A Morte e a Vida – Carlos Heitor Cony

Estou sozinha na sala de espera. Sozinha mesmo? Não, há muita gente em volta, não lembro mais. Em todo caso, sentime sozinha naquele instante. Edmundo prometera vir Mas ele está sempre atrasado, Pelo menos comigo sempre está atrasado, Apesar dos 15 anos em que estamos casados, Dos dois filhos que vieram atrasados, Talvez por causa dele. Ou por minha causa. Não é hora de pensar, Pensar principalmente nos outros. Estou sozinha, Eu e o resultado do exame de sangue que fiz ontem, a pedido do Paulinho. Tudo parece quase bem, Aumentos disso e daquilo, Taxas menores ou maiores do que seria o normal aqui e ali. Aqui e ali, estou sozinha Daqui a pouco a porta se abrirá, A secretária me chamará, Deixei com ela os outros exames, Creio que há dados recentes para um diagnóstico, Essas dores de cabeça, essa perda de memória e sentido, Há meio ano, me fizeram procurar um especialista, recomendado por amigo de Edmundo, Que, desde o início, achou que eu não tinha nada, Somente falta de concentração. Ele sempre me acusou de ter dificuldade em me concentrar, Uma forma de me acusar ou de me perdoar. A porta se abre, Ouço o meu nome, Parece sussurrado ou gritado, Não tenho certeza, Edmundo tem razão, Sempre teve razão, Sou distraída, ou comecei a ficar distraída de uns tempos para cá, Por isso não sei se estou sozinha ou cercada de gente. Sim, estou cercada de gente, Volta e meia sinto que alguém me toca, Uma luzinha vermelha pisca no meu dedo da mão direita. O que é isso? Onde estou, Onde me meti, Onde me meteram? Ouço agora aquela voz de mulher, Voz macia, Tranquila, Há outras vozes também, Sussurradas, Não entendo o que falam em torno de mim, Há a voz de uma mulher que é agradável, Toda a vez que a ouço parece que alguma coisa não vai bem comigo. Não, é impressão apenas, É a secretária do Paulinho, Ela se afastou da porta para que eu entrasse, Ele está sentado atrás de sua mesa cujo tampo é de granito azulado, Os fios do computador escondidos num estojo de plástico escuro, A mesa é limpa, Vazia, Um calendário eletrônico com horário, somente isso. Somente eu.


Paulinho guarda num envelope branco o resultado da tomografia computadorizada que Edmundo trouxe ontem, Eu não pude vir, A dor de cabeça era medonha, Maior do que a que sinto agora. A luzinha vermelha piscando no meu dedo. Paulinho parece embaraçado com o envelope onde guarda as imagens radiológicas do meu exame, Dá a impressão de que foi apanhado numa falta de cortesia, Levanta-se Sorri com aquele jeito que o faz simpático, Embora haja nele uma rudeza que não me agrada. Mas é melhor assim. Prefiro as pessoas rudes. Estou agora cercada de gente amável, Isso me dá medo. Não sentia medo quando consultava os médicos desde que os sintomas se agravaram E iniciei a gincana de idas e vindas aos laboratórios, Ressonância magnética, Raios-x, Tomografias computadorizadas, Exames de sangue, Testes disso e daquilo. Paulinho está embaraçado com os meus laudos. Eu devia estar suspeitando de seu embaraço, Se estivesse concentrada eu logo desconfiaria. Mas eu estava como estou agora, Desligada, Sem sentir o chão, Sem ver o teto, Sem perceber os lados, Sem sentir o meu peso. Só não tinha então a luzinha vermelha no dedo, Mas a aliança de casada, O anel com a esmeralda que Edmundo me deu quando fizemos dez anos de casados. Como tem passado? Como vai o Edmundo, Ontem ele esteve aqui mas eu estava ocupado Não pude falar com ele, Deixou os exames, Eu ia pedir para que me esperasse, Estava atendendo uma cliente, Ele estava com pressa, Foi melhor assim, Agora estamos sozinhos, Podemos conversar… Como “estamos sozinhos” se há pouco eu estava cercada de outros pacientes do Paulinho, E agora mesmo sinto que pelo menos há duas pessoas em volta do meu leito. Reconheço a voz de uma delas, Vilma. A outra voz deve ser a do plantonista, Cujo nome não guardei, Talvez seja o Caparelli, É o mais disponível aqui no São Damião, Eles estão sempre mudando, Somente Vilma é a mesma. É mesmo a mesma? Desde que começaram as dores de cabeça tenho dificuldade para guardar nomes das pessoas.

Tive aquele momento terrível, Quis chamar Fernando E de repente não sabia o nome do meu filho mais velho, Fiz um esforço, Só lembrava o nome de Gonçalo, o caçula. Se trocasse o nome de um pelo outro faria alguém sofrer Mas eu sofreria mais. Aceitei a sugestão de Edmundo. Estou agora diante do Paulinho como já estive outras vezes. Ela me manda sentar. Colocou o envelope na estante atrás da mesa de granito azulada, Polida como uma lagoa pequena e fria. Está sendo mais gentil do que de outras vezes Mas não me assusto, Embora ouça a voz de Vilma dizendo que não vou sentir nada, Apenas a picada da agulha na veia que tirará um pouco do meu sangue. Tudo está embaciado. A picada nem dói, Nada mais dói em mim. Ela preferiu a mão livre, Que não tem no dedo a luzinha vermelha piscando. Cada vez que meu coração bate — Ele ainda bate, eu o sinto batendo! A luzinha pisca, Às vezes mais forte, Às vezes mais fraca, Não vai doer nada, somente a picada na veia. Mas nada mais dói no meu corpo, Quase não o sinto. Como tem se sentido? — pergunta Paulinho. Posso não ter concentração mas ainda percebo as coisas, Embora as embaralhe dentro de mim. Não, dentro de minha cabeça.

É a única coisa que sinto, Não dói mais como antes, Mas ela existe. Ela é o que sou agora. Paulinho espera Edmundo chegar, Pergunta se ele não vem. Digo que está atrasado. Atrasado como? No passado nada está atrasado, No passado tudo acontece Ou deixa de acontecer ao mesmo tempo. Não é como a luzinha vermelha presa no meu dedo. Luzinha que nunca se acende e apaga ao mesmo tempo. Às vezes se acende, Mas logo amortece Nem sempre é vermelha, Às vezes é cor-de-rosa, Como sangue misturado com água. Não sei o que aconteceria (ou o que eu seria) Se ela de repente ficasse sem piscar, Acesa para sempre Ou para sempre apagada. Paulinho está no meio de um discurso, Não peguei bem o começo, Acho que examinou as imagens que Edmundo trouxe ontem, Pede para ver o resultado do último exame de sangue, Tira o laudo do envelope do laboratório que eu lhe entreguei Onde há uma serpente enrolada em qualquer coisa, E o símbolo da medicina, do laboratório, De qualquer coisa desagradável mas necessária, Passa a mão pelo queixo, Diz que está bem, Está tudo bem, Mas o sentido do “tudo bem” é ambíguo, Não sou eu que estou bem O palpite que ele tem do meu caso é que é “bem”, Como se o exame confirmasse a suspeita. Vilma tirou a agulha da veia, O sangue foi pouco, Enche menos da metade da seringa que não é das maiores. “Os resultados são bons” Paulinho começa a falar, sabendo que não me cabe falar mais nada, Eu já falara demais em outras consultas e exames. Tenho agora a certeza de que o resultado é bom para ele, Confirma as suspeitas dele. O bom não é exatamente para mim. Tem sentido dores na cabeça… aquelas.

do lado direito? Digo que não. Os remédios que me receitara não acabaram com as dores, Aliviaram o suficiente para que quase não as sentisse. Ficou apenas a falta de concentração, A perda de memória súbita, Como se eu deixasse de respirar por dez, quinze segundos. Por nada não, Por que eu me esquecia de respirar, E de repente a respiração voltava Sem que eu a sentisse. Não conseguia ligar o que havia acontecido com o que agora está acontecendo. Aqueles dez, quinze segundos, eram um túnel no qual eu não distinguia nada. Nem um som, Nem um vulto, Nem uma sombra. Nada. Não era um túnel escuro, Iluminado por uma luz que não piscava, Que nem era vermelha nem cor-de-rosa, Era luz e bastava. Tive aquele instante ali sentada diante do Paulinho e de sua mesa de granito polido e azulado. Quando a memória ou a concentração voltaram, ele acabava uma frase. — …é grave mas não desesperador… — …avançamos muito, — …temos hoje mil recursos para… Novamente penetrei no túnel que não era escuro. Foi iluminado por um clarão azulado e branco, Como as lâmpadas que explodem antes de se apagarem. II Fui chamada ao gabinete do Cândido, diretor do Hospital, meu ex-professor na graduação emenfermagem, bom sujeito, conheceu minha família, família que hoje não existe mais, sobrei eu, mas não reclamo, quando soube que o professor Cândido era amigo do pai, tomei cuidado para que nada chamasse sua atenção ou me protegesse, fiz apenas o que devia, inscrevi-me no concurso, havia cinco vagas na enfermagem do Hospital São Damião, quando o Estado encampou o antigo hospital que era administrado por uma ordem religiosa de freiras italianas que receberam ordem de voltar às suas origens em Perúgia, na Úmbria, terra de São Francisco e São Bento. Muitos candidatos, fui a terceira colocada, os dois primeiros já eram enfermeiros terceirizados no mesmo hospital, tinham a vantagem da prática e do conhecimento de como as coisas aqui funcionam, chegaram a me dizer que eu poderia ser a primeira mas desde que passara no concurso e arranjara o emprego, pouco se me dava se havia sido a primeira ou a última.

De qualquer forma, não apelei para ninguém, poderia ter pedido ajuda ao papa, ao rei da Tanzânia, mas não ao Cândido, que fora amigo do pai e meu professor. Evidente que ele ficou satisfeito quando soube que uma ex-aluna, e ainda por cima filha de amigo, iria trabalhar com ele no hospital do qual é o primeiro diretor na nova ordem de coisas, na complicada passagem de uma instituição privada — um hospital ainda por cima — para uma instituição pública gerida pelo Estado. Bom político, com ligeira fama de carreirista, foi um excelente professor e se revelou bomadministrador — pelo menos, é o que consta. No início, percebi que ele forçava um pouco a barra, querendo me ajudar de alguma forma, mas evitei os contactos pessoais, limitando-me aos profissionais. Conhecia, por ouvir dizer, que nos hospitais públicos, mais do que nos particulares, em alguns momentos se instala a lei da selva, todos querendo derrubar todos, e é necessário formar alianças, buscar apoio nos grupos de influência junto ao governo do Estado. A proximidade exagerada com o diretor deveria ser evitada, eu queria ser, acima de tudo, ou melhor, unicamente, uma enfermeira, uma profissional, para isso me preparara, não iria embaralhar os canais da minha vida e da minha profissão com nada além das minhas obrigações para com o hospital, para os pacientes e para comigo. O resto era o resto. Tirantes os primeiros dois ou três meses em que Cândido me chamava a seu gabinete para conversar sobre assuntos estranhos ao hospital, logo ele se habituou a ver em mim não mais a exaluna nem a filha do amigo. Foi, até certo ponto, minha primeira vitória pessoal naquela engrenagemem que anjos e demônios circulam como circulam em todos os grupos onde há mais de duas pessoas reunidas e com os mesmos objetivos. O fato de agora ele ter me chamado não era rotina. Passava dias, semanas em que apenas nos cumprimentávamos quando cruzávamos nos corredores, nos elevadores ou no estacionamento dos funcionários mais graduados — e eu, como responsável pelo terceiro andar, onde funciona a Unidade de Terapia Semi-Intensiva, era uma graduada, guardava meu Gol quase ao lado do carro dele. Tampouco uma convocação a qualquer funcionário do grupo de saúde (médicos ou enfermeiros) ou da administração revelava uma quebra do padrão funcional que, a bem da verdade, sou obrigada a admitir que se não é excelente, é bom o suficiente. Ele se levantou quando me viu entrar e, como sempre fazíamos quando estávamos juntos e sós, nos beijamos nas faces, tínhamos intimidade para isso, apenas evitávamos, de parte a parte, exibir qualquer tipo de comportamento que fosse além da relação chefe-subordinado. Intimidade bastante para que ele nem me mandasse sentar, preferindo me levar para a janela que dava para o jardim interno do hospital, onde os pacientes em fase de recuperação podiam dar caminhadas e apanhar sol. E onde, naquele instante, o Dr.

Caparelli voltava lá dos fundos do terreno do Hospital com um enorme cacho de bananas que ainda precisavam amadurecer em seu sombrio quarto de residente, num dos porões habitáveis da parte mais antiga do prédio que ainda tem umaspecto mais de convento do que estabelecimento hospitalar. Cândido entrou direto na conversa: — Como está a paciente do 307? Estável? Há prognóstico de… — Estável. Mais do que estável — respondi. — Tão estável que não há prognóstico à vista. — Quem é o médico que a assiste? O Carlos? — Sim e não. Quem a assiste realmente sou eu, ela é a mais estável de minhas pacientes mas é a que mais trabalho me dá. O médico-assistente dela confia em mim… — O Paulinho? Gosto dele… está com uma clínica enorme, ouvi dizer que vai juntar-se a outros médicos, captar recursos por aí e inaugurar uma clínica especializada… Mudou de assunto quando notou que eu não me interessava por um tipo de projeto que nada tinha a ver comigo. Sou funcionária de um hospital e isto me basta e ocupa. A pergunta seguinte veio inesperada: — Você conhece o Edmundo. — Quem? O marido? Sim, ele aparece para visitar a mulher… parece dedicado mas volta e meia tromba com a sogra… os dois não se dão bem… o relacionamento dele com a família dela, principalmente com a mãe, parece que não é lá essas coisas… — Você reparou isso? — Bem… não é de minha obrigação mas a paciente tem crises de lucidez, o tumor não evoluiu mas também não regrediu, é o caso típico da paciente que dificilmente ficará terminal mas nunca ficará boa. Estável sim, agora, daqui a um, dois, quatro meses… mas de repente… já vi casos assim… Olhei com espanto para Cândido, eu bem o conhecia como professor, admirava-o como diretor, mas senti que ali, naquele instante, ele queria me passar um recado, com a sutileza que o caso e as circunstâncias exigiam. Mais uma vez ele desconversou: — Qual é a idade dela? — Quarenta e quatro anos. — Chama-se Maria Emília? — Sim. Estranhei o interesse de Cândido por detalhes que usualmente escapam de um diretor todopoderoso como ele era e fazia questão de ser. Ao que eu soubesse, pelo menos até aquele ponto, nada havia na paciente do 307 que chamasse a atenção do executivo mais alto de um hospital como o nosso, além da atenção dos médicos de plantão, do clínico particular e de mim própria, com as minhas assistentes e auxiliares.

Perguntei sem curiosidade, apenas para ficar informada, como aliás me competia; — Algum problema? Cândido parece que não gostou da pergunta. — Não… problema nenhum… o Edmundo… sabe que ele é um galinha… com aquele físico todo, jogador de vôlei no Posto Seis, não está rico mas nunca foi pobre, conheci a família dele, o pai era negociante de café, acho que exportador, jogava na bolsa… mas é um galinha… um tremendo galinha… E me olhando de alto a baixo, como se pela primeira vez me avaliasse: — Tome cuidado.

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