A Chegada dos Deuses – Erich Von Daniken

Nazca? O que há sobre ela? Não precisamos ouvir mais nada a respeito dela, não é mesmo? Até alguns anos atrás eu achava, como muitas outras pessoas, que sabia praticamente tudo a respeito de Nazca. Sou muito versado em toda a literatura especializada e popular sobre o assunto, em todas as teorias e especulações. Nos últimos trinta anos, estive inúmeras vezes emNazca. Passei semanas voando sobre o deserto circunjacente e as montanhas próximas, e no início da década de 1970 excursionei e tropecei durante dias no cascalho quente e nas pedras castanho- avermelhadas. Eu achava que tinha solucionado o enigma de Nazca, mas nesse meio tempo me dei conta de que, na verdade, todos sabemos muito pouco a respeito do lugar. Afinal de contas o que é Nazca? Acima de tudo é um lugar misterioso, estranho e até sinistro. Nazca é ao mesmo tempo compreensível e obscura. Ela é ao mesmo tempo mágica, sedutora, lógica e absurda. Nazca é como um ataque ameaçador à nossa razão. Sua mensagem é velada e confusa — cada teoria a respeito dela é contraditória. Nazca parece inescrutável e insolúvel, louca e insensata. Alguns dos “desenhos escavados”, as mensagens visuais que circundam a pequena cidade de Nazca, parecem infantis, resultado de um impulso irrefletido; outros parecem se dirigir à nossa capacidade de raciocínio, pedindo-nos que separemos os fios desse mistério e desbravemos o caminho em direção à verdade. Nazca esquivou-se até agora das tentativas mais hábeis de solução do seu enigma. Esse fato talvez não seja surpreendente se considerarmos a maneira obstinada pela qual a razão humana se agarra ao que já é conhecido. Nós transportamos, de uma forma quase obsessiva, nosso modo de pensar e nosso conhecimento para pessoas que viveram há muito tempo e cuja visão de mundo era extremamente diferente da nossa.


Acreditamos que nossa aguçada sagacidade à la Sherlock Holmes, a nossa metodologia científica, nos conduzirá inevitavelmente ao Santo Graal do conhecimento. Ou então seguimos uma rota diferente, parapsicológica, e tentamos “intuir” a verdade a respeito de Nazca por meio de algum tipo de percepção supersensorial, tornando-nos dogmáticos no decorrer do processo: aqueles que não acreditamnessas “verdades” são praticamente culpados, ao que tudo indica, de um pecado venal. Temos então teorias sobre Nazca, especulações sobre Nazca, dogmas sobre Nazca, fantasias sobre Nazca e uma infinidade de outros loucos comentários a respeito de Nazca, os quais, ao final, não levam a lugar algum. Nazca é gigantesca — e não estou me referindo apenas às suas dimensões geográficas. À semelhança da Grande Pirâmide do Egito, Nazca é uma máquina do tempo capaz de nos transportar de volta ao passado. Quem quer que compreenda seu significado alcança uma perspectiva de extraordinária profundidade, em cujo âmago cintila um espelho que irradia a luz de volta ao universo. 1 NAZCA, NA PAN-AMERICAN HIGHWAY Aqueles que não gostam de pensar deveriam pelo menos reajustar de tempos em tempos seus preconceitos. LUTHER BURBANK, 1849-1926 Era uma vez, nas montanhas distantes do Peru, um requeno, decadente e indolente povoado. Sua única ligação com Lima, a grande capital, era uma estrada de terra pela qual ninguém viajava a não ser em caso de absoluta necessidade, pois ela atravessava centenas de quilômetros de umdeserto inóspito de areia e pedras arredondadas. Subidas e descidas, uma curva aqui e ali, e finalmente um último trecho, curto e perigoso, formado por um sinuoso desfiladeiro. Mais ou menos a cada duas horas passava-se por uma aldeia indígena decadente — sempre num lugar onde corriam os riachos oriundos dos longínquos Andes a caminho do Oceano Pacífico. Em tendas improvisadas, os indígenas ofereciam pequenas bananas ama- relo-escuras, laranjas de casca grossa, limões de um verde vivo e limonada caseira de várias tonalidades. O modo de vida dos habitantes dessas aldeias era modesto e monótono. Além de frutas, eles também plantavam cenoura, batata, cebola e algodão, e aos domingos se reuniam em uma pequena igreja católica. Hoje em dia, metade desse trajeto é uma rodovia de quatro pistas e o resto, uma estrada ampla e asfaltada.

A distância entre Lima e Nazca é de cerca de 450 quilômetros na direção sul, e o percurso para o Chile continua através da mundialmente famosa Pan-American Highway. (Conhecida na Europa como a Estrada do Sonho, ela atravessa o continente americano de norte a sul, do Alasca ao Chile.) As aldeias indígenas ao longo da estrada ainda estão no mesmo lugar, mas cresceram enormemente: sinais de trânsito e ruas de mão única conduzem o fluxo do tráfego através de distritos que excedem seus limites e estão saturados com a fumaça dos canos de descarga. À beira da estrada, proliferam restaurantes, postos de gasolina, bares e oficinas mecânicas. A pacata Nazca transformou-se numa pequena cidade completa com um museu, um parque, lojas e bancos. A freqüência à escola é compulsória. Hotéis de qualidade variada competem uns com os outros para hospedar os turistas, os viajantes que vêm de longe e os aventureiros. As ruas estão repletas dos anúncios habituais e, no limite da cidade, há um pequeno aeródromo que possui uma torre e um bar. Por um preço que varia entre cem e 150 dólares, os aficionados de Nazca podem voar sobre o mundialmente famoso Pampa de Nazca e correm o risco de vomitar enquanto os pilotos forçam seus pequenos motores em uma curva fechada após outra. Depois de cada excursão de meia hora o turista recebe um certificado da Aero Condor, assinado e datado pelo piloto, declarando que ele voou sobre a planície de Nazca. No entanto, nenhum desses apressados viajantes consegue vislumbrar o verdadeiro enigma de Nazca. Por quê? Porque os vôos dos turistas se concentram principalmente nos chamados ”desenhos escavados” na superfície castanho-averme- lhada do deserto. Eles retratam figuras como uma aranha gigante,[ 1] um beija-flor, um macaco, uma espiral e um peixe todas intercaladas por linhas retas estreitas, como se traçadas a régua — e, nas encostas, várias cabeças das quais irradiam raios. Finalmente, existem também no chão marcas isoladas que parecem gigantescas pistas de decolagem. Tudo isso pode ser observado de um avião.

No nível do solo não há praticamente nada a ser visto. Perguntei ao piloto chefe da Aero Condor, Eduardo Herran, por que o vale do Ingenio e as montanhas não são mostrados aos turistas. “Nossas instruções são para voar principalmente sobre os desenhos escavados, porque eles provavelmente interessarão aos turistas. Os vôos também ficariam muito caros se ficássemos voando sobre todos os lugares horas a fio.” Eu voei sobre todos os lugares — dias a fio. Flashback Na primavera de 1927 o arqueólogo peruano Toribio Mejia Xesspe estava trabalhando num pequeno vale lateral do rio de Nazca, onde havia algumas ruínas pré-incaicas. Ao subir um pouco mais pela encosta, onde esperava encontrar mais ruínas, ele parou para tomar fôlego e contemplou embaixo do pampa de Chiquerillo, o pampa de los Chinos e o pampa de Nazca. Algo parecia estranho. Ele avistou linhas retas, como se traçadas a régua, no deserto pretoamarronzado debaixo dele. No entanto, ele não pensou muito mais a respeito, presumindo que as linhas provavelmente fossem antigas trilhas pré-colombianas. Foi somente em 1940, depois de percorrer duas dessas linhas, que Toribio Mejia Xesspe escreveu um artigo sobre suas descobertas.{1 *} Essa foi a primeira informação a ser publicada sobre as linhas de Nazca. No dia 22 de junho de f941 o Dr. Paul Kosok, historiador da Long Island University em Nova York, embarcou num avião monomotor para procurar canais de água entre as aldeias de Ica e Nazca. Ele sabia que os incas e outras tribos anteriores a eles haviam assentado canais de suprimento de água; no entanto, esses canais sempre sumiam de vista em diferentes pontos.

Ele estava esperançoso de conseguir localizar do ar, com mais facilidade, as antigas tubulações. Ele também já sabia, havia dois anos, que lá embaixo na planície, em algum lugar entre o riacho Ingenio e a aldeia de Nazca, havia estranhas linhas que pareciam ter sido escavadas no chão. Ele se perguntou se as linhas estariam de algum modo relacionadas com o sistema de suprimento de água. O final da tarde estava claro, como sempre acontece naquela região. O Dr. Kosok apertou os olhos, mas viu apenas a superfície castanho-avermelhada debaixo dele, até que o avião começou a sobrevoar a estrada sinuosa que subia em direção a Nazca. De repente, a três quilômetros da curva que liga o vale do In- genio à planície de Nazca, o Dr. Kosok reparou em duas linhas estreitas e paralelas no chão marrom-escuro lá embaixo. O que poderiam ser essas linhas? Kosok pediu ao piloto que desse me- ia-volta e seguisse as linhas. Começando de uma colina, eles avançaram dois quilômetros sobre o pampa, terminando no que pareceu ser uma pista de aterrissagem. Kosok estimou que a faixa tivesse trinta metros de largura e pelo menos um quilômetro de comprimento. Como isso era possível? Quem teria assentado uma pista de pouso nesse fim de mundo? Kosok ficou nervoso e ordenou ao piloto que voltasse. Depois de voar na direção oposta durante alguns minutos, o avião passou sobre uma perfeita espiral situada ao lado de uma faixa ainda mais larga do que a anterior. Mais um quilômetro para o sul, Kosok avistou o contorno de um pássaro com uma envergadura de duzentos metros e outra faixa ao lado dele. Intrigado, Kosok fez o piloto voar em círculos, descendo em direção ao solo.

Ele viu uma aranha gigante e depois o claro contorno de um macaco com o rabo enrolado. Sobre a face de uma encosta escarpada ele avistou o desenho de uma figura humana de 29 metros de altura, com as mãos estendidas num gesto de saudação. E nas colinas menores estavam gravados rostos corados com grinaldas de raios e com capacetes. O Dr. Paul Kosok havia acidentalmente descoberto o livro de imagens mais misterioso do homem. 2, 3 De volta à terra firme, Kosok perguntou aos arqueólogos qual a opinião deles sobre o assunto. Eles nunca tinham ouvido falar no que ele havia visto, mas uma coisa estava clara: as faixas não podiam de jeito algum ser pistas de aterrissagem, pois nem os índios nem os incas, e muito menos as tribos pré- incaicas, haviam possuído máquinas voadoras! Surgiu até uma teoria a respeito de uma curiosa religião para explicar as faixas. Afinal de contas, as tribos indígenas haviam praticado os tipos mais estranhos de ritos mágicos. Anos se passaram. Nesse ínterim, a geógrafa e matemática alemã Maria Reiche (que havia sido aluna da Universidade de Hamburgo e do Instituto de Tecnologia de Dresden) viajou para o Peru. Ela nunca tinha ouvido falar das estranhas marcações em Nazca, mas estava interessada nas ruínas da região dos Andes. Em particular, ela queria pesquisar as ligações calendáricas dos inúmeros Intihuantanas peruanos ou “locais de observação solar”. Por obra do acaso ou do destino ela conheceu Paul Kosok, que descreveu para ela, muito agitado, as estranhas marcações de Nazca. A jovem alemã, com seu treinamento e conhecimento dos relacionamentos calendáricos, pareceu a Kosok a pessoa perfeita para desvendar o segredo de Nazca. Em 1946, instigada por Kosok, Maria Reiche começou a voltar a atenção para esse assunto, inicialmente em conjunto com seu outro trabalho.

Mas ela logo ficou maravilhada pelas fascinantes marcações. À heira da estrada poeirenta que ia do vale do Ingenio a Nazca havia uma modesta hacienda ou fazenda e seus donos alugaram um dos quartos a Reiche. O quarto na Hacienda San Pablo tornou-se assim, durante vários anos, o quartel-general de pesquisas dessa jovem incansável. Podemos ver hoje, no Museo Maria Reiche, que fica nas proximidades, uma figura de cera que a representa trabalhando, cercada por mapas e desenhos. [2] As outras salas do museu contêm impressionantes fotografias em preto e branco dessa época.

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