A Desagradável Profissão de Jonathan Hoag – Robert A. Heinlein

“Isso é sangue, doutor?” Jonathan Hoag umedeceu seus lábios com a língua e inclinou-se para frente na cadeira, tentando ver o que estava escrito na folha de papel que o médico segurava. Dr. Potbury aproximou a folha de papel de seu jaleco e olhou para Hoag sobre seus óculos. “Alguma razão em particular,” perguntou, “pela qual você deveria encontrar sangue sobre suas unhas?” “Não. Quer dizer – Bem, não – não há. Mas é sangue – ou não é?” “Não,” Potbury disse secamente. “Não, não é sangue.” Hoag sabia que deveria ter se sentido aliviado. Mas sentia-se. Ele sabia nesse momento que tinha se agarrado à ideia de que a sujeira marrom sobre suas unhas era sangue seco em vez de ter que lidar com outras, menos toleráveis, ideias. Ele sentiu-se enjoado. Mas tinha que saber – “O que é isso, doutor? Diga-me.” Potbury olhou para ele de cima a baixo. “Você me fez uma pergunta específica. Eu a respondi.


Você não me perguntou que substância ela era; você me pediu para descobrir se era ou não sangue. Não é.” “Mas – Você está brincando comigo. Mostre-me a análise.” Hoag ergueu-se um pouco da cadeira e esticou a mão em direção à folha de papel. O doutor a afastou dele, então a rasgou cuidadosamente em dois. Colocando os dois pedaços juntos os rasgou novamente, e novamente. “Mas, por quê!” “Vá procurar um médico em outro lugar,” Potbury respondeu. “Não se preocupe em pagar essa consulta. Caia fora. E não volte.” Hoag encontrou-se na rua, caminhando em direção à estação elevada. Ele ainda estava muito abalado pela descortesia do médico. Ele temia a descortesia assim como algumas pessoas temiamcobras, ou grandes alturas, ou então ambientes pequenos. Falta de educação, mesmo quando não direcionado a ele pessoalmente, mas simplesmente mostrada aos outros em sua presença, o deixava enjoado, indefeso e dominado pela vergonha.

Se ele próprio fosse o alvo da grosseria não teria defesa, exceto fugir. Colocou um pé no primeiro degrau que levava a estação elevada e hesitou. Uma viagem de tremelevado seria uma coisa a se tentar na melhor das hipóteses, mas com os empurrões e cotoveladas, com a sujeira e a sempre presente chance de um comportamento rude, ele não estava a fim disso no momento. Se tivesse que escutar o trem gritando pela curva quando virasse para o norte em direção ao anel ferroviário, suspeitava que gritaria, também. Hoag virou-se subitamente e forçou-se a parar de forma abrupta, pois estava peito a peito com umhomem que ia subir a escada. Ele se esquivou. “Olhe por onde anda amigo,” o homem disse, ao passar raspando por ele. “Desculpe”, Hoag murmurou, mas o homem já tinha seguido em frente. O tom do homem tinha sido mais de alerta que indelicado; o incidente não deveria ter perturbado Hoag, mas o perturbou. Os trajes do homem, sua aparência, seu próprio cheiro, irritou Hoag. Ele sabia que não havia mal nenhum em usar macacão bem acabado e uma jaqueta de couro, que não havia falta de virtude em um rosto um pouco gorduroso pelo suor seco acumulado no decorrer do trabalho. Fixado no boné do homem estava um emblema oval, com um número de série e algumas letras. Hoag adivinhou que era um motorista de caminhão, um mecânico, ou um ofício similar, que com suas habilidades musculares manteriam as rodas girando. Provavelmente um homem de família também, um pai carinhoso e um bom provedor, cujo maior lapso de virtude poderia ser um copo extra de cerveja ou uma tendência de apostar mais um níquel no pôquer. Era simples infantilidade para Hoag permitir-se levar-se por aparências e preferir uma camisa branca, um paletó decente e luvas.

Mas se o homem cheirasse a loção pós-barba no lugar de suor o encontro não teria sido desagradável. Hoag perguntou-se se não seria tolo e fraco. Ainda assim – poderia tal rosto grosseiro e abrutalhado ser uma marca externa de gentileza e sensibilidade? Esse nariz de batata disforme, esses olhos de porco? Deixe para lá, ele iria para casa de táxi, sem olhar para mais ninguém. Tinha um ponto de táxi logo adiante, em frente de uma charutaria. “Para onde?” A porta do táxi estava aberta, a voz do motorista impessoal e insistente. Hoag olhou para ele, hesitou e então mudou de ideia. Essa brutalidade novamente – olhos semprofundidade e uma pele marcada por cravos e poros dilatados. “Ahh… desculpe-me. Eu esqueci uma coisa.” Então virou-se rapidamente e parou abruptamente, quando algo o pegou pela cintura. Era um pequeno menino sobre patins que tinha esbarrado nele. Hoag firmou-se e assumiu a aparência de bondade paternal que usava para lidar com crianças. “Opa, cuidado aí, rapazinho!” Pegou o garoto pelo ombro e gentilmente o moveu. “Maurice!” Uma voz gritou perto de seu ouvido, estridente e insensata. Ela veio de uma grande mulher, presunçosamente gorda, que se projetava para fora da porta da charutaria.

Ela agarrou o outro braço do garoto, puxando-o para longe e armando um puxão de orelha com a outra mão livre. Hoag começou a defender o garoto quando viu que a mulher o estava encarando. O jovem, percebendo ou sentindo a atitude de sua mãe, chutou Hoag. Os patins o acertaram na canela. Doeu. Ele saiu correndo com nenhum outro propósito além sair de vista. Virou na primeira rua lateral, sua canela fazendo-o mancar um pouco, e as orelhas e parte de trás do pescoço queimando como se tivesse sido pego maltratando o pirralho. A rua lateral não estava muito melhor que a rua que tinha deixado. Não era repleta de lojas, nem dominada pela estrutura de aço dos trilhos elevados, mas era cheia de prédios de apartamentos de quatro andares e superlotados, um pouco melhor que cortiços. Poetas cantaram a beleza e a inocência da infância. Mas não teria sido essa rua, vista através dos olhos de Hoag, o que eles tinham em mente. Os pequenos garotos pareciam encará-lo irritados, comuma esperteza além de seus anos, esperteza, superficialidade e malícia. As pequenas garotas não eram melhores em seus olhos. Aquelas de oito ou nove, uma viscosa idade indefinida, pareciam fofoqueiras escritas em seus rostos apertados – almas mesquinhas, nascidas para criar problemas e fofocas cruéis. Suas irmãs ligeiramente mais velhas, sábias de sarjeta muito jovens, pareciaminteiramente preocupadas em fazer propaganda de seus arrogantes novos sexos – não para o benefício de Hoag, mas para suas contrapartidas espinhentas vagabundeando perto da farmácia.

Mesmo os pirralhos em carrinhos de bebê – Hoag imaginava que gostava de bebês, divertia-se no papel de tio honorário. Não com esses. Com narizes ranhentos e cheiro azedo, berrando miseravelmente. O pequeno hotel era como milhares de outros, definitivamente de terceira classe e sem pretensões, com um simples anúncio de neon onde se lia: “Hotel Manchester, Transientes & Permanentes,” um saguão com pé direito baixo, comprido, estreito e um pouco escuro. Frequentados por vendedores viajantes cuidadosos com suas despesas, e habitados por solteiros que não podem bancar coisa melhor. O único elevador é uma gaiola de aço, meio disfarçada com pintura bronze. O chão do saguão em azulejos, as cuspideiras em bronze. Em adição à mesa do recepcionista há duas palmeiras desencorajadas e oito poltronas de couro. Velhos anexados a elas, que parecem nunca terem tido um passado, sentam-se nessas cadeiras, vivem nos quartos acima, e vez ou outra um deles é encontrado enforcado em seu quarto, com a gravata presa ao lustre. Hoag recuou para a porta do Manchester para evitar ser pego por crianças correndo ao longo da calçada. Alguma espécie de jogo, aparentemente – pegou um trecho de um canto estridente, “- dê a ele um tapa, para fechar sua arapuca; a última morada de um sujo japa!” “Procurando alguém, senhor? Ou deseja um quarto?” Virou-se rapidamente, um pouco surpreso. Um quarto? O que queria era seu próprio apartamento confortável, mas no momento um quarto, qualquer quarto afinal, em que pudesse ficar sozinho comuma porta fechada entre si e o mundo parecia a coisa mais desejável possível. “Sim, eu quero umquarto.” O recepcionista virou o livro de registro para ele. “Com ou sem? Cinco e cinquenta com, três e meio sem.

” “Com.” O recepcionista o observou assinar, mas não buscou as chaves até que Hoag contasse cinco notas e cinquenta centavos. “Ficamos felizes em tê-lo conosco. Bill! Mostre ao Sr. Hoag o 412.” O mensageiro solitário conduziu-o até a gaiola, olhou para ele de cima a baixo com um olho, notando o corte caro de seu paletó e a ausência de bagagem. Uma vez no 412 ergueu a janela umpouco, ligou a luz do banheiro, e ficou parado na porta. “Procurando por algo?”, sugeriu. “Precisa de ajuda?” Hoag deu uma gorjeta a ele. “Caia fora,” disse rispidamente. O mensageiro removeu seu sorriso. “Fique à vontade,” disse encolhendo os ombros. O quarto tinha uma cama dupla, um cômoda com gavetas e espelho, uma cadeira de espaldar reto e uma poltrona. Sobre a cama estava um pôster enquadrado intitulado “O Coliseu sob a luz da lua.” Mas a porta podia ser fechada e era equipada com uma tranca, bem como a janela tinha vista para o beco, longe da rua.

Hoag sentou-se na poltrona. Ela tinha uma mola quebrada, mas ele não se importou. Retirou suas luvas e encarou suas unhas. Elas estavam bem limpas. Poderia a coisa toda ter sido uma alucinação? Ele chegou a ter se consultado com o Dr. Potbury? Um homem que teve amnésia uma vez poderia ter novamente, ele supunha, e alucinações também. Mesmo assim, tudo isso não devia ser alucinações; ele lembrava-se do incidente muito vividamente. Ou poderia ser? Esforçou-se para lembrar exatamente o que tinha acontecido. Hoje era quarta-feira seu costumeiro dia de descanso. Ontem tinha retornado para casa do trabalho como sempre. Estava preparando-se para vestir-se para o jantar – um pouco ausente – concentrandose, ele se recordava, em pensar sobre onde iria jantar, entre tentar um novo local italiano recomendado por seus amigos, os Robertsons, ou se não seria mais agradável retornar ao indubitavelmente excelente goulash do chef do Buda-Pesth. Tinha decidido escolher o caminho mais seguro quando o telefone tocou. Quase não o ouviu, pois a torneira estava aberta na pia. Tinha pensado ter ouvido algo então fechou a torneira. Agora com certeza, o telefone tocou novamente.

Era a Sra. Pomeroy Jameson, uma das suas favoritas anfitriãs – não somente uma mulher charmosa por si mesma, mas com um cozinheiro que era capaz de fazer sopas claras que não pareciam água suja. E molhos. Ela tinha oferecido uma solução para seu problema. “Eu fui subitamente abandonada à minha própria sorte no ultimo momento e preciso de outro homem para o jantar. Você está livre? Poderia me ajudar? Querido Sr. Hoag!” Foi uma lembrança muito agradável e ele não tinha nenhum ressentimento por ser convidado para preencher alguém ausente no último minuto. Afinal de contas, não se pode esperar ser convidado para cada pequeno jantar. Ficou encantado em prestigiar Edith Pomeroy. Ela servia um despretensioso mas excelente vinho branco seco com peixe e ela nunca cometia a grosseria de servir champanhe a qualquer momento. Era boa anfitriã e ele ficou feliz por ela ter tido a liberdade de pedir a ajuda dele. Era uma homenagem para ele que ela sentisse que ele deveria se encaixar, de forma não planejada. Ele tinha tido tais pensamentos em sua mente, recordava-se, enquanto vestia-se. Provavelmente, em sua preocupação, o que com a interrupção do telefonema seria uma quebra de rotina, ele negligenciou a escovação de suas unhas. Deve ter sido isso.

Certamente não teve oportunidade de sujar suas unhas tão atrozmente no caminho da casa de Pomeroy. Afinal, usava luvas. Tinha sido a cunhada da Sra. Pomeroy – uma mulher que preferiria evitar! – quem tinha chamado sua atenção para suas unhas. Ela esteve insistindo com um positivismo chamado de “moderno” que a profissão de cada homem estava escrita em sua pessoa. “Tome meu marido – o que mais poderia ser além de um advogado? Olhe para ele. E você, Doutor Fitts – é pura postura médica!” “Não no jantar, eu espero.” “Você não pode evitar.” “Mas você não provou sua teoria. Você já sabia o que nós somos.” Diante disse essa mulher impossível olhou em volta da mesa e o alfinetou com seus olhos. “O Sr. Hoag pode me testar. Eu não sei o que ele faz. Ninguém sabe.

” “Realmente, Julia.” A Sra. Pomeroy tentou intervir sem esperança, então se virou para o homem ao seu lado com um sorriso. “Julia esteve estudando psicologia nesse semestre.” O homem à sua esquerda, Sudkins, ou Snuggins – Stubbins, esse era o seu nome. Stubbins disse, “O que o Sr. Hoag faz?” “É um pequeno mistério. Ele nunca fala sobre o trabalho.” “Não é isso,” Hoag ofereceu uma resposta. “Eu não considero – ” “Não me diga!” aquela mulher tinha ordenado. “Eu vou descobrir em um momento. Alguma profissão. Eu consigo vê-lo com uma pasta.” Ele não tinha a intenção de contar a ela. Alguns assuntos eram conversa de jantar; outros não eram.

Mas ela prosseguiu. “Você deve trabalhar com finanças. Você pode ser um negociante de arte ou um entusiasta literário. Ou então você pode ser um escrito. Deixe-me ver suas mãos.” Ele hesitou ligeiramente frente à demanda, mas colocou suas mãos sobre a mesa sem tremer. Aquela mulher lançou-se sobre ele. “Peguei-te! Você é um químico.” Todos olharam para onde ela apontou. Todos viram as manchas escuras sobre suas unhas. Seu marido quebrou o breve silêncio ao dizer, “Bobagem, Julia. Existem dúzias de coisas que mancham unhas. Hoag pode mexer com fotografia, ou trabalhar com gravuras. Sua inferência não poderia ser mantida em um tribunal.” “Esse esta advogando para você! Eu sei que estou certa.

Não estou, Sr. Hoag?” Ele mesmo esteve olhando ininterruptamente para suas mãos. Ser pego em um jantar com a manicure desleixada teria sido o suficiente angustiante – se tivesse sido capaz de entender a razão disso. Mas não tinha a menor ideia de como suas unhas tinham ficado sujas. Foi em seu trabalho? Obviamente – mas o que fez durante o dia? Não sabia. “Conte para nós Sr. Hoag. Eu estou certa, não estou?” Ele tirou seus olhos daquelas horríveis unhas e disse baixinho, “Eu peço desculpas.” Com isso deixou a mesa. Encontrou o caminho até o lavabo, onde, de posse de uma repulsa irracional, limpou a pegajosa imundice marrom-avermelhada com a lâmina de seu canivete. A coisa grudou na lâmina; ele limpou-a com toalha de papel, a amassou e enfiou no bolso de seu colete. Então ele esfregou suas unhas, novamente, mais e mais. Ele não conseguia se lembrar de quando ficou convencido de que a coisa era sangue, era sangue humano. Conseguiu encontrar seu chapéu-coco, seu casaco, luvas e as colocou sem precisar recorrer à empregada. Saiu para a rua e fugiu de lá o mais rápido que pode.

Pensando nisso no sossego do quarto sujo de hotel, ficou convencido de que seu primeiro medo tinha sido uma repulsa instintiva com a visão do vermelho escuro sobre suas unhas. Foi apenas emum segundo momento que percebeu que não se lembrava de onde teria sujado suas unhas porque não tinha nenhuma lembrança do que tinha acontecido naquele dia, ou do dia anterior, nem de qualquer dos dias antes desse. Ele não sabia qual era a sua profissão. Era um absurdo, mas terrivelmente assustador. Pulou o jantar completamente para não ter de deixar o silencioso quarto sujo de hotel; por volta das dez horas encheu a banheira com água tão quente quanto poderia aguentar e imergiu-se. Isso o relaxou um pouco e seus pensamentos confusos sossegaram um pouco. De qualquer forma, consolouse, se ele não conseguia lembrar-se de sua ocupação, então certamente não retornaria para ela. Semchance de encontrar novamente aquela nojeira horrorosa sobre suas unhas. Enxugou-se e rastejou sobre os cobertores. Apesar da estranheza da cama, conseguiu dormir. Um pesadelo o acordou bruscamente, embora não percebesse isso de início, pois o ambiente de mau gosto do quarto parecia encaixar-se no pesadelo. Quando se lembrou de onde estava e por que estava ali o pesadelo parecia preferível, mas esse momento passou varrido de sua mente. Seu relógio mostrava que era a hora de acordar de costume; chamou o mensageiro e pediu para providenciar uma bandeja de café da manhã. No momento em que este chegou já estava vestido com a única roupa que tinha com ele e estava ficando ansioso para ir para casa. Bebeu duas xícaras de um café desinteressante de pé, brincou coma comida e então deixou o hotel.

Depois de entrar em seu apartamento pendurou seu casaco e chapéu, tirou suas luvas, e foi como de costume para sua suíte. Ele tinha esfregado cuidadosamente as unhas de sua mão esquerda e estava apenas começando a da sua direita quando percebeu o que estava fazendo. As unhas de sua mão esquerda estavam brancas e limpas; as da mão direita estavam escuras e sujas. Controlando-se cuidadosamente endireitou-se, saiu do lavabo e examinou seu relógio onde o tinha colocado no armário, então comparou a hora marcada com o relógio elétrico ao lado da cama. Era seis e dez após o meio dia – seu horário usual em que retornava para casa à noite. Ele podia não se lembrar de sua profissão; sua profissão, certamente, não tinha se esquecido dele. II A empresa de Randall & Craig, Investigações Confidenciais, mantinha seu telefone noturno em um apartamento duplex. Isso era conveniente, pois Randall tinha se casado com Craig no começo da associação. A sócia minoritária tinha acabado de colocar os pratos do jantar na lava-louças e estava tentando decidir se iria continuar lendo o livro do mês quando o telefone tocou. Ela estendeu as mãos, pegou o receptor e disse, “Sim?” em um tom descompromissado. A isso ela adicionou, “Sim.” O sócio majoritário parou o que estava fazendo – ele estava engajado em um delicado trabalho de investigação científica, envolvendo armas mortais, balística e alguns aspectos esotéricos da aerodinâmica; mais especificamente estava tentando aperfeiçoar seu arremesso com os dardos, usando uma rotogravura de uma glamorosa garota pregada em uma placa de pão como alvo. Umdardo tinha atingido seu olho esquerdo; ele estava tentando combiná-lo acertando um no direito. “Sim.” sua esposa disse novamente.

“Tente dizer ‘Não,’” ele sugeriu. Ela tapou o bocal do telefone. “Fique quieto e me dê um lápis.” Ela estendeu um longo braço através da mesa de canto e pegou um bloco de estenografia de um gancho. “Sim. Prossiga.” Aceitando o lápis ela traçou várias linhas e rabiscos que estenógrafos usam no lugar de escrever. “Isso parece mais provável,” ela disse finalmente. “O Sr. Randall não está aqui usualmente nessa hora. Ele prefere muito mais ver os clientes durante o horário comercial. O Sr. Craig? Não, eu tenho certeza que o Sr. Craig não poderia ajudá-lo. Positivo.

Então? Espere na linha e eu vou descobrir.” Randall fez mais uma tentativa na adorável senhora; o dardo atingiu a perna do aparelho de rádio. “Então?” “Tem uma figura do outro lado da linha que deseja muito vê-lo nesta noite. O nome é Hoag, Jonathan Hoag. Alega que é uma impossibilidade física vê-lo durante o horário comercial. Não quer dizer sua profissão e ficou todo confuso quando tentou dizer.” “Cavalheiro ou mal educado?” “Cavalheiro.” “Tem dinheiro?” “Parece que sim. Não parecia preocupado com isso. Melhor pegar, Teddy. Dia 15 de Abril está chegando.” “O.K. Passe para mim.” Ela o afastou e falou novamente no telefone.

“Eu consegui localizar o Sr. Randall. Eu acho que ele conseguirá falar com o senhor em alguns instantes. Você pode aguardar na linha, por favor?” Ainda segurando o telefone longe de seu marido ela consultou seu relógio, cuidadosamente contando trinta segundos, e então disse, “Pronto com o Sr. Randall. Pode prosseguir, Sr. Hoag.” e deslizou o aparelho para o seu marido. “Edward Randall falando. O que há, Sr. Hoag?” “Oh, realmente agora, Sr. Hoag, eu acho que seria melhor o senhor vir pela manhã. Nós todos somos humanos e precisamos ter nosso descanso – Eu preciso, de qualquer forma. “Eu preciso avisá-lo, Sr. Hoag, meus preços aumentam quando o sol se põe.

“Bem, agora, deixe-me ver – Eu estava prestes a sair para ir para casa. Na verdade, eu acabei de falar com minha esposa, portanto ela está me aguardando. Você sabe como as mulheres são. Mas se você puder vir até minha casa em vinte minutos, às… ah… dezessete minutos após as oito horas, nós poderemos conversar por alguns minutos. Tudo bem – tem um lápis à mão? Esse é o endereço –” Ele desligou o telefone. “O que eu serei dessa vez? Esposa, sócia ou secretária?” “O que você acha? Você falou com ele.” “’Esposa’, eu acho. Sua voz soava fresca.” “O.K.” “Eu vou colocar um vestido de jantar. E é melhor recolher seus brinquedos do chão, Gênio.” “Ah, não sei. Isso dá um belo toque de excentricidade.” “Talvez você queira um pouco de tabaco em um chinelo felpudo.

Ou uma cigarrilha Regie.” Ela moveu-se pela sala, desligando as luzes do teto e ligando as luminárias de mesa e de chão de forma que a cadeira onde o visitante naturalmente se sentaria estivesse bem iluminada. Sem responder ele reuniu seus dardos e a tábua de pão, parando para umedecer seu dedo e esfregar o pondo onde tinha marcado o rádio, então colocou toda a coleção na cozinha e fechou a porta. Na luz suave, com a cozinha e a mesa de café da manhã não mais visível, a sala parecia serenamente opulenta. “Como você vai, Senhor? Sr. Hoag, meu caro. Sr. Hoag… Sra. Randall.” “Como vai, senhora.” Randall o ajudou com seu casaco, assegurando-se no processo de que o Sr. Hoag não estava armado, ou – se estivesse – ele teria encontrado algum lugar diferente do ombro ou quadril para carregar uma arma. Randall não estava desconfiado, mas era pragmaticamente pessimista. “Sente-se Sr. Hoag.

Cigarro?” “Não. Não, obrigado.” Randall não disse nada como resposta. Ele sentou-se e o encarou, não rudemente, mas suavemente, não obstante intensamente. O seu terno poderia ser da marca English ou Brook Brothers. Certamente não seria Hart, Schaffner & Marx. O laço em seu pescoço poderia ser qualificado como uma gravata, embora fosse modesto como o de freira. Ele elevou seus honorários mentalmente. O pequeno homemestava nervoso – ele não relaxaria em sua cadeira. Seria a presença da mulher, provavelmente. Bom – deixe-o cozinhar em fogo baixo, para então retirá-lo do fogo. “Você não precisa se preocupar com a presença da Sra. Randall,” disse logo. “Tudo que eu puder ouvir, ela poderá ouvir também.” “Oh… Oh, sim.

Sim, realmente.” Ele curvou-se um pouco à frente, sem levantar-se. “Eu estou muito feliz em ter a Sra. Randall presente.” Mas não prosseguiu para dizer qual era seu problema. “Bem, Sr. Hoag,” Randall logo acrescentou, ”você desejava me consultar sobre algo, não é?” “Uh, sim.” “Então talvez seja melhor você me contar sobre isso.” “Sim, certamente. Isso – ou melhor – Sr. Randall, a coisa toda é absurda.” “A maior parte de nosso negócio é absurdo. Mas prossiga. Problemas com mulher? Ou alguém está lhe enviando cartas ameaçadoras?” “Oh, não! Nada simples assim. Mas estou com medo.

” “De quê?” “Eu não sei,” Hoag respondeu rapidamente inspirando um pouco. “Eu desejo que você descubra.” “Espere um minuto, Sr. Hoag,” Randall disse. “Isso parece estar ficando cada vez mais confuso e não menos. Você disse que teme algo e que você quer que eu descubra do quê você tem medo. Eu não sou um psicanalista; Eu sou um detetive. O que existe nisso tudo que um detetive possa fazer?” Hoag olhou infeliz, então soltou de uma vez, “Eu quero que você descubra o que eu faço no horário comercial.”

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