A Chegada do Terceiro Reich – Richard J. Evans

Este é o primeiro de três livros sobre a história do Terceiro Reich. Narra a história de suas origens no Império bismarckiano no século XIX, na Primeira Guerra Mundial e nos amargos anos pós-guerra da República de Weimar. Segue adiante, recontando a ascensão dos nazistas ao poder por meio de uma combinação de sucesso eleitoral e grande violência política nos anos da grande depressão econômica de 1929 a 1933. Seu tema central é como os nazistas conseguiram estabelecer uma ditadura de partido único na Alemanha dentro de um espaço de tempo muito curto e aparentemente com pouca resistência do povo alemão. Um segundo livro tratará do desenvolvimento do Terceiro Reich de 1933 a 1939. Vai analisar suas instituições centrais, descrever como funcionou e como era viver nele, e relatar sua ofensiva para preparar o povo para uma guerra que reinstalaria a Alemanha na posição de poder dominante na Europa. A guerra em si é o tema do terceiro e último livro, que tratará da rápida radicalização das políticas de conquista militar, mobilização e repressão social e cultural, e extermínio racial do Terceiro Reich, até seu final em colapso e destruição totais em 1945. Um capítulo de conclusão examinará a consequência da curta história de doze anos do Reich e seu legado para o presente e o futuro. Esses três livros dirigem-se em primeiro lugar a pessoas que não sabem nada sobre o assunto, ou que sabem um pouco e gostariam de saber mais. Espero que os especialistas encontrem algo de interesse, mas eles não são os leitores principais a quem esses livros se destinam. O legado do Terceiro Reich foi largamente discutido na mídia nos últimos anos. Continua a atrair ampla atenção. Reparação e compensação, culpa e desculpa tornaram-se temas políticos e morais delicados. Imagens do Terceiro Reich e museus e memoriais chamando a atenção para o impacto da Alemanha nazista entre 1933 e 1945 estão ao nosso redor. No entanto, com frequência falta o embasamento para tudo isso na história do Terceiro Reich.


É o que esses três livros almejam proporcionar. Qualquer um que embarque em um projeto como este deve inevitavelmente começar perguntandose se de fato é necessário escrever mais uma história da Alemanha nazista. Será que já não chega? Será que tanta coisa já não foi escrita que pouco existe para se acrescentar? Sem dúvida, poucos tópicos históricos foram objeto de pesquisa tão intensiva. A mais recente edição da bibliografia padrão sobre nazismo, publicada pelo infatigável Michael Ruck em 2000, lista mais de 37 mil itens; a primeira edição, lançada em 1995, listava meros 25 mil. Esse espantoso aumento no número de títulos é um testemunho eloquente do abundante, contínuo e infindável fluxo de publicações sobre o assunto. 1 Nenhum historiador pode ter esperança de dominar a maior parte de uma literatura tão assoberbante. De fato, alguns acharam o volume de informações disponível tão intimidante, aparentemente tão impossível de coligir, que desistiram em desepero. Como resultado, houve de fato surpreendentemente poucas tentativas de escrever uma história que dê uma visão geral do Terceiro Reich. É verdade que, nos últimos anos, viu-se a publicação de alguns excelentes e breves esboços sintéticos, notadamente de Norbert Frei e Ludolf Herbst, 2 alguns tratamentos analíticos estimulantes, em especial Inside Nazi Germany, de Detlev Peukert, 3 e algumas proveitosas coleções de documentos, das quais a antologia inglesa em quatro volumes editada com extensos comentários de Jeremy Noakes é o destaque. 4 Mas podem-se contar nos dedos de uma mão a quantidade de histórias que deem uma visão emlarga escala da Alemanha nazista escritas para o público em geral. A primeira delas, e de longe a mais bem-sucedida, foi Ascensão e queda do Terceiro Reich , de William L. Shirer, publicada em 1960. O livro de Shirer provavelmente vendeu milhões de cópias nas mais de quatro décadas desde o lançamento. Jamais ficou fora de catálogo e continua sendo a primeira opção para muita gente que quer uma história geral da Alemanha nazista boa de se ler. Existem fortes motivos para o sucesso do livro.

Shirer era um jornalista americano que enviou reportagens da Alemanha nazista até os Estados Unidos entrarem na guerra em dezembro de 1941; ele possuía um olho jornalístico para contar detalhes e esclarecer incidentes. Seu livro é pleno de interesse humano, com muitas citações impressionantes dos atores do drama, e foi escrito com todo o faro e o instinto dos despachos de umrepórter do front. Contudo, foi universalmente criticado por historiadores profissionais. O erudito alemão refugiado Klaus Epstein falou em nome de muitos quando destacou que o livro de Shirer apresentava um relato “inacreditavelmente grosseiro” da história alemã, fazendo parecer que tudo levou inevitavelmente à tomada nazista do poder. Tinha “lacunas flagrantes” em sua cobertura. Concentrava-se excessivamente em política de alto escalão, política exterior e eventos militares, e mesmo em 1960 não estava “de maneira alguma a par do que se sabia sobre o período nazista”. Passado meio século, o comentário é ainda mais justificado que no tempo de Epstein. Portanto, não obstante todas as suas virtudes, o livro de Shirer realmente não pode transmitir uma história da Alemanha nazista que atenda às demandas do leitor do início do século XXI. 5 Um tipo inteiramente diferente de exame foi fornecido pelo cientista político alemão Karl Dietrich Bracher, em The German Ditactorship [A ditadura alemã], publicado em 1969. Foi a conclusão dos estudos pioneiros e ainda hoje valiosos de Bracher sobre a queda da República de Weimar e a tomada nazista do poder, e seu ponto forte é a origem e o crescimento do nazismo e sua relação com a história alemã, exatamente as áreas em que Shirer é mais fraco. Quase metade do livro é dedicada a esses assuntos; o restante contém uma cobertura de certo modo menos extensa sobre a estrutura política do Terceiro Reich, política estrangeira, economia e sociedade, cultura e artes, o regime do período de guerra e o colapso do sistema nazista. A despeito dessa desigualdade, sua cobertura é magistral e abalizada, e permanece um clássico. A grande virtude do tratamento de Bracher é a clareza analítica e a determinação em explicar, relatar e interpretar tudo que cobre. É um livro ao qual se pode voltar repetidamente com proveito. Entretanto, não é apenas desigual no tratamento do assunto, é também declaradamente acadêmico na abordagem; com frequência é difícil para o leitor; e, como não poderia deixar de ser, foi ultrapassado pelas pesquisas em muitas áreas durante as três últimas décadas e meia.

6 Se Shirer representava o lado popular e Bracher o lado acadêmico de obras sobre a Alemanha nazista, um autor recente fez com sucesso uma ponte entre os dois. Nos dois volumes de Hitler, o historiador britânico Ian Kershaw encaixa com êxito a vida de Hitler na história moderna alemã e mostra como a ascensão e a queda do ditador estão ligadas a fatores históricos mais amplos. Mas o Hitler de Kershaw não é uma história da Alemanha nazista. De fato, ao acompanhar o crescente isolamento de Hitler durante a guerra, seu foco torna-se inevitavelmente cada vez mais estreito à medida que avança. Concentra-se nas áreas a que Hitler devotou mais atenção, ou seja, política externa, guerra e raça. Por definição, não pode adotar as perspectivas de gente comum ou tratar comatenção as várias áreas com que Hitler não se preocupava de modo direto. 7 Um dos principais objetivos do presente livro e dos dois volumes seguintes é, portanto, cobrir um amplo âmbito dos principais aspectos da história do Terceiro Reich: não apenas política, diplomacia e questões militares, mas também sociedade, economia, política racial, polícia e justiça, literatura, cultura e artes, com uma amplitude que por vários motivos falta às abordagens anteriores, para reunir todas essas coisas e mostrar como se relacionavam. O sucesso da biografia de Kershaw demonstrou que a pesquisa sobre a Alemanha nazista é uma atividade internacional. O mais recente relato geral de grande fôlego lançado sobre o assunto, The Third Reich: A New History, também é de um historiador britânico, Michael Burleigh. De saída, convence os leitores da violência no coração do regime nazista em uma extensão e grau que nenhumoutro livro consegue fazer. Com excessiva frequência, reclama Burleigh com razão, os autores acadêmicos pintam um quadro um tanto pálido, quase abstrato, dos nazistas, como se as teorias e debates sobre eles fossem mais importantes que as pessoas em si. Seu livro corrige o equilíbrio de modo dramático. O objetivo principal de Burleigh era produzir uma história moral do Terceiro Reich. The Third Reich: A New History concentra-se basicamente em assassinatos em massa, resistência e colaboração, violência e coerção política, crimes e atrocidades. Ao fazer isso, reafirma de maneira poderosa uma visão da Alemanha nazista como uma ditadura totalitária que nos últimos anos tem sido atenuada com excessiva frequência.

Mas omite quaisquer considerações detalhadas sobre política externa, estratégia militar, economia, mudança social, cultura e artes, propaganda, mulheres e família, e muitos outros aspectos da Alemanha nazista que foram objeto de pesquisas recentes. Além disso, ao priorizar o julgamento moral, tende a reduzir a explicação e a análise. A ideologia nazista, por exemplo, é desprezada como “conversa fiada”, “bobagem pretensiosa” e assimpor diante, para realçar a imoralidade de os alemães abandonarem o dever moral de pensar. Mas há algo a ser dito por uma abordagem diferente que, como a de Bracher, leva essas ideias a sério, por mais repulsivas ou ridículas que possam parecer a um leitor moderno, e explica como e por que tanta gente na Alemanha veio a acreditar nelas. 8 Esta história tenta combinar as virtudes de relatos anteriores como os citados. Em primeiro lugar, é, como o livro de Shirer, um relato narrativo. Almeja contar a história do Terceiro Reich em ordem cronológica e mostrar como uma coisa levou a outra. A história narrativa esteve fora de moda por muitos anos nas décadas de 1970 e 1980, uma vez que historiadores de toda parte fizeramabordagens analíticas oriundas basicamente das ciências sociais. Mas uma recente variedade de histórias narrativas de larga escala mostrou que isso pode ser feito sem o sacrifício do rigor analítico ou do poder explicativo. 9 Como o livro de Shirer, este também tenta dar voz às pessoas que viveram nos anos dos quais ele trata. A distorção partidária do meio histórico acadêmico alemão sob os nazistas, o culto da personalidade e a veneração da liderança pelos autores de história do Terceiro Reich fizeram os historiadores alemães depois da Segunda Guerra Mundial reagir omitindo por completo as personalidades individuais da história. Nos anos 1970 e 1980, sob influência da história social moderna, o interesse estava sobretudo nas estruturas e processos mais amplos. 10 A obra gerada com isso aumentou nosso entendimento sobre a Alemanha nazista de modo incomensurável. Mas os seres humanos reais quase desapareceram de vista na busca pelo entendimento intelectual. Assim, um dos objetivos deste livro foi colocar os indivíduos em cena de novo; e ao longo de todo ele tentei o máximo possível mencionar citações escritas e faladas pelos contemporâneos, e justapor o cenário narrativo e analítico mais amplo do livro às histórias de homens e mulheres reais, desde o topo do regime até o cidadão comum capturado pelo drama dos eventos.

11 Relatar a experiência de indivíduos demonstra, mais do que tudo, a complexidade das escolhas que precisaram fazer e a difícil e muitas vezes obscura natureza das situações que confrontaram. As pessoas da época não podiam ver as coisas com tanta clareza quanto nós, dotados do conhecimento do que aconteceu depois: não podiam saber em 1930 o que estava por vir em 1933, não podiamsaber em 1933 o que estava por vir em 1939 ou 1942 ou 1945. Se tivessem sabido, sem dúvida as escolhas teriam sido diferentes. Um dos maiores problemas de escrever história é se imaginar de volta ao mundo do passado, com todas as dúvidas e incertezas que as pessoas encararam ao lidar com um futuro que, para o historiador, se tornou passado. O desenrolar dos acontecimentos, que parece inevitável em retrospectiva, de modo algum parecia assim na época, e, ao escrever este livro, tentei recordar o leitor repetidamente de que as coisas poderiam ter tomado rumos muito diferentes dos que tomaram em vários pontos da história da Alemanha na segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX. Conforme Karl Marx observou certa vez de forma memorável, as pessoas fazem a sua história, mas não sob condições de sua escolha. Essas condições incluem não só o contexto histórico em que vivem, mas também a forma como pensam, as pressuposições sobre as quais agem, e os princípios e crenças que influenciaram seu comportamento. 12 Uma meta central deste livro é recriar todas essas coisas para uma leitura moderna, e lembrar os leitores de que, para citar outro célebre aforismo sobre história, “o passado é um país estrangeiro: fazem as coisas de modo diferente por lá”. 13 Por todos esses motivos, a mim parece inadequado a uma obra de história dar-se ao luxo de julgamento moral. Primeiro, isso é não histórico; depois, é arrogante e presunçoso. Não posso saber como eu teria me comportado se vivesse sob o Terceiro Reich, quando mais não seja porque, se tivesse vivido naquela época, eu teria sido uma pessoa muito diferente da que sou hoje. Desde o início dos anos 1990, o estudo histórico da Alemanha nazista, e cada vez mais o de outros temas também, foi invadido por conceitos e abordagens derivados da moralidade, religião e lei. Isso poderia ser apropriado para se chegar a julgamento a respeito de se conceder ou não compensação a um indivíduo ou grupo por sofrimento a que foi submetido sob o nazismo, ou, por outro lado, forçar a reparação de uma forma ou outra do sofrimento inflingido a outros, e nesses contextos não só é legítimo, mas também importante aplicá-los. Mas eles não fazem parte de uma obra de história. 14 Conforme Ian Kershaw observou, “para alguém de fora, não alemão, que jamais experienciou o nazismo, talvez seja excessivamente fácil criticar, esperar padrões de comportamento que eram quase impossíveis de se atingir nas circunstâncias”.

15 A essa distância no tempo, o mesmo princípio também é válido para a grande maioria dos alemães. Assim, tentei tanto quanto possível evitar usar uma linguagem que traga consigo uma bagagem moral, religiosa ou ética. O propósito deste livro é entender; cabe ao leitor julgar. Entender como e por que os nazistas chegaram ao poder é tão importante hoje quanto sempre foi; talvez até mais, à medida que a memória se desvanece. Precisamos entrar na mente dos nazistas. Precisamos entender por que seus opositores fracassaram em detê-los. Precisamos apreender a natureza e funcionamento da ditadura nazista depois de estabelecida. Precisamos decifrar os processos por meio dos quais o Terceiro Reich mergulhou a Europa e o mundo em uma guerra de ferocidade sem paralelo que chegou ao fim com seu colapso cataclísmico. Houve outras catástrofes na primeira metade do século XX, mais notavelmente talvez o reinado de terror deflagrado por Stálin na Rússia nos anos 1930. Mas nenhuma teve um efeito tão profundo ou duradouro. A partir da entronização da discriminação racial e do ódio no centro de sua ideologia até o lançamento de uma guerra de conquista implacável e destrutiva, o Terceiro Reich marcou a consciência do mundo moderno como nenhum outro regime, quem sabe felizmente, jamais conseguiu. A história de como a Alemanha, um país estável e moderno, em tempo menor que a duração de uma única vida, levou a Europa à ruína e ao desespero moral, físico e cultural tem lições de sensatez para todos nós; mais uma vez, lições a serem tiradas pelo leitor deste livro, e não dadas pelo autor. II Explicar como isso aconteceu ocupou historiadores e comentaristas de muitos estilos desde o início. Intelectuais dissidentes e refugiados como Konrad Heiden, Ernst Fraenkel e Franz Neumann publicaram análises sobre o Partido Nazista e o Terceiro Reich durante os anos 1930 e 1940 que ainda valem a pena ser lidas, e tiveram efeito duradouro em orientar a direção das pesquisas. 16 Mas a primeira tentativa real de colocar o Terceiro Reich em seu contexto histórico depois do evento foi escrita pelo principal historiador alemão da época, Friedrich Meinecke, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Meinecke atribuiu a culpa pela ascensão do Terceiro Reich, antes de mais nada, à crescente obsessão alemã por poder mundial do final do século XIX em diante, começando comBismarck e tornando-se mais intensa na era do Kaiser Guilherme II e da Primeira Guerra Mundial. Um espírito militarista havia se espalhado pela Alemanha, julgou ele, dando ao exército uma maléfica e decisiva influência sobre a situação política. A Alemanha havia adquirido impressionante poderio industrial, mas isso fora alcançado por meio da concentração excessiva em uma educação técnica restrita, à custa de uma instrução moral e cultural mais ampla. “Estávamos procurando o que havia de ‘positivo’ na obra de Hitler”, escreveu Meinecke sobre a elite de classe média alta a que ele pertencia, e foi honesto o bastante para acrescentar que encontraram algo que pensavam ir ao encontro das necessidades da época. Mas tudo aquilo veio a se revelar uma ilusão. Olhando emretrospecto no decurso de uma vida longa o bastante para ele lembrar da unificação da Alemanha sob Bismarck em 1871 e tudo o que aconteceu dali até a queda do Terceiro Reich, Meinecke concluiu experimentalmente que havia algo falho na Nação-Estado alemã desde o momento de sua fundação em 1871. As reflexões de Meinecke, publicadas em 1946, foram importantes tanto por suas limitações quanto por sua brava tentativa de repensar as crenças políticas e aspirações de uma vida. O velho historiador ficou na Alemanha ao longo do Terceiro Reich, mas, ao contrário de muitos outros, jamais aderiu ao Partido Nazista, tampouco escreveu ou trabalhou a seu favor. Mas, ainda assim, ele era limitado pelas perspectivas do nacionalismo liberal em que foi criado. Para ele, a catástrofe foi, como o título de suas reflexões de 1946 coloca, uma catástrofe alemã, não uma catástrofe judaica, uma catástrofe europeia ou uma catástrofe mundial. Ao mesmo tempo, ele deu primazia, como os historiadores alemães haviam feito por muito tempo, à diplomacia e às relações internacionais no ocasionamento da catástrofe, em vez de aos fatores sociais, culturais ou econômicos. Para Meinecke, o problema jazia essencialmente não no que ele se referiu de passagem como a “loucura racial” que se apoderou da Alemanha sob o nazismo, mas na maquiavélica política de poder do Terceiro Reich e no lançamento de um comando para a dominação do mundo que por fim levou à sua destruição. 17 A despeito de todas as impropriedades, a tentativa de entendimento de Meinecke levantou uma série de questões-chave que, conforme ele previu, continuaram a ocupar as pessoas desde então. Como uma nação avançada e altamente culta como a Alemanha pôde ceder à força brutal do nacional-socialismo tão rápida e facilmente? Por que houve tão pouca resistência séria à tomada nazista? Como pôde um partido insignificante da direita radical ascender ao poder comsubitaneidade tão dramática? Por que tantos alemães fracassaram em perceber as consequências potencialmente desastrosas de ignorar a natureza violenta, racista e assassina do movimento nazista? 18 As respostas para essas questões variaram amplamente ao longo do tempo, entre historiadores e comentaristas de diferentes nacionalidades, e de uma posição política para outra. 19 O nazismo foi apenas uma de uma série de ditaduras violentas e implacáveis estabelecidas na Europa na primeira metade do século XX, uma tendência tão disseminada que um historiador referiu-se à Europa dessa era como um “Continente Sombrio”.

20 Isso, por sua vez, levanta questões sobre até que ponto o nazismo estava enraizado na história alemã, e até que ponto, por outro lado, foi produto do desenrolar de acontecimentos europeus mais amplos, e a extensão em que compartilhava características centrais de origem e domínio com outros regimes europeus da época. Tais considerações comparativas sugerem ser questionável presumir que fosse de algum modo menos provável uma sociedade economicamente avançada e culturalmente sofisticada cair em umabismo de violência e destruição do que uma sociedade inferior. O fato de a Alemanha ter produzido um Beethoven, a Rússia um Tolstói, a Itália um Verdi, ou a Espanha um Cervantes foi inteiramente irrelevante para o fato de todos esses países terem experienciado ditaduras brutais no século XX. A existência de grandes realizações culturais ao longo de séculos não tornam a degenerescência na barbárie política mais inexplicável do que sua ausência; cultura e política simplesmente não se impõem uma à outra de maneira tão simples e direta. Se a experiência do Terceiro Reich nos ensina alguma coisa, é que o amor por música, arte e literatura de grande qualidade não provê as pessoas de nenhum tipo de imunidade moral ou política contra a violência, atrocidade ou subserviência à ditadura. De fato, muitos comentaristas de esquerda de 1930 em diante argumentaram que a natureza avançada da cultura e sociedade alemãs foi em si a principal causa do triunfo do nazismo. A economia alemã era a mais poderosa da Europa, a sociedade alemã era a mais altamente desenvolvida. A iniciativa capitalista havia atingido uma escala e grau de organização sem precedentes na Alemanha. Os marxistas argumentaram que isso significou que o conflito de classes entre os donos do capital e aqueles que eles exploravam havia crescido até chegar ao ponto de ruptura. Desesperados para preservar seu poder e seus lucros, os grandes empresários e seus sequazes usaram toda a influência e todos os meios de propaganda de que dispunham para criar ummovimento de massa dedicado a servir a seus interesses – o Partido Nazista – e depois alçá-lo ao poder e se beneficiar quando ele lá estivesse. 21 Esse ponto de vista, elaborado com considerável sofisticação por uma enorme variedade de estudiosos marxistas desde a década de 1920 até a de 1980, não deve ser descartado de pronto como mera propaganda; ele inspirou um vasto leque de trabalhos eruditos consistentes ao longo dos anos de ambos os lados da Cortina de Ferro que dividiu a Europa durante a Guerra Fria entre 1945 e 1990. Mas, como uma explicação ampla e geral, incorre em várias petições de princípio. Mais ou menos ignorou as doutrinas raciais do nazismo, e fracassou por completo em explicar o fato de os nazistas direcionarem um ódio tão maligno aos judeus não apenas na retórica, mas também na realidade. Dados os consideráveis recursos dedicados pelo Terceiro Reich a perseguir e destruir milhões de pessoas, inclusive muitas que eram impecavelmente de classe média, produtivas e bem de vida, e em não poucos casos capitalistas, é difícil ver como o fenômeno do nazismo poderia ser reduzido a produto de uma luta de classe contra o proletariado ou a uma tentativa de preservar o sistema capitalista que tantos judeus contribuíram para sustentar na Alemanha. Além disso, se o nazismo foi o resultado inevitável da chegada do capitalismo imperialista de monopólio, como então se pode explicar o fato de ter surgido apenas na Alemanha e não em outras economias capitalistas avançadas semelhantes, como Inglaterra, Bélgica ou Estados Unidos? 22 Foi exatamente essa a pergunta que muitos não alemães fizeram durante a Segunda Guerra Mundial, e que pelo menos alguns alemães colocaram a si mesmos logo depois.

Sobretudo nos países que já haviam experimentado uma guerra contra os alemães em 1914-18, muitos comentaristas argumentaram que a ascensão e o triunfo do nazismo foram os inevitáveis produtos finais de séculos de história alemã. Segundo essa visão, formulada por escritores tão diversos quanto o jornalista americano William L. Shirer, o historiador britânico A. J. P. Taylor e o erudito francês Edmond Vermeil, os alemães sempre rejeitaram a democracia e os direitos humanos, rebaixaram-se diante de líderes fortes, rejeitaram o conceito de cidadão ativo e entregaram-se a vagos mas perigosos sonhos de dominar o mundo. 23 De forma curiosa, isso ecoou a versão nazista da história alemã, na qual os alemães também se mantinham fiéis a esses traços fundamentais por algum tipo de instinto racial básico, mas haviam se alienado deles por influências estrangeiras, como a Revolução Francesa. 24 No entanto, conforme muitos críticos apontaram, essa visão simplista levanta na mesma hora a questão sobre por que os alemães não sucumbiram a uma ditadura de estilo nazista bem antes de 1933. Essa visão ignora o fato de que havia fortes tradições liberais e democráticas na história alemã, tradições que encontraram expressão em revoltas políticas como a Revolução de 1848, quando regimes autoritários foram derrubados por toda a Alemanha. E isso torna mais difícil, em vez de mais fácil, explicar como e por que os nazistas chegaram ao poder, pois ignora a ampla oposição ao nazismo que existia na Alemanha até mesmo em 1933, e assim impede-nos de fazer a pergunta crucial de por que a oposição foi vencida. Sem reconhecer a existência de tal oposição ao nazismo dentro da Alemanha, a dramática história da ascensão do nazismo ao predomínio deixa por completo de ser umdrama: torna-se meramente a realização do inevitável. Foi fácil demais para os historiadores olharem a história alemã em retrospecto a partir do ponto de observação de 1933 e interpretar quase qualquer coisa que aconteceu nela como uma contribuição para a ascensão e triunfo do nazismo. Isso levou a todo tipo de distorções, com alguns historiadores pegando citações selecionadas de pensadores alemães como Herder, o apóstolo do nacionalismo no final do século XVIII, ou Martinho Lutero, o fundador do protestantismo no século XVI, para ilustrar o que argumentavam ser traços alemães de desprezo por outras nacionalidades e obediência cega à autoridade dentro de suas fronteiras. 25 Contudo, ao olharmos a obra de pensadores como esses mais de perto, descobrimos que Herder pregava a tolerância e simpatia para com outras nacionalidades, enquanto Lutero é famoso por insistir no direito da consciência individual de rebelar-se contra a autoridade espiritual e intelectual. 26 Além disso, embora as ideias tenham poder próprio, esse poder é sempre condicionado, ainda que indiretamente, por circunstâncias sociais e políticas, um fato que historiadores que generalizaram sobre o “caráter alemão” ou a “mente alemã” esqueceram comfrequência por demais excessiva.

27 Uma corrente de pensamento diferente, às vezes apresentada pelos mesmos escritores, enfatizava não a importância da ideologia e crença na história alemã, mas sua pouca importância. Foi dito às vezes que os alemães não tinham interesse real em política e nunca se acostumaram com o toma-ládá-cá do debate político democrático. Contudo, de todos os mitos da história alemã mobilizados para justificar o advento do Terceiro Reich em 1933, nenhum é menos convincente que o da “Alemanha não política”. Em grande parte criado pelo romancista Thomas Mann durante a Primeira Guerra Mundial, esse conceito subsequentemente tornou-se um álibi para a classe média instruída da Alemanha, que pôde absolver-se da culpa por apoiar o nazismo aceitando a crítica pela ofensa menos grave de ter falhado em se opor a ele. Historiadores de várias categorias afirmaram que a classe média alemã retirou-se da atividade política após a derrocada de 1848 e se refugiou nos negócios ou na literatura, na cultura e nas artes. Alemães cultos colocavam eficiência e sucesso acima de moralidade e ideologia. 28Contudo, existe farta evidência do contrário, como haveremos de ver ao longo deste livro. Do que quer que a Alemanha tenha sofrido nos anos 1920, não foi de falta de comprometimento e crença políticos; quiçá tenha ocorrido o oposto. Não é de surpreender que historiadores alemães considerassem tais generalizações amplas e hostis sobre o caráter alemão altamente questionáveis. Na sequência da Segunda Guerra Mundial, eles tentaram de tudo para rebater as críticas apontando as mais largas raízes europeias da ideologia nazista. Chamaram atenção para o fato de que Hitler não era alemão, mas austríaco. E aduziramparalelos com outras ditaduras da época, da Itália de Mussolini à Rússia de Stálin. Com certeza, argumentaram, à luz do colapso geral da democracia europeia no período de 1917 a 1933, o advento dos nazistas deveria ser visto não como a culminação de um longo conjunto de acontecimentos históricos unicamente alemães, mas sim como o colapso da ordem estabelecida na Alemanha e em todos os outros lugares sob o impacto cataclísmico da Primeira Guerra Mundial. 29 Segundo essa visão, a ascensão da sociedade industrial levou as massas ao palco da política pela primeira vez. A guerra destruiu a hierarquia social, os valores morais e a estabilidade econômica pela Europa.

Os impérios Habsburgo, alemão, tsarista e otomano entraram em colapso, e os novos Estados democráticos que surgiram em sua esteira rapidamente caíram vítimas da demagogia de agitadores inescrupulosos que seduziram as massas a votar por sua própria escravização. O século XX tornouse uma era de totalitarismo, culminando na tentativa de Hitler e Stálin de estabelecer um novo tipo de ordem política baseada, por um lado, no controle policial total, terror e supressão implacável e assassinato de oponentes reais ou imaginários aos milhões, e, por outro, na mobilização e entusiasmo contínuo das massas estimuladas por sofisticados métodos de propaganda. 30 Embora seja bem fácil ver como tais argumentos serviram aos interesses de expoentes ocidentais da Guerra Fria nos anos 1950 e 1960 por igualar implícita ou explicitamente a Rússia de Stálin à Alemanha de Hitler, o conceito de ambas como variedades de um mesmo fenômeno passou por uma espécie de revival há pouco tempo. 31 E com certeza não há nada de ilegítimo em comparar os dois regimes. 32 A ideia de totalitarismo como um fenômeno político geral remonta ao início da década de 1920. Foi usada em um sentido positivo por Mussolini, que, junto com Hitler e Stálin, pretendeu o controle total da sociedade envolvendo a efetiva recriação da natureza humana na forma de um“novo” tipo de ser humano. Mas, quaisquer que sejam as semelhanças entre esses vários regimes, as diferenças entre as forças que jazem por trás das origens, ascensão e eventual triunfo do nazismo e stalinismo são notavelmente diferentes para que o conceito de totalitarismo explique muita coisa nessa área. No fim das contas, é mais proveitoso usá-lo como descrição do que como explicação, e ele provavelmente é melhor para ajudar a entender como as ditaduras do século XX comportavam-se ao atingir o poder do que em esclarecer como chegaram lá. Por certo existem algumas semelhanças entre Rússia e Alemanha antes da Primeira Guerra Mundial. Ambas as nações eram governadas por monarquias autoritárias, amparadas por uma burocracia poderosa e uma forte elite militar, confrontando a rápida mudança social ocasionada pela industrialização. Ambos os sistemas políticos foram destruídos pela profunda crise da derrota da Primeira Guerra Mundial, e ambos foram sucedidos por um breve período de democracia dominada por conflitos antes que tais conflitos fossem resolvidos pelo advento das ditaduras. Mas tambémhavia muitas diferenças cruciais, sendo a principal delas o fato de que os bolcheviques fracassarampor completo em conquistar o nível de apoio público de massa em eleições livres que forneceu a base essencial para os nazistas chegarem ao poder. A Rússia era atrasada, predominantemente camponesa, carecendo das funções básicas de uma sociedade civil e de uma tradição política representativa. Era um país dramaticamente diferente da Alemanha industrialmente avançada e muito instruída, com suas tradições há muito cultivadas de instituições representativas, do papel da lei e da cidadania politicamente ativa. Com certeza, é verdade que a Primeira Guerra Mundial destruiu a velha ordem por toda a Europa.

Mas a velha ordem diferia substancialmente de um país para outro, e foi destruída de modos diferentes, com consequências diferentes. Se estamos procurando um outro país com desenvolvimento comparável, então, como veremos, a Itália, outra nação recém-unificada no século XIX ao lado da Alemanha, é um local muito melhor para se começar do que a Rússia. Ao se buscar uma explicação para as origens e ascensão do nazismo na história alemã, corre-se inegavelmente o risco de fazer todo o processo parecer inevitável. Contudo, quase a cada passo as coisas poderiam ter sido diferentes. O triunfo do nazismo estava longe de uma conclusão prévia até os primeiros meses de 1933. Contudo, tampouco foi um acidente histórico. 33 Aqueles que argumentaram que o nazismo chegou ao poder como parte de um amplo conjunto de acontecimentos essencialmente europeus estão certos por um lado. Mas deram pouquíssima atenção ao fato de que o nazismo, embora longe de ser um resultado inevitável do curso da história alemã, com certeza utilizou-se de tradições políticas e ideológicas e acontecimentos que eram de natureza especificamente alemã para ter sucesso. Essas tradições podem não retroceder até Martinho Lutero, mas com certeza podem ser rastreadas no modo como a história alemã desenrolou-se ao longo do século XIX, e sobretudo no processo pelo qual o país transformou-se em um estado unificado sob Bismarck em 1871. Assim, faz sentido começar nesse ponto, como fez Friedrich Meinecke em suas reflexões de 1946, ao buscar motivos pelos quais os nazistas chegaram ao poder depois de pouco mais de seis décadas e forjaram tamanha devastação na Alemanha, Europa e no mundo com tão pouca oposição da maioria dos alemães. Como veremos ao longo deste e dos dois volumes seguintes, existem muitas respostas diferentes para essas questões, abrangendo desde a natureza da crise que se abateu sobre a Alemanha no início da década de 1930 até o modo como os nazistas estabeleceram e consolidaram seu domínio ao alcançar o poder, e compará-las umas com as outras não é tarefa fácil. Contudo, o fardo da história alemã inegavelmente desempenhou um papel, e é, portanto, com a história alemã que este livro tem que começar.

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