A grande jornada – Richard Adams

CORO: Por que gritas assim, a menos que vejas uma visão horrenda? CASSANDRA: A casa cheira a morte e sangue gotejante. CORO: Como assim? É apenas o odor do altar de sacrifícios. CASSANDRA: O fedor é como um hálito que sai da tumba. Esquilo, Agamenon As prímulas espalhavam-se por toda parte. Na direção da fímbria do bosque, onde o chão se expunha e escorregava até uma velha cerca e um fosso espinhoso mais além, somente alguns trechos desbotados, de um amarelo pálido, mostravam-se ainda entre os mercúrios-do-campo e raízes de carvalho. No outro lado da cerca, a parte superior do campo estava cheia de tocas de coelhos. Emcertos lugares a erva desaparecera de todo, e por toda parte havia montículos de estéreo seco, através dos quais nada, a não ser a erva-de-santiago, podia crescer. A cem metros de distância, no fundo do declive, corria o ribeiro — não mais de um metro de largura — meio obstruído combotões-de-ouro, agriões e becabungas azuis. Os trilhos das carretas passavam junto a um bueiro de tijolos e escalavam o declive oposto, até um portão de cinco barras, na sebe de espinhos. A cancela conduzia à planície. O crepúsculo de maio tinha nuvens vermelhas e faltava ainda meia hora para o escurecer. O declive seco estava pontilhado de coelhos — uns mordiscando a erva rala, perto de suas tocas, outros avançando para baixo, à procura de dentes-de-leão ou talvez de uma prímula que os demais houvessem esquecido. Aqui e ali, um deles sentava-se, aprumado, sobre um formigueiro, e olhava ao redor, com as orelhas eretas e o nariz sentindo o vento. Mas um melro, cantando tranqüilamente nas imediações do bosque, demonstrava que nada havia, ali, de alarmante — e na outra direção, ao longo do córrego, o plano facilitava a vista; tudo vazio e quieto. A coelheira encontrava-se em paz.


No alto do barranco, rente à cerejeira silvestre onde o melro cantava, havia um grupinho de buracos quase ocultos pelas sarças. À meia-luz verde, na boca de um desses buracos, dois coelhos estavam sentados juntos, lado a lado. Por fim, o maior dos dois saiu, deslizou pelo barranco, sob a cobertura das sarças, entrou no fosso e subiu para o campo. Instantes depois o outro acompanhou-o. O primeiro coelho parou num trecho ensolarado e cocou a orelha, em rápidos movimentos de sua pata traseira. Embora fosse um animal de um ano, e ainda estivesse aquém do peso completo, não tinha a aparência lerda da maioria dos suburbanos — isto é, os soldados rasos, coelhos ordinários, em seu primeiro ano de vida, os quais, por lhes faltar linhagem aristocrática ou tamanho e força incomuns, eram ignorados pelos mais velhos e viviam como bem podiam — muitas vezes em campo aberto —, na fímbria da coelheira. Aquele coelho parecia saber cuidar de si próprio. Dava impressão de astúcia e vivacidade ao sentar-se, olhar em volta e esfregar as patas dianteiras no nariz. Ao se dar conta de que tudo ia bem, baixou as orelhas e pôs-se a escrutinar a erva. Seu companheiro parecia menos à vontade. Era pequeno, com olhos graúdos, de expressão fixa, e uma forma de erguer e virar a cabeça que sugeria não propriamente cautela, mas uma espécie de incessante tensão nervosa. Seu nariz movia-se continuamente, e quando um abelhão voou, zunindo, até uma moita de cardos às suas costas, saltou e girou com tal sobressalto que dois coelhos correramà procura de tocas, até que o mais próximo, um macho com orelhas de pontas negras, reconheceu-o e voltou a mastigar. — Ora, é apenas Cinco-Folhas — disse o coelho da orelha de ponta negra —, que salta novamente entre as centáureas azuis. Vamos, Espinheiro Cerval, o que você me dizia? — Cinco-Folhas? — disse o outro coelho. — Por que o chamam assim? {1} — Era o quinto da ninhada, pelo visto.

O último — e o menor. Não admira que nada de mau lhe tenha acontecido até agora. Estou certo que um homem não pode vê-lo e uma raposa não desejaria pegá-lo. Melhor ainda, estou pronto a admitir que ele parece capaz de defender a própria pele. (Vide glossário no final do livros para mais palavras em leporídeo.) O coelho pequeno aproximou-se mais de seu companheiro, apoiando-se preguiçosamente nas compridas pernas traseiras. — Vamos mais adiante, Aveleira — disse ele. — Olhe, a coelheira parece estranha esta tarde, embora eu não possa saber exatamente de que se trata. Descemos ao córrego? — Está bem — respondeu Aveleira. — Você procurará prímulas para mim. Se não descobrir, tampouco alguém descobrirá. Abriu caminho pelo declive, sua sombra espalhando-se atrás, na erva rasteira. Chegaram ao córrego e começaram a fungar e pesquisar junto aos sulcos das rodas da carreta. Não tardou muito e Cinco-Folhas encontrou o que buscava. As prímulas constituem um regalo para os coelhos e, em regra, restam muito poucas, nos fins de maio, nas vizinhanças de uma coelheira, mesmo pequena.

Aquela ali não florescera e sua chata extensão de folhas eslava quase encoberta sob a erva longa. Mal começavam a mastigá-la e dois coelhos maiores chegaram, a correr, do outro lado de um vau próximo para o gado. — Prímulas? — disse um. — Muito bem, deixem-nas para nós. Vamos lá, apresse-se — acrescentou, enquanto Cinco-Folhas hesitava. — Você me ouviu direito, não foi? — Cinco-Folhas encontrou as prímulas, Linho Bravo — disse Aveleira. — E nós as comeremos — replicou Linho Bravo. — Prímulas são para o Owsla {2} , será que você não sabe? Se ignora, podemos ensinar-lhe facilmente. Cinco-Folhas já se afastara. Aveleira alcançou-o junto ao bueiro. — Estou aborrecido e cansado disso tudo — ele disse. — Ê sempre a mesma coisa. “Eis as minhas garras, portanto a prímula me pertence.” “F.is os meus dentes, portanto este é o meu refúgio.

” Vou dizer uma coisa: se algum dia entrar para o Owsla, tratarei os suburbanos com um pouco de decência. — Bem. Você, pelo menos, espera entrar no Owsla um dia — respondeu Cinco-Folhas. — Tem adquirido peso ultimamente, o que eu jamais terei. — Não pense que vou deixá-lo entregue a si próprio — disse Aveleira. — Mas, para lhe ser franco, às vezes tenho a impressão de estar sendo despejado deste viveiro. Bem, esqueçamos isto agora e tentemos apreciar a tarde. Eu lhe digo o que… vamos atravessar o córrego? Lá há menos coelhos e gozaremos um pouco de paz. A menos que você não se sinta em segurança — acrescentou. A maneira como falava sugeria que ele havia pensado, de fato, que Cinco-Folhas provavelmente sabia mais — e ficou claro, pela resposta de Cinco-Folhas, que isso era aceito entre eles. — Não, é bastante seguro aquilo lá — respondeu. — Se começar a sentir que existe algo de perigoso, eu direi. Mas não é exatamente perigo o que eu pareço sentir acerca do lugar. É… ah, não sei bem… alguma coisa de opressivo, como o trovão. Não sei dizer o quê.

Mas isso me aflige. De qualquer modo, atravessarei em sua companhia. Ultrapassaram, correndo, o bueiro. A erva estava úmida e espessa, perto do córrego, e eles avançaram pelo declive oposto, à procura de solo mais seco. Parte do declive estava imerso na sombra, pois o sol mergulhava às costas de ambos, e Aveleira, que queria um sítio quente, ensolarado, prosseguiu até se acharem distanciados, perto da planície. Ao se aproximarem da cancela, ele parou, fitando. — Cinco-Folhas, que é aquilo? Olhe! A pouca distância, o chão fora revolvido recentemente. Dois montes de terra jaziam sobre a erva. Pesados postes, cheirando a creosoto e pintados, subiam quais torres, tão altos quanto as árvores sagradas da sebe, e o cartaz que sustentavam produzia uma comprida sombra até o cimo do campo. Perto de um dos postes, um martelo e alguns pregos tinham sido abandonados. Os dois coelhos avançaram para o cartaz, numa corrida saltitante, e agacharam-se num trecho de urtigas, franzindo os narizes ao odor de um toco de cigarro apagado, largado na grama. De repente, Cinco-Folhas estremeceu e encolheu-se. — Oh, Aveleira! É daqui que a coisa vem! Agora eu sei… alguma coisa muito má! Uma coisa terrível… chegando perto, cada vez mais perto. Começou a soluçar de medo. — Que espécie de coisa? A que você se refere? Pensei que você havia dito não haver perigo.

— Não sei o que é — respondeu Cinco-Folhas, deprimidíssimo. — Não há perigo algum aqui, neste momento. Mas ele está vindo… está chegando. Oh, Aveleira, olhe! O campo! Está coberto de sangue! — Não seja tolo. É apenas a luz do crepúsculo. Cinco-Folhas, pare com isso. Deixe de falar assim, que você me assusta! Cinco-Folhas sentou-se, tremulo e choroso, entre as urtigas, enquanto Aveleira procurava reconfortá-lo e descobrir o que o levara, de súbito, a perder o controle. Se ele estava aterrorizado, por que então não corria para lugar seguro, como qualquer coelho sensível faria? Mas Cinco-Folhas, sem poder explicar, tornava-se mais e mais deprimido. Por fim, Aveleira disse: — Cinco-Folhas, você não pode ficar sentado aqui a chorar. E está escurecendo. Melhor a gente voltar à toca. — Voltar à toca? — cochichou Cinco-Folhas. — A coisa chegará até lá… não tenha dúvida! Doulhe minha palavra: o campo está cheio de sangue… — Pare — disse Aveleira com firmeza. — Deixe-me tomar conta de você agora. Qualquer que seja o problema, é hora de voltar.

Desceu o campo, a correr, cruzou o córrego em direção ao bebedouro do gado. Ali, houve outro atraso, pois Cinco-Folhas — cercado, de todos os lados, por um tranqüilo anoitecer de verão —ficou desamparado e quase paralisado de medo. Quando, afinal, Aveleira conseguiu arrastá-lo ao fosso, ele recusou-se, a princípio, a descer, e Aveleira quase se viu forçado a metê-lo na toca. O sol pôs-se atrás do declive oposto. O vento esfriou, espalhando chuva, e em menos de uma hora tudo estava escuro. As cores diluíram-se no céu; e embora o grande cartaz, junto à cancela, estalasse levemente ao vento noturno (como a insistir que não havia desaparecido nas trevas, mas continuava firme onde fora pregado), não houve quem passasse por ali para ler as letras toscas e rígidas que cortavam fundo a superfície branca, como se fossem facas negras. Elas diziam: ESTE LOTE TÃO BEM SITUADO, COMPREENDENDO 5 MIL METROS QUADRADOS DE EXCELENTE TERRA PARA HABITAÇÃO, SERÁ OCUPADO COM MODERNAS RESIDÊNCIAS DE ALTA CLASSE, NUM EMPREENDIMENTO DE SUTCH E MARTIN LIMITADA, DE NEWBURY, BERKS. 2. O Coelho-Chefe O sombrio estadista, curvado aos encargos e aflições, Qual denso nevoeiro da meia-noite, movia-se tão devagar Que não ficava nem ia. Henry Vaughan, The World Na escuridão e no calor da toca, Aveleira despertou de repente, sacudindo as pernas traseiras. Alguma coisa o atacava. Não havia cheiro de furão ou doninha. Instinto algum avisou-o a fugir. Sua cabeça readquiriu consciência e ele viu que estava sozinho, não fosse a presença de Cinco-Folhas. Era Cinco-Folhas, aliás, que se agarrava a ele, unhando-o e escalando-o como um coelho que tenta, em pânico, subir por uma cerca de arame.

— Cinco-Folhas! Cinco-Folhas, acorde, seu rematado tolinho! É Aveleira. Assim você vai me ferir. Acorde! Despreendeu-o num repelão, lutou um pouco e despertou. — Oh, Aveleira! Eu estava sonhando. Foi terrível. Você também estava lá. Estávamos na água, descendo por um grande e fundo regato, e então eu percebi que íamos numa prancha — semelhante àquela prancha no campo — toda branca e coberta de linhas pretas. Havia outros coelhos, machos e fêmeas. Mas quando eu olhei bem, vi que a prancha era toda feita de ossos e arame; e eu gritei e você disse: “Nadem. Vamos nadar todos.” E depois eu procurava por você e tentava tirar você de um buraco na ribanceira. Encontrei-o, mas você disse: “O Coelho-Chefe deve andar sozinho”. E você desapareceu, boiando, por um escuro túnel de água. — Bem, você feriu minhas costelas. Túnel de água, pois sim! Quanta asneira! Podemos dormir de novo? — Aveleira… Olhe o perigo, a coisa ruim.

Ainda não desapareceu. Está aqui… ao nosso redor. Não queira que eu esqueça tudo e durma. Temos de fugir antes que seja tarde demais. — Fugir? Sair daqui? Da coelheira? — Sim. Imediatamente. Não importa para onde. — Só você e eu? — Não, todo mundo. — A coelheira toda? Não seja maluco. Eles não irão. Vão dizer que você perdeu o juízo. — Nesse caso, estarão aqui quando a coisa ruim chegar. Você precisa me ouvir, Aveleira. Acredite no que digo. Uma coisa muito má está perto e devemos ir embora.

— Bom. Acho melhor você procurar o Coelho-Chefe e contar a ele suas preocupações. Ou tentar contar-lhe. Não creio, porém, que a idéia lhe vá agradar. Aveleira desceu o declive do viveiro e subiu na direção da cortina de sarças. Não queria acreditar em Cinco-Folhas, e ao mesmo tempo tinha medo de não acreditar. Passava um pouco de ni-Frith, ou meio-dia. A coelheira encontrava-se embaixo do chão, quase toda adormecida. Aveleira e Cinco-Folhas correram algum tempo pelo chão e depois mergulharam numa toca larga, aberta numa extensão arenosa, e desceram, por vários meandros, até se encontraremnove metros dentro do bosque, entre as raízes de um carvalho. Ali, foram detidos por um coelho grande, robusto — um dos membros do Owsla. Tinha uma curiosa e pesada dobra de pele no alto da cabeça, o que lhe dava aparência estranha, como se ele usasse uma espécie de capuz. Isto lhe valera o nome de Thlayli, que significa, literalmente, Cabeça Empelicada, ou, como poderíamos dizer, Manda-Chuva. — Aveleira? — disse Manda-Chuva, fungando para ele na densa penumbra entre as raízes da árvore. — É Aveleira, pois não? Que está fazendo aqui? E a esta hora do dia? — Ignorou CincoFolhas, que aguardava um pouco atrás. — Queremos ver o Coelho-Chefe — disse Aveleira.

— Assunto importante, Manda-Chuva. Pode nos ajudar? — Nós todos? — disse Manda-Chuva. — Ele também pretende comparecer? — Sim, é necessário. Confie em mim, Manda-Chuva. Eu não costumo vir aqui e falar dessa maneira, não é? Quando foi que eu já pedi para ver o Coelho-Chefe? — Bem, farei isso por você, Aveleira, embora correndo o risco de perder a cabeça. Direi que o conheço há muito tempo como sujeito sensível. Provavelmente ele conhece você, mas está ficando velho. Espere aqui, sim? Manda-Chuva retrocedeu e parou à entrada de uma grande toca. Depois de pronunciar algumas palavras que Aveleira não conseguiu apanhar, convidaram-no, evidentemente, a entrar. Os dois coelhos aguardaram em silêncio, quebrado unicamente pela contínua e nervosa excitação de CincoFolhas. O nome e título do Chefe dos Coelhos era Threarah, o que significava Senhor Sorveira For algummotivo ele sempre era chamado de O Threarah — talvez porque só houvesse um sorvo, ou sorveira, perto do viveiro do qual tirara o nome. Conquistara a posição não somente pela força, na flor dos anos, mas também por causa do bom-senso e uma certa capacidade de autocontrole, ao contrário da conduta impulsiva da maioria dos coelhos. Tornara-se notório que ele nunca se deixava assustar pelos ruídos ou perigo. Demonstrara firmeza — alguns diriam frieza — durante o terrível assalto de mixomatose, puxando para fora, sem piedade, todo coelho que parecia doente. Havia resistido a quaisquer idéias de emigração em massa e mantivera a coelheira sob completo isolamento, salvandoa, quase certamente, de ser extinta.

Foi ele, ainda, que enfrentara, certa vez, um arminho importuno, derrubando-o entre as gaiolas dos faisões, e (com o risco de sua própria vida) diante da espingarda do zelador. Agora, como dizia Manda-Chuva, estava ficando velho, mas sua mente continuava bastante lúcida. Quando Aveleira e Cinco-Folhas foram levados à sua presença, cumprimentou-os com polidez. Um Owsla do gênero Linho Bravo teria feito ameaças e fanfarronices. O Threarah não tinha necessidade disso. — Ah, Noz. É Noz, não é? — Aveleira — disse Aveleira. — Aveleira, é claro. Muita bondade a de vocês virem me visitar. Conheci bem sua mãe. E seu amigo aí… — Meu irmão. — Seu irmão — disse Threarah, com uma leve entonação de quem pede: “Não me corrija mais, ouviu?” — Ponham-se à vontade. Querem alface? A alface do Chefe dos Coelhos era furtada pelo Owsla de uma horta a um quilômetro de distância, através dos campos. Os suburbanos raramente ou nunca viam alface. Aveleira pegou uma folhinha e mordiscou-a polidamente.

Cinco-Folhas recusou. Sentado, piscava os olhos e remexia-se miseravelmente. — Bom. Como andam as coisas? — disse o Coelho-Chefe. — Digam-me em que lhes posso ser útil. — Acontece, senhor… — disse Aveleira, um pouco hesitante. — Olhe, é por causa de meu irmão… de Cinco-Folhas. Este aqui. Ele sempre adivinha quando há coisa ruim, e eu verifico sempre que tem razão. Previu a enchente do outono passado e às vezes pode anunciar onde foi erguida uma cerca de arame. Pois bem: agora ele diz que pressente um grande perigo aproximando-se da coelheira.

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