos, era tão bom fabricante de arcos quanto o avô, sabendo instintivamente a forma a dar à ripa de salgueiro, de modo a que o interior fosse feito com o cerne, e a parte exterior revestida pelo sâmago, mais flexível para que quando o arco se dobrasse, a madeira do cerne quisesse sempre endireitar-se e o sâmago fosse o músculo que tornava possível o movimento. Para o veloz cérebro de Thomas, havia elegância, simplicidade e beleza num bom arco. Macio e forte, era como o ventre liso de uma rapariga e, naquela noite, ao fazer a vigília pascal na igreja de Hookton, Thomas recordou-se de Jane, que servia na pequena taberna da aldeia. John, Edward e os outros dois homens tinham estado a falar das coisas da aldeia: do preço dos cordeiros na feira de Dorchester, da velha raposa que, em Lip Hill, tinha comido numa só noite todo um bando de gansos e do anjo que fora visto sobre os telhados em Lyme. – Parece-me que andaram a beber demais – alvitrou Edward. – Eu vejo anjos quando bebo – disse John. – Deve ser Jane – afirmou Edward. – Parece um anjo, lá isso parece. – E tu não te portes como se o fosses – avisou John. – A moça está grávida. Os outros quatro homens olharam para Thomas que, com ar inocente, fitava o tesouro suspenso das traves. Na verdade, receava que a criança fosse de fato sua e sentia-se aterrorizado com o que o pai poderia dizer; porém nessa noite fingiu ignorar a gravidez de Jane. Limitou-se a olhar para a relíquia, semi-obscurecida por uma rede de pesca pendurada a secar, enquanto os quatro homens mais velhos, aos poucos, acabaram por adormecer.

Uma corrente de ar frio fez tremeluzir a chama das velas gémeas. Algures na aldeia, um cão uivava e Thomas ouvia sempre e ininterruptamente o vaivém das ondas a bater nas pedras, que se detinha, para logo recomeçar. Escutou o ressonar dos quatro companheiros e rezou para que o pai nunca descobrisse o que se passava com Jane, coisa pouco provável, já que ela pressionava Thomas para casarem e ele não sabia o que fazer. Talvez, pensou, o melhor fosse fugir, levar Jane e o arco e fugir, mas como não tinha a certeza, olhava a relíquia no tecto da igreja e rezava para que o santo viesse em seu auxílio. O tesouro era um lança. Uma arma enorme, com um cabo da grossura do braço de um homem e duas vezes a sua altura. Provavelmente era feita de freixo, apesar de ser tão antiga que ninguém o podia afirmar; a idade curvara também um pouco o cabo, incrivelmente enegrecido, e a extremidade não era uma lâmina de ferro ou aço, mas sim uma cunha de prata baça, que se transformava numa ponta fina. O cabo não se dilatara para proteger o punho, mas era liso como um dardo ou umaguilhão; a relíquia parecia de fato uma enorme vara de bois, mas um camponês nunca picaria umanimal com uma ponta de prata. Tratava-se de uma arma, era uma lança. Só que não era uma velha lança qualquer. Era a própria usada por São Jorge para matar o dragão. Era a lança de Inglaterra, pois São Jorge era o santo deste país, o que a transformava num enorme tesouro, mesmo suspensa do tecto cheio de teias de aranhas da igreja de Hookton. Havia muita gente que dizia que nunca poderia ter pertencido a São Jorge, mas Thomas acreditava que sim. Gostava de imaginar a poeira levantada pelas patas do cavalo do santo, bem como o hálito de chamas infernais soltado pelo dragão, enquanto o animal recuava e São Jorge apontava a lança. A luz do sol, cintilante como as asas de um anjo, teria iluminado o capacete do santo e Thomas imaginava os rugidos do dragão, o agitar da sua cauda coberta de escamas, o cavalo a relinchar de terror; via o santo erguerse nos estribos, antes de mergulhar a ponta de prata na couraça do monstro.

A lança ia directa ao coração e chegavam ao céu os gritos da fera, que estrebuchava, se esvaía em sangue e logo morria. Depois o pó assentava, o sangue do dragão secava sobre as areias do deserto e São Jorge arrancava a lança, que acabaria por chegar à posse do padre Ralph. Mas como? O sacerdote não dizia. Mas ali estava ela, uma enorme lança escura, suficientemente pesada para estilhaçar as escamas de umdragão. Assim, naquela noite, Thomas rezou a São Jorge, enquanto Jane, a beldade de cabelo negro, cujo ventre começava a arredondar com a criança que esperava, dormia na taberna. O padre Ralph gritava com um pesadelo, assustado pelos demónios que dançavam na escuridão e pelas megeras que gritavam no monte enquanto as ondas intermináveis se lançavam e sugavam as pedras do Hook. Era a noite antes da Páscoa. Thomas acordou ao som dos galos da aldeia e viu que as velas ricas tinham ardido quase até aos castiçais de estanho. Uma luz cinzenta entrava pela janela, sobre o altar coberto de branco. O padre Ralph prometera à aldeia que um dia naquela janela cintilaria um vitral colorido mostrando São Jorge a picar o dragão com a lança de ponta de prata, mas por enquanto, a moldura de pedra estava preenchida por finas placas de osso, que faziam com que o ar dentro da igreja tivesse a cor amarela da urina. Thomas levantou-se com vontade de urinar e os primeiros gritos de horror soaram, vindos da aldeia. Porque era Páscoa, Cristo ressuscitara e os franceses estavam a desembarcar. Os assaltantes chegaram da Normandia em quatro barcos que haviam navegado durante a noite, empurrados pelo vento oeste. O chefe da expedição, sir Guillaume d’Evecque, o Sieur d’Evecque era um guerreiro experimentado que já combatera os ingleses na Gasconha e na Flandres e conduzira dois assaltos à costa sul de Inglaterra. De ambas as vezes, regressara com os barcos intactos e carregados de lã, prata, gado e mulheres.

Vivia numa bela casa de pedra na íle Saint Jean de Caen, onde era conhecido como o cavaleiro do mar e da terra. Tinha trinta anos, peito largo e queimado do sol, de cabelo loiro; era alegre e irreflectido, vivendo da pirataria no mar e de serviços prestados como cavaleiro, em terra. Acabava de chegar a Hookton. O local era insignificante, quase incapaz de oferecer grandes recompensas, porém, sir Guillaume fora contratado e se falhasse em Hookton, se não conseguisse sequer arrancar uma moeda a umaldeão, mesmo assim, teria lucro, já que lhe tinham prometido mil libras pela expedição. O contrato fora assinado e selado, garantindo-lhe as ditas mil libras juntamente com todo o saque que conseguisse em Hookton. Já lhe tinham pago cem e o resto estava à guarda do Irmão Martin, da Abbaye aux Hommes de Caen, de modo que, para ganhar as restantes novecentas, sir Guillaume apenas teria de levar os barcos até Hookton, ficar com o que quisesse, excepto o recheio da igreja que pertenceria ao homem que lhe oferecera tão generoso contrato. Este encontrava-se agora ao lado de sir Guillaume, no navio principal. Era um jovem, com menos de trinta anos, alto e de cabelo negro, que raras vezes falava e sorria ainda menos. Trazia uma rica cota de malha que lhe caía até aos joelhos e, sobre ela, uma camisa de tela, de linho negro, sem qualquer insígnia. Mesmo assim, sir Guillaume calculava que o outro fosse nobre, pois tinha a arrogância da sua linhagem e a confiança dos privilegiados. Não era certamente um nobre normando, pois sir Guillaume conhecia-os a todos e tinha sérias dúvidas de que este tivesse vindo dos arredores de Alençon ou Maine, já que muitas vezes acompanhara os exércitos dessas paragens. Porém, a coloração amarelada da tez do desconhecido sugeria-lhe que fosse originário das províncias mediterrânicas, talvez do Languedoque ou de Dauphine, e lá eram todos doidos. Doidos varridos. sir Guillaume nem sequer sabia o nome do homem. – Há quem me chame Harlequin – respondera o desconhecido quando sir Guillaume lhe perguntara.

– Harlequin? – repetira sir Guillaume, fazendo imediatamente a seguir o sinal da Cruz, pois ninguém faria alarde de um nome assim. – Quer dizer, o mesmo que hellequin? – É hellequin, em França – concordara. – Mas em Itália diz-se «harlequin». E a mesma coisa – o homem sorrira e nesse sorriso havia a sugestão de que seria melhor sir Guillaume dominar a sua curiosidade, se quisesse receber as restantes novecentas libras. O homem que se autodenominava Harlequin fitava agora a costa coberta de bruma, onde se avistava a torre de uma igreja atarracada, por entre um vago amontoado de telhados e colunas de fumo dos fogos de combustão lenta das salinas. – Hookton? – perguntou. – É o que ele diz – respondeu sir Guillaume, apontando com a cabeça para o mestre da embarcação. – Então que Deus se amerceie dessa terra – proferiu o homem. Sacou da espada, embora os quatro barcos estivessem ainda a meia milha da costa. Os besteiros genoveses, contratados para a viagem, fizeram o sinal da Cruz e começaram a retesar as cordas assim que sir Guillaume ordenou que erguessem o seu estandarte no mastro principal. Era uma bandeira azul decorada com três falcões amarelos, de asas abertas e garras afiadas, já inclinados em direcção à presa. Sir Guillaume sentiu o cheiro das fogueiras das salinas e ouviu o os galos a cantar em terra. Os galos continuavam a cantar, quando as proas dos quatro barcos encalharam na praia de seixos. Sir Guillaume e o Harlequin foram os primeiros a saltar para terra, mas logo atrás deles, seguiamduas dezenas de besteiros genoveses, soldados profissionais, conhecedores dos seus deveres. O chefe fê-los atravessar a praia e a aldeia, de modo a fecharem o vale, onde deteriam qualquer aldeão que se decidisse a fugir, levando consigo os seus bens.

Os restantes homens de sir Guillaume saqueariam as casas, enquanto os marinheiros ficariam na praia a guardar as embarcações. Fora uma longa noite passada no mar, com frio e muita ansiedade, mas agora chegara a recompensa. Hookton foi invadida por quarenta homens-de-armas. Usavam capacetes justos e cotas de malha sobre coletes de couro, estavam armados com espadas, machados e lanças, e autorizados a saquear. A maior parte eram veteranos de outros assaltos levados a cabo por sir Guillaume e sabiam exactamente o que tinham a fazer. Abrir a pontapé as portas pouco resistentes e começar a matar os homens. Deixar que as mulheres gritassem, mas matar os homens, pois eram eles que mais ripostavam. Algumas mulheres fugiam, mas os besteiros genoveses estavam ali para as deter. Uma vez mortos os homens, o saque poderia começar, o que levava tempo, já que os aldeãos metiam tudo o que possuíam de valor em esconderijos difíceis de encontrar. O colmo tinha de ser arrancado, os poços explorados, o soalho erguido, mas havia muita coisa que estava à vista: presuntos que aguardavam a primeira refeição após a Quaresma, renques de peixe fumado ou seco, montes de redes, boas panelas, rocas e fusos, ovos, batedeiras de manteiga, barricas de sal – coisas muito humildes, mas de valor suficiente para serem levadas para a Normandia. Nalgumas casas guardavampequenas quantidades de moedas e uma delas, a do padre, escondia um tesouro de travessas, castiçais e jarros de prata. Havia mesmo lá alguns rolos de bom tecido de lã, uma enorme cama entalhada e um bom cavalo no estábulo. Sir Guillaume olhou para os dezassete livros, mas concluiu que nada valiam e assim, tendo arrancado os fechos de bronze das capas de couro, deixou-os para que ardessem quando incendiassem as casas. Teve de tirar a vida à governanta do padre. Lamentou aquela morte.

Sir Guillaume não se melindrava por matar mulheres, porém as suas mortes não traziam qualquer honra, de modo que não as encorajava, a menos que elas lhe causassem problemas. A governanta do padre quisera resistir. Atirara-se aos soldados com o espeto de assar, chamara-lhes filhos de prostitutas e vermes do diabo, de modo que, por fim, sir Guillaume cortou-a ao meio com a espada, já que ela não aceitava o seu destino. – Cabra estúpida – exclamou ele, passando por cima do cadáver para espreitar a lareira. Dois belos presuntos estavam a ser fumados na chaminé. – Desce-os – ordenou a um dos seus homens e depois deixou-os, para revistarem a casa, enquanto ele se dirigia à igreja. O padre Ralph, acordado pelos gritos dos seus paroquianos, enfiara a sotaina e correra à igreja. Os homens de sir Guillaume tinham-no deixado em paz, por respeito, mas uma vez lá dentro, o sacerdote começar a repelir os invasores, até que o Harlequin chegou e, aos berros, ordenou aos seus homens que o agarrassem. Prenderam-lhe os braços e imobilizaram-no diante do altar coberto com a toalha pascal. O Harlequin, de arma na mão, inclinou-se diante do padre Ralph. – Meu senhor conde – disse. O padre Ralph fechou os olhos, talvez em oração, embora parecesse estar muito irritado. Abriu-os e fitou o belo rosto do Harlequin. – Sois o filho de meu irmão – disse, sem parecer zangado, mas sim imensamente triste. – E verdade.

– Como está vosso pai? – Morto – respondeu o Harlequin. – Tal como o pai dele e vosso. – Deus dê descanso às suas almas – proferiu piedosamente o padre Ralph. – E quando morrerdes vós, velho, serei conde e a nossa família erguer-se-á de novo. O padre Ralph esboçou um leve sorriso e olhou para a lança. – De nada te servirá – afirmou. – O seu poder está reservado para homens virtuosos. Não terá qualquer efeito num demónio como vós. Depois o padre Ralph soltou um estranho gemido, e perdeu o fôlego enquanto baixava os olhos para o ventre, onde o sobrinho tinha enterrado a espada. Esforçou-se por falar, mas as palavras não lhe saíram, depois tombou, quando os soldados o largaram e caiu sobre o altar com uma poça de sangue no colo. O Harlequin limpou a espada na toalha, manchada de vinho, e ordenou aos homens de sir Guillaume que arranjassem uma escada. – Uma escada? – perguntou o soldado, confuso. – Eles não cobrem os telhados com colmo? Então têm escadas. Descobre uma – o Harlequin embainhou a espada e ergueu os olhos para a lança de São Jorge. – Lancei-lhe uma maldição – murmurou o padre Ralph em voz fraca.

Estava pálido, moribundo, mas extremamente calmo. – As vossas maldições, senhor, preocupam-me tanto como um peido de uma taberneira – o Harlequin atirou os castiçais de estanho a um soldado, depois pegou nas hóstias que estavam na tigela de barro e meteu-as na boca. Olhou então para o recipiente e, concluindo que não tinha qualquer valor, deixou-o sobre o altar. – Onde está o vinho? – perguntou ao padre Ralph. Este abanou a cabeça. – Cálix meus inebrians – disse, e o Harlequin soltou uma gargalhada. O padre Ralph fechou os olhos quando a dor se apoderou do seu ventre. – Oh, meu Deus! – gemeu. O Harlequin baixou-se junto ao tio. – Dói muito? – Como fogo – respondeu o padre Ralph. – Ides arder no Inferno, meu senhor – disse o Harlequin e viu como o padre Ralph se agarrava ao ventre ferido para estancar o fluxo de sangue. Afastou-lhe as mãos e desferiu-lhe um forte pontapé no estômago. O padre Ralph contorceu-se gemendo de dor. – Um presente da vossa família – disse o Harlequin e voltou-lhe as costas, pois a escada já tinha sido trazida para dentro da igreja. A aldeia enchera-se de gritos, já que a maioria das mulheres e crianças estavam vivas e a sua provação mal começara.

As mais novas foram imediatamente violadas pelos homens de sir Guillaume e as mais belas, incluindo Jane, da taberna, foram levadas para os barcos, para seremtransportadas para a Normandia, onde se transformariam em prostitutas ou em esposas destes homens. Uma delas gritava, porque tinha um bebé dentro de casa, mas os soldados não a entendiam e bateram-lhe para que se calasse antes de a entregarem nas mãos dos marinheiros. Estes deitaram-na sobre as pedras e levantaram-lhe as saias. A mulher chorou, inconsolável, ao ver arder a sua casa. Gansos, porcos, cabras, seis vacas e o cavalo bom do padre foram conduzidos para os barcos, enquanto gaivotas brancas voavam aos gritos, no céu. O sol mal se erguera sobre os montes a Oriente e a aldeia já rendera mais do que sir Guillaume ousara esperar. – Podíamos seguir para o interior – sugeriu o capitão dos besteiros genoveses. – Já temos aquilo que viemos buscar – interveio o Harlequin, vestido de negro. Colocara desajeitadamente a lança de São Jorge sobre a erva do cemitério e olhava agora a antiga arma como se tentasse compreender o seu poder. – O que é isso? – perguntou o besteiro genovês. – Nada que a ti te sirva. Sir Guillaume sorriu. – Se se desferir um golpe com essa lança, estilhaça-se como se fosse de marfim. O Harlequin encolheu os ombros. Tinha encontrado o que desejava e não lhe interessava a opinião de sir Guillaume.

– Vamos para o interior – sugeriu de novo o capitão genovês. – Talvez uma ou duas léguas – concordou sir Guillaume. Sabia que tinha a recear a chegada dos temidos arqueiros ingleses a Hookton, mas provavelmente tal não aconteceria antes do meio-dia. Assim, perguntava a si próprio se não existiria uma outra aldeia próxima que valesse a pena saquear. Olhou para uma menina aterrorizada, que não teria mais que onze anos e estava a ser arrastada para a praia por um soldado. – Quantos mortos? – perguntou. – Nossos? – o capitão genovês parecia surpreendido com a pergunta. – Nenhum. – Nossos não, deles. – Trinta homens, quarenta? Umas quantas mulheres? – E saímos sem um único arranhão! – sir Guillaume exultava. – É pena pararmos agora – olhou para o amo, mas o homem de negro não parecia importar-se com o que fizessem. Entretanto o capitão genovês limitava-se a resmungar, o que surpreendeu sir Guillaume, pois julgava-o desejoso de prosseguir o assalto. Contudo, viu que o resmungo irritado não fora provocado por falta de entusiasmo, mas sim por uma seta de penas brancas que se lhe enterrara no peito. Atravessara a camisa de malha e o colete almofadado como uma agulha, deslizando pelo linho e matando instantaneamente o besteiro. Sir Guillaume atirou-se ao chão e um instante depois outra seta passou por cima dele para se enterrar na erva.

O Harlequin arrancou a lança e corria já em direcção à praia, enquanto sir Guillaume tentava abrigar-se na entrada da igreja. – Besteiros! – gritou. – Besteiros! Porque alguém começara a ripostar.

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