A espada do verão (Magnus Chase e os deuses de Asgard Livro 1) – Rick Riordan

É, EU SEI. Vocês vão ler sobre minha morte agonizante e vão pensar: “Uau! Que maneiro, Magnus! Posso ter uma morte agonizante também?” Não. Tipo, não. Não saiam por aí pulando de telhados. Não corram entre os carros nem taquem fogo no próprio corpo. Não é assim que funciona. Vocês não vão para o mesmo lugar que eu. Além do mais, vocês não gostariam de se ver na minha situação. A não ser que tenham o desejo insano de ver guerreiros mortos-vivos fazendo picadinho uns dos outros, espadas enfiadas na narina de gigantes e elfos negros em roupas sofisticadas, nem pensem em procurar os portões com cabeças de lobo. Meu nome é Magnus Chase. Tenho dezesseis anos. Esta é a história de como minha vida seguiu ladeira abaixo depois que eu morri. * * * Meu dia até que começou bem normal. Eu estava dormindo debaixo de uma ponte no Public Garden, em Boston, quando um cara me acordou com um chute e disse: — Tem gente atrás de você. A propósito, eu moro na rua faz dois anos.


Alguns de vocês podem pensar: Puxa, que triste. Outros talvez pensem: Bem-feito, vagabundo! Mas, se me vissem na rua, tenho noventa e nove por cento de certeza de que passariam direto por mim como se eu fosse invisível, torceriam para que eu não me aproximasse pedindo dinheiro e se perguntariam se sou mais velho do que pareço, porque, obviamente, nenhum adolescente andaria pelas ruas de Boston enrolado em um saco de dormir fedido no meio do inverno. Alguém ajude aquele pobre garoto! E continuariam andando. Tudo bem. Não preciso da solidariedade de vocês. Estou acostumado a zombarias. E estou acostumado a ser ignorado. Vamos em frente. O mendigo que me acordou foi um cara chamado Blitz. Como sempre, parecia ter acabado de atravessar correndo um furacão de imundície. Seu cabelo preto e crespo vivia cheio de pedaços de papel e fragmentos de galhos. Seu rosto era tostado como couro curtido, todo salpicado de gelo. Sua barba áspera se abria em todas as direções. A barra de seu sobretudo surrado estava coberta de neve, pois se arrastava no chão (Blitz tinha mais ou menos um metro e sessenta de altura), e suas pupilas estavam tão dilatadas que mal se via a íris. Graças aos olhos esbugalhados, ele parecia prestes a gritar a qualquer segundo.

Pisquei repetidas vezes, tentando afastar o sono. Eu sentia gosto de hambúrguer velho na boca. Meu saco de dormir estava quentinho, e eu realmente não queria sair dali. — Quem está atrás de mim? — Sei lá. — Blitz esfregou o nariz, que, depois de tantas vezes quebrado, formava um zigue-zague que nem um raio. — Tem um pessoal aí distribuindo panfletos com o seu nome e uma foto sua. Soltei um palavrão. Se fosse um policial ou um segurança, tudo bem. Assistentes sociais, voluntários de serviço comunitário, universitários bêbados, viciados a fim de espancar alguémpequeno e fraco: encarar qualquer um desses logo cedo seria mole como acordar com café da manhã na cama. Mas alguém que sabia meu nome e conhecia meu rosto… isso era mau sinal. Significava que estavam procurando especificamente por mim. Talvez a galera do abrigo estivesse com raiva por eu ter quebrado o aparelho de som deles. (Aquelas cantigas de Natal eram de enlouquecer.) Talvez uma câmera de segurança pública tivesse flagrado o último furto que eu cometera na área do Theater District. (Ei, eu precisava de dinheiro para uma pizza.

) Ou talvez, por mais improvável que parecesse, a polícia ainda estivesse na minha cola, querendo fazer perguntas sobre o assassinato da minha mãe… Recolhi minhas coisas, o que levou uns três segundos. Enrolei o saco de dormir bem apertado para caber na mochila, junto com a escova de dentes e algumas meias e cuecas. Além da roupa do corpo, isso era tudo o que eu tinha. Com a mochila no ombro e o capuz do casaco cobrindo a cabeça, eu conseguia facilmente me misturar à multidão de pedestres. Boston é cheia de universitários. Alguns ainda mais desgrenhados e aparentando ser ainda mais jovens que eu. Eu me virei para Blitz. — Onde você viu essas pessoas com panfletos? — Na rua Beacon. Estão vindo para cá. Um coroa branquelo e uma garota. Deve ser filha dele. Franzi a testa. — Isso não faz sentido. Quem…? — Não sei, garoto, mas eu tenho que ir. Blitz observou com olhos semicerrados o nascer do sol, que tingia de laranja as janelas dos arranha-céus.

Por motivos que nunca entendi direito, ele detestava a luz do dia. Talvez fosse o vampiro sem-teto mais baixo e corpulento do mundo. — Você devia ir encontrar o Hearth. Ele está na praça Copley. Tentei conter a irritação. O pessoal da rua brincava dizendo que Hearth e Blitz eram minha mãe e meu pai, porque eu tinha sempre um ou outro perto de mim. — Agradeço — falei. — Mas vou ficar bem. Blitz começou a roer a unha. — Sei não, garoto. Hoje, não. Você tem que tomar muito cuidado. — Por quê? Ele olhou de relance por cima do meu ombro. — Eles estão vindo. Não vi ninguém atrás de mim.

Quando me virei de volta, Blitz tinha sumido. Eu odiava quando ele fazia isso. De repente… puf. O cara era um ninja. Um vampiro-ninja semteto. Agora, eu precisava escolher: ir até a praça Copley e ficar com Hearth ou ir até a rua Beacon para tentar ver quem eram as pessoas que estavam me procurando. A descrição que Blitz fez delas me deixou curioso. Um coroa branco e uma garota me procurando logo cedo em uma manhã de inverno. Por quê? Quem seriam eles? Discretamente, contornei o laguinho. Quase ninguém pega a trilha que passa sob a ponte, então, se eu seguisse pela lateral da colina, conseguiria ver qualquer um que se aproximasse pela outra trilha sem que me vissem. Uma camada de neve cobria o chão. O céu estava de um azul de doer os olhos. Os galhos nus das árvores pareciam feitos de vidro. O vento cortante atravessava as camadas de roupas, mas o frio não me incomodava. Minha mãe sempre dizia que eu era quase um urso-polar.

Droga, Magnus, pensei, repreendendo a mim mesmo. Depois de dois anos, minhas lembranças dela ainda eram um campo minado. Era só eu tropeçar emuma que meu equilíbrio explodia em pedacinhos. Tentei me concentrar. Vi o homem e a garota vindo na minha direção. O cabelo louro dele cobria a gola do casaco — não em um estilo intencional, mas como se ele não pudesse se dar ao trabalho de ir cortar. Sua expressão de perplexidade era como a de um professor substituto: Sei que fui atingido por uma bolinha de papel, mas não faço ideia de quem a jogou. Ele usava sapatos sociais, uma escolha totalmente equivocada para o inverno de Boston. Cada meia era de um tom diferente de marrom. O nó da gravata parecia ter sido feito enquanto ele rodopiava na mais completa escuridão. A garota era filha dele, com certeza. Tinha o cabelo farto e ondulado como o do homem, só que em um tom mais claro. Estava vestida de forma mais sensata: botas de neve, calça jeans e uma parca, além de uma camisa laranja aparecendo na altura do pescoço. Sua expressão era mais determinada, zangada. Ela segurava a pilha de panfletos como se fossem cópias de uma redação em que recebera uma nota baixa injustamente.

Se ela estava me procurando, eu não queria ser encontrado. A garota era assustadora. Não a reconheci, nem ao pai dela, mas alguma coisa pipocou no fundo da minha mente… como umímã tentando puxar uma lembrança muito antiga. Pai e filha pararam no ponto em que o caminho bifurcava. Os dois olharam ao redor, como se só então percebessem que estavam no meio de um parque deserto em um horário cruel em pleno inverno. — Inacreditável — disse a garota. — Dá vontade de estrangulá-lo. Supondo que ela estivesse falando de mim, me abaixei um pouco mais. O pai suspirou. — Acho que não é uma boa ideia. Ele ainda é seu tio. — Mas dois anos? Pai, como ele pôde ficar dois anos sem contar para a gente? — Não sei explicar as decisões de Randolph. Nunca soube, Annabeth. Inspirei com tanta força que tive medo de eles ouvirem. Uma ferida se abriu no meu cérebro, expondo dolorosas lembranças de quando eu tinha seis anos.

Annabeth. Ou seja, o homem louro era… tio Frederick? Então minhas lembranças me levaram ao último Dia de Ação de Graças que havíamos passado juntos: Annabeth e eu escondidos na biblioteca da casa do tio Randolph, brincando com peças de dominó enquanto os adultos gritavam uns com os outros no andar de baixo. Você tem sorte de morar com a sua mãe. Annabeth colocou mais um dominó na miniconstrução. Uma construção incrivelmente boa, com colunas na frente, como um templo. Vou fugir de casa. Eu não tinha dúvida de que era sério. A confiança dela me impressionava. Foi quando tio Frederick apareceu à porta com os punhos cerrados, sua expressão sombria contrastando com as renas sorridentes em seu suéter. Annabeth, vamos embora. Ela olhou para mim. Seus olhos cinzentos eram intensos demais para uma menina da idade dela. Se cuida, Magnus. Com um peteleco, derrubou o templo de dominó que havia construído. Foi a última vez que a vi.

Depois, minha mãe foi inflexível: Vamos ficar longe de seus tios. Principalmente do Randolph. Não vou fazer o que ele quer. Jamais. Ela não explicou o que Randolph queria, nem sobre o que tinha discutido com os irmãos. Você precisa confiar em mim, Magnus. Ficar perto deles… é perigoso demais. Eu confiava em minha mãe. Mesmo após a morte dela, não tive mais qualquer contato com meus tios. Agora, do nada, eles estavam me procurando. Randolph morava na cidade, mas, até onde eu sabia, Frederick e Annabeth ainda moravam na Virginia. No entanto, ali estavam eles, distribuindo panfletos com meu nome e minha foto. Onde tinham conseguido uma foto minha? Eu estava tão confuso que perdi uma parte da conversa. — … encontrar Magnus — dizia tio Frederick. Ele olhou para o celular.

— Randolph está no abrigo da cidade, no South End. Disse que não encontrou nenhuma pista. Vamos tentar a sorte no abrigo para menores do outro lado do parque. — Se é que Magnus ainda está vivo… — disse Annabeth, com tristeza. — Desaparecido há dois anos! Ele pode ter morrido congelado em uma sarjeta qualquer! Fiquei tentado a sair do meu esconderijo e gritar: SURPRESAAA! Embora fizesse dez anos desde a última vez que eu vira Annabeth, não gostei de vê-la preocupada. Mas, depois de tanto tempo nas ruas, eu tinha aprendido do jeito mais difícil: nunca se meta em uma situação sem antes entender o que está acontecendo. — Randolph tem certeza de que Magnus está vivo — afirmou tio Frederick. — Em algum lugar de Boston. Se a vida dele estiver mesmo em perigo… Eles seguiram na direção da rua Charles, suas vozes sendo levadas pelo vento. Eu estava tremendo agora, mas não era de frio. Queria correr atrás de Frederick e exigir uma explicação sobre o que estava acontecendo. Como Randolph sabia que eu ainda estava na cidade? Por que estavam me procurando? Por que só agora minha vida estava correndo perigo? Mas não fui atrás deles. Eu me lembrei da última coisa que minha mãe me disse. Estava relutando em fugir pela escada de incêndio, relutando em deixá-la, mas ela me segurou pelos braços e me obrigou a encará-la. Magnus, fuja.

Vá se esconder. Não confie em ninguém. Eu vou encontrar você. Aconteça o que acontecer, não peça ajuda a Randolph. Então, antes de eu chegar à janela, a porta do nosso apartamento foi arrebentada e um par de brilhantes olhos azuis surgiu da escuridão… Afastei a lembrança e observei tio Frederick e Annabeth indo embora, na direção do parque Boston Common. Tio Randolph… Por algum motivo, ele havia entrado em contato com Frederick e Annabeth e os convencido a vir até Boston. Durante todo aquele tempo, Frederick e Annabeth não sabiam que eu estava desaparecido. Parecia impossível, mas, se fosse verdade, por que Randolph teria decidido lhes contar isso agora? Eu só conseguia pensar em um jeito de obter as respostas sem confrontá-lo diretamente. Ele morava em Back Bay, aonde dava para ir a pé. De acordo com Frederick, Randolph não estava em casa, e sim em alguma parte do South End, me procurando. Como não há nada melhor para começar o dia do que uma boa invasão domiciliar, decidi fazer uma visitinha à casa dele. DOIS O homem com sutiã de metal A MANSÃO DA família era horrível. Ah, claro, vocês não achariam. Apenas veriam uma enorme casa de tijolos marrons de seis andares com enfeites de gárgulas, os vitrais acima das portas e janelas, os degraus de mármore na entrada e todos os detalhes do blá-blá-blá de gente rica e se perguntariam por que estou morando nas ruas. A resposta: tio Randolph.

Aquela casa era dele. Como filho mais velho, ele a herdou dos meus avós, que morreram antes de eu nascer. Eu nunca soube os detalhes do drama familiar, mas havia muito ressentimento entre os três filhos: Randolph, Frederick e minha mãe. Depois da Grande Cisão no Dia de Ação de Graças, nunca mais visitamos o antigo lar da família. Nosso apartamento ficava a poucos metros de distância, mas daria no mesmo se Randolph morasse em Marte. Minha mãe só tocava no nome dele se por acaso passássemos de carro pela mansão. Ela apontava da mesma forma que apontaria para um penhasco perigoso. Está vendo aquela casa? Evite ir até lá. Depois que comecei a morar nas ruas, às vezes passava por lá à noite. Eu olhava pelas janelas e via vitrines de vidro iluminadas exibindo espadas e machados antigos, elmos apavorantes commáscaras me encarando das paredes e estátuas delineadas nas janelas do andar de cima, como fantasmas petrificados. Pensei várias vezes em invadir a casa para xeretar, mas nunca fiquei tentado a bater à porta. Por favor, tio Randolph, sei que você odiava minha mãe e não me vê há dez anos; sei que você liga mais para sua coleção enferrujada do que para a própria família; mas posso morar na sua linda casa e comer os farelos do seu pão? Não, obrigado. Eu preferia ficar na rua, comendo falafel do dia anterior da praça de alimentação. Ainda assim… parecia bem simples entrar, dar uma olhada e ver se conseguia encontrar respostas sobre o que estava acontecendo. E talvez, enquanto estivesse lá, pudesse pegar alguma coisa para penhorar.

Lamento se ofendo seu senso de honestidade. Ah, espere. Não, não lamento nem um pouco. Eu não roubo de qualquer um. Escolho imbecis antipáticos que já têm coisas demais. Se você dirige uma BMW novinha e estaciona na vaga de deficiente sem ter o adesivo, não vejo problema emarrombar sua janela e levar umas moedas esquecidas no porta-copos. Se você sai da Barneys com a sacola cheia de lenços de seda e está tão ocupado falando ao celular e empurrando as pessoas para passar que nem presta atenção, eu estou lá, pronto para furtar sua carteira. Se alguém pode gastar cinco mil dólares só para assoar o nariz, também pode pagar o meu jantar. Sou juiz, júri e ladrão. E, no que diz respeito a imbecis antipáticos, achei que não podia existir ninguém pior do que tio Randolph. A entrada da casa dava para a avenida Commonwealth. Segui para os fundos, para a poeticamente batizada travessa Pública 429. A vaga de Randolph estava vazia. Uma escada levava a uma entrada pelo porão. Se havia um sistema de segurança, não consegui ver.

A porta tinha apenas uma fechadura simples, nada de tranca. O que é isso, Randolph? Eu esperava um desafio. Dois minutos depois, eu estava lá dentro. Na cozinha, me servi de peito de peru, torradas e leite direto da caixa. Nada de falafel. Droga. Agora eu fiquei com desejo, mas encontrei uma barra de chocolate e a guardei no bolso do casaco. (Chocolate precisa ser saboreado, não comido às pressas.) Então subi as escadas até um mausoléu de mobília de mogno, tapetes orientais, pinturas a óleo, piso de mármore e candelabros de cristal… Era constrangedor. Quem vivia assim? Eu não tinha noção do quanto tudo aquilo era caro quando tinha seis anos, mas minha impressão geral da mansão continuava a mesma: escura, opressiva e apavorante. Era difícil imaginar minha mãe passando a infância ali. Era fácil entender por que ela gostava tanto da natureza. Nosso apartamento em cima da churrascaria coreana em Allston era bem aconchegante, mas mamãe não gostava de ficar dentro de casa. Ela sempre dizia que seu verdadeiro lar era Blue Hills. Fazíamos trilhas e acampávamos por lá fizesse chuva ou sol; o ar era fresco, não havia paredes nemteto e nenhuma companhia além de patos, gansos e esquilos.

Em comparação, a mansão parecia uma prisão. Enquanto estava sozinho no saguão, senti umarrepio, como se pequenos besouros invisíveis rastejassem pela minha pele. Fui para o segundo andar. A biblioteca tinha cheiro de couro e cera com aroma de limão, como eu lembrava. Perto da parede, uma vitrine com os elmos vikings enferrujados e os machados corroídos de Randolph. Minha mãe me disse uma vez que Randolph dava aula de história em Harvard antes de alguma grande desgraça fazer com que fosse demitido. Ela não quis entrar em detalhes, mas o cara ainda era doido por artefatos. Você é mais inteligente do que seus dois tios, Magnus, minha mãe me disse certa vez. Com suas notas, poderia entrar em Harvard se quisesse. Isso foi quando ela ainda estava viva, eu ainda estava na escola e pensar no futuro ia além de como conseguir a próxima refeição. Em um canto do escritório de Randolph, havia um grande pedaço de pedra que parecia uma lápide, com a frente entalhada e pintada com desenhos vermelhos elegantes e intrincados. No centro, havia um desenho rudimentar de uma fera rosnando, talvez um leão ou um lobo. Tremi. Não vamos começar a pensar em lobos. Eu me aproximei da escrivaninha de Randolph.

Estava torcendo para encontrar um computador ou um bloco cheio de informações úteis, qualquer coisa que explicasse por que eles estavam me procurando. Mas, em vez disso, espalhados sobre a mesa havia pedaços de pergaminho finos como casca de cebola. Pareciam mapas que um estudante da época medieval tinha feito para a aula de estudos sociais: desenhos desbotados de uma costa, com vários pontos sinalizados em um alfabeto que eu não conhecia. Em cima deles, como peso de papel, estava uma bolsinha de couro. Prendi a respiração. Eu conhecia aquela bolsinha. Desamarrei a corda e peguei uma das peças do dominó… Só que não era um dominó. Meu eu de seis anos supôs que Annabeth e eu brincávamos com dominós. Ao longo dos anos, a lembrança foi reforçando a si mesma. Mas, em vez de pontos, aquelas pedras tinham símbolos vermelhos pintados. A que eu segurava tinha a forma de um galho de árvore ou de um F torto: Meu coração disparou. Não sabia bem por quê. Perguntei-me se ir até ali fora mesmo uma boa ideia. As paredes pareciam estar se fechando ao meu redor. Na grande pedra no canto, o desenho do animal parecia rosnar para mim, com o contorno vermelho brilhando como sangue fresco.

Fui até a janela. Achei que olhar a rua talvez ajudasse. Entre as avenidas ficava o Commonwealth Mall, um parque comprido coberto de neve. As árvores sem folhas estavam decoradas com luzes brancas de Natal. No final da quadra, dentro de uma cerca de ferro, havia a estátua de bronze de Leif Erikson sobre um pedestal, uma das mãos rente à testa. Leif olhava na direção do viaduto Charlesgate como se dizendo: Vejam só, descobri uma rodovia! Minha mãe e eu gostávamos de fazer piada com Leif. A armadura dele era leve: uma saia curta e um peitoral que parecia um sutiã viking. Eu não sabia por que aquela estátua estava no meio de Boston, mas achei que não podia ser coincidência tio Randolph estudar vikings. Ele morou ali a vida toda. Devia olhar para Leif todos os dias pela janela. Talvez, quando criança, Randolph tenha pensado: Um dia, quero estudar os vikings. Homens que usam sutiã de metal são demais! Meus olhos seguiram para a base da estátua. Alguém estava em pé ali… olhando para mim. Sabe quando você vê uma pessoa fora do contexto e demora um segundo para reconhecê-la? Na sombra de Leif Erikson, havia um homem alto e pálido com uma jaqueta preta de couro, calça preta de motoqueiro e botas de bico fino. O cabelo curto e espetado era tão louro que parecia branco.

A única cor vinha de um cachecol listrado de vermelho e branco amarrado no pescoço e caindo sobre os ombros como um doce de Natal derretido. Se eu não o conhecesse, podia achar que estava fantasiado de algum personagem de anime. Mas eu o conhecia. Era Hearth, meu companheiro sem-teto e “mãe” emprestada. Fiquei um pouco assustado e ofendido. Ele me viu na rua e me seguiu? Eu não precisava de uma fada madrinha perseguidora cuidando de mim. Abri os braços: O que você está fazendo aqui? Hearth fez um gesto como se estivesse tirando uma coisa da mão em concha e jogando longe. Depois de dois anos andando com ele, eu estava ficando bom em ler linguagem de sinais. Significava SAIA. Hearth não parecia alarmado, mas era difícil decifrá-lo. Ele nunca demonstrava muita emoção. Sempre que andávamos juntos, só me olhava com aqueles olhos cinza-claros, como se a qualquer momento eu fosse explodir. Perdi segundos valiosos tentando entender o que ele queria dizer, por que ele estava aqui quando devia estar na praça Copley. Hearth fez outro gesto: as duas mãos apontando para fora com dois dedos, se movendo para cima e para baixo duas vezes. Ande logo.

— Por quê? — perguntei em voz alta. Atrás de mim, uma voz grave disse: — Olá, Magnus. Tomei um susto daqueles. Na porta da biblioteca havia um homem com peito largo, barba branca bem aparada e cabelo grisalho cortado curto. Usava um sobretudo de caxemira bege por cima de umterno de lã preto. As mãos enluvadas seguravam o cabo de uma bengala de madeira polida com ponta de ferro. Na última vez que o vi, o cabelo dele era preto, mas o reconheci pela voz. — Randolph. Ele inclinou a cabeça um milímetro. — Que surpresa agradável. Estou feliz em encontrá-lo aqui. — Ele não parecia nem surpreso nemfeliz. — Não temos muito tempo. A comida e o leite começaram a se agitar no meu estômago. — M-Muito tempo… para quê? Randolph franziu a testa.

O nariz se enrugou como se ele estivesse sentindo um cheiro desagradável. — Você faz dezesseis anos hoje, não é? Eles estão vindo matar você.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |