A Onda – Susan Casey

O relógio marcava meia-noite quando a onda de trinta metros atingiu o navio, elevando-se da escuridão do mar do Norte. Entre os terrores do oceano, uma onda desse tamanho era o mais temido e o menos entendido, mais mito do que realidade – ou pelo menos era assim que as pessoas pensavam. Aquele gigante com certeza era real. Quando o RRS Discovery mergulhou no vale da onda, adernou 28 graus para bombordo, rolou trinta graus de volta para estibordo e depois se recuperou para enfrentar as ondas que chegavam. Quais eram as chances dos 47 cientistas e tripulantes daquela viagem de pesquisa em que tudo de errado acontecera? Uma série de tempestades os havia aprisionado no vazio negro a leste de Rockall, uma ilha vulcânica apelidada de “Waveland” (Terra das Ondas) em razão da violência das águas circundantes. Mais de mil navios naufragados jaziam abaixo no leito oceânico. O capitão Keith Avery conduziu a embarcação para dentro da fúria, como vinha fazendo nos últimos cinco dias. Embora um tempo como aquele fosse comum no revolto mar do Norte, aquelas ondas gigantes eram diferentes de tudo que o capitão vira em seus trinta anos de experiência. O pior era que elas continuavam surgindo de diferentes direções. Por todos os lados do navio de 295 pés, a tripulação mantinha constante vigilância para se certificar de que não seria pega de surpresa por uma onda que se insinuasse por trás ou pelo lado. Ninguém queria estar ali naquele momento, mas Avery sabia que a única esperança era permanecer onde estavam, com a proa voltada para as ondas. Dar meia-volta seria arriscado demais; se uma das ondas pegasse o Discovery pelo costado, as chances de sobrevivência seriam mínimas. É necessária uma força de trinta toneladas por metro quadrado para danificar um navio. Uma onda de trinta metros quebrando concentra cem toneladas por metro quadrado e consegue partir um navio pela metade. Acima de tudo, Avery tinha que posicionar o Discovery de modo a transpor as cristas, sem ser esmagado por elas.


Ele estava descalço ao leme, a única maneira de não escorregar depois de uma geladeira ter virado, espalhando uma poça de leite, suco e cacos de vidro (não dava tempo de limpar – as ondas não paravam). Na ponte de comando, tudo parecia ampliado: todos os ruídos e movimentos noturnos, as pancadas e os estrondos, os mergulhos nos vales das ondas, o vento frenético, o balançar e gemer do navio; e agora, quando as ondas subitamente se tornaram ainda maiores, mais violentas e íngremes, Avery ouviu um estrondo vindo da coberta de proa do Discovery. Ao forçar a vista no escuro, viu que o barco salva-vidas para cinquenta homens havia se soltado parcialmente de seu cunho de aço de cinco centímetros de espessura e estava esmurrando o casco. Sob o convés, computadores e móveis haviam sido estraçalhados. Os cientistas, apertados em suas cabines, cuidavam de contusões, olhos roxos e costelas quebradas. Tentar dormir era inútil. Eles também ouviam os barulhos, participavam das quedas livres e das manobras radicais, e estavampreocupados com o fato de que uma janela de quase dois metros de comprimento ao lado do laboratório já havia se espatifado. O Discovery tinha quase quarenta anos e recentemente passara por uma grande cirurgia. O navio fora cortado pela metade, alongado em dez metros e depois ressoldado. As soldas resistiriam? Ninguém sabia ao certo. Ninguém jamais havia passado por condições como aquelas. Um dos dois cientistas-chefes, Penny Holliday, observou uma cadeira deslizar de sob a escrivaninha, girar no ar e ir de encontro ao beliche. Holliday, uma mulher esguia, bonita como uma boneca de porcelana e tão durona quanto qualquer homem a bordo, tinha enviado naquele dia um email ao namorado, Craig Harris: “A coisa não está mais divertida”, escreveu. “O oceano parece completamente descontrolado.” As ondas espalhavam tanta espuma que a cientista teve a estranha impressão de estar numa nevasca.

Aquela era, com certeza, a Terra das Ondas, um lugar estranho com um constante movimento que não levava você a lugar algum, a não ser para cima e para baixo. Onde não havia sono, conforto, conexão com a terra firme, e onde olhos e estômagos humanos lutavam para se adaptar, mas fracassavam. Dez dias antes, o Discovery tinha zarpado de Southampton, Inglaterra, no que Holliday esperara que fosse uma típica viagem de três semanas de ida e volta até a Islândia (pontilhada por nada mais grave que algum eventual enjoo). Ao longo do percurso, os cientistas parariam para analisar temperatura, salinidade, oxigênio e outros nutrientes da água. Com base nos testes, eles poderiamtraçar um quadro do que estava acontecendo, de como as características básicas do oceano vinhammudando, e por quê. Estas não são perguntas triviais num planeta com 71 por cento da superfície coberta por água salgada. O que significam para nós as mudanças climáticas da Terra – o aquecimento da atmosfera inferior e dos oceanos e o aumento dos ventos? Provavelmente problemas, e Holliday e seus colegas estavam empenhados em descobrir quantos e de que tipo. Era muito frustrante ficar presos em suas cabines em vez de estar no convés lançando seus instrumentos. Ninguém estava pensando mais na Islândia. No entanto, a viagem estava longe de ser um fracasso. Durante as intermináveis sucessões de ondas imensas, o próprio Discovery coletava dados que levariam a uma revelação sinistra. O navio estava carregado de instrumentos; tudo o que acontecia era precisamente medido, a fúria do mar captada em gráficos acurados e números incontestáveis. Meses mais tarde, bem depois de Avery ter devolvido todos os passageiros em segurança às docas de Southampton, quando Holliday começou a analisar aqueles números, ela descobriria que as ondas que os haviam fustigado foram as maiores já registradas cientificamente em mar aberto. A altura significativa das ondas – média da terça parte das ondas com maior altura – era de 18,6 metros, com picos frequentes bem superiores. Ao mesmo tempo, nenhum dos moderníssimos modelos de onda e previsões do tempo – as informações de que dependem todos os navios, plataformas de petróleo, áreas de pesca e barcas de passageiros – tinha previsto aquelas ondas gigantes.

Em outras palavras, sob aquelas condições meteorológicas específicas, não deveriam ter existido ondas daquele tamanho. Mas existiram. A história está repleta de testemunhos sobre ondas gigantes, monstros na faixa dos trinta metros ou mais, porém até recentemente os cientistas os descartavam. Eis o problema: de acordo com a física básica das ondas oceânicas, as condições que podem produzir uma onda de trinta metros são tão raras que praticamente nunca acontecem. Qualquer alegação de que alguém tenha visto uma, portanto, não passaria de papo-furado de pescador ou mentira pura e simples. Mesmo assim, era difícil desprezar o relato do herói polar Ernest Shackleton, que estava longe de ser o tipo de pessoa com inclinação para exageros histéricos. Em sua travessia da Antártida à ilha da Geórgia do Sul, em abril de 1916, Shackleton observou movimentos estranhos no céu noturno. “Emseguida, percebi que o que eu vira não havia sido uma brecha nas nuvens, mas a crista branca de uma onda enorme”, escreveu. “Durante meus 26 anos de experiência no oceano em todos os seus estados de ânimo, eu nunca vira uma onda tão gigante. Uma sublevação poderosa do oceano, algo bemdiferente das grandes ondas de crista branca que tinham sido nossos incansáveis inimigos por muitos dias.” Quando a onda atingiu seu navio, Shackleton e sua tripulação foram “lançados à frente como uma rolha”, e a embarcação ficou alagada. O navio só não soçobrou por pura sorte e porque a tripulação conseguiu rapidamente retirar a água com baldes. “Francamente, torcemos para que nunca mais nos deparássemos com uma onda daquelas.” Os homens no cargueiro München, de 850 pés, teriam concordado se algum deles tivesse sobrevivido ao encontro com uma onda semelhante em 12 de dezembro de 1978. O München, que todos acreditavam ser impossível de afundar, era o que havia de mais moderno em termos de embarcação, a nau capitânia da marinha mercante alemã.

Às 3h25, fragmentos de um pedido de socorro em código Morse com origem 720 quilômetros ao norte de Açores indicavam graves danos causados por uma onda. Mas mesmo depois que 110 navios e 13 aeronaves foram mobilizados – a mais completa operação de busca na história da navegação –, o cargueiro e seus 27 tripulantes nunca mais foram vistos. Restara apenas uma pista assustadora: as equipes encontraram um dos barcos salva-vidas do München, que normalmente ficavam vinte metros acima da linha-d’água, boiando vazio. Os encaixes de metal retorcidos mostravam que o bote tinha sido arrancado. “Algo extraordinário” havia destruído o navio, concluiu o relatório oficial. O desaparecimento do München aponta para o principal problema em se provar a existência de uma onda gigante: se você se depara com esse tipo de pesadelo, é provável que ele seja o último de sua vida. A força das ondas é inegável. Uma onda de meio metro consegue derrubar um muro erguido para suportar ventos de duzentos quilômetros por hora, por exemplo, e alertas costeiros são emitidos até para ondas de um metro e meio de altura, que costumam matar quem for pego desprevenido no lugar errado. O número de pessoas que testemunharam de perto uma onda de trinta metros e conseguiram voltar para casa para descrever a experiência é ínfimo. Ainda que um navio consiga superar uma parede de água de trinta metros de altura, os sobreviventes saem impressionados da experiência. Histórias de peixes enormes fazem parte da natureza humana. Acrescente-se uma dose de terror mortal, confusão genuína e medo de ser responsabilizado pelos danos ao navio – se, digamos, a onda não foi exatamente “extraordinária” mas conseguiu atingir a embarcação porque o capitão estava sob o convés jogando dardos e bebendo vodca –, e o que você obtém não chega a ser uma verdade científica imaculada. Mas houve uma rara ocasião em 1933 em que um perspicaz oficial da Marinha a bordo do petroleiro USS Ramapo de 478 pés por acaso estava na ponte de comando quando uma onda espantosa surgiu do Pacífico, e sua reação, em vez de berrar e cobrir os olhos, foi fazer um cálculo trigonométrico usando as dimensões do navio relativamente à crista e ao vale da onda. O resultado foi uma estimativa de altura que, se não atingiu a precisão dos sensores do Discovery, ao menos era aceitável. Qual foi a medição daquele oficial da Marinha? Trinta e quatro metros.

Se uma onda de 34 metros não é aberrante o suficiente, considere que aquela havia surgido emmeio a ondas de quinze metros. Portanto, tinha mais que o dobro do tamanho médio de qualquer outra coisa no caminho do Ramapo, o que corresponde à definição científica de uma onda aberrante (também chamada de vagalhão ou onda monstruosa). Durante séculos, marinheiros falavam do “buraco no oceano”, um vale cavernoso na base de uma onda anormalmente grande, e das “três irmãs”, uma série de vagalhões em rápida sucessão. Esse tipo de folclore não convencia os cientistas. Os números não faziam sentido. Talvez, uma vez na vida e outra na morte, uma onda com o triplo do tamanho das ondas vizinhas pudesse existir – mas a oceanografia tradicional não podia aceitá-la como uma ocorrência típica. Quanto à ideia de muralhas mutantes de água surgindo emsucessão, nem sequer era digna de discussão. Até que algo aconteceu, e ninguém pôde ignorar. Em 1º de janeiro de 1995, o mar do Norte estava nervoso devido a duas tempestades: uma grande avançando lentamente para o norte e outra menor vindo ao seu encontro no sul. A plataforma de petróleo Draupner, da empresa norueguesa Statoil, estava situada em algum ponto entre elas, a cerca de 150 quilômetros da costa da Noruega. Para a equipe que trabalhava no local, aquele era um dia de ano-novo com ondas de quinze metros, conforme as medições do ondógrafo a laser instalado na base da plataforma. Desagradável, talvez, mas não especialmente dramático – até as três horas da tarde, quando uma onda de 25 metros veio adernando sobre o horizonte e golpeou a plataforma a 75 quilômetros por hora. Embora a Draupner tenha sofrido apenas danos moderados, a prova estava ali. Aquele não era um caso de defeito no ondógrafo a laser ou de um porre de aquavita na noite anterior. Tratava-se da primeira medição confirmada de uma onda aberrante, mais de duas vezes mais alta e íngreme que suas vizinhas, um maníaco ondulante rasgando o mar do Norte.

Elas estavam ali com certeza. Você poderia dar-lhes o nome que quisesse – vagalhões, ondas monstruosas, gigantes, aberrantes –, mas o fato era que ninguém as havia explicado. Os engenheiros que construíram a Draupner tinham calculado que, uma vez a cada dez mil anos, o mar do Norte poderia lançar uma bomba de vinte metros em meio a ondas de dez metros. Aquilo seria o máximo. Ondas de 25 metros não faziam parte da equação, pelo menos não neste universo. Mas as regras haviam mudado. Agora os cientistas dispunham de um conjunto de números que apontavam para uma verdade perturbadora: algumas dessas ondas seguem suas próprias regras. De uma hora para outra, a ênfase mudou de explicar por que ondas gigantes não podiam simplesmente surgir no oceano para descobrir como é que elas surgiam. Aquela era uma questão vital para a indústria petrolífera, que não desejava ver suas plataformas de milhões de dólares varridas do mapa. Aquilo já havia acontecido. Em 1982, a Ocean Ranger, uma plataforma de 120 metros de comprimento e mais de cem de altura, localizada a 275 quilômetros da costa de Terra Nova, foi atingida por uma onda de tamanho fora do comum durante uma tempestade. Jamais saberemos exatamente a dimensão da onda, pois não houve sobreviventes. Aprovada para “operações oceânicas irrestritas”, construída para suportar ondas de 35 metros e ventos de duzentos quilômetros por hora, considerada “indestrutível” por seus engenheiros, a Ocean Ranger tombou e afundou quase num piscar de olhos, matando todas as 84 pessoas a bordo. No mundo náutico as coisas eram ainda mais preocupantes. Nos mares ao redor do planeta, desde embarcações pesadíssimas como o München – cargueiros, navios-tanques e graneleiros – até veleiros recreativos vinham se deparando com essas ondas.

Na melhor hipótese, os encontros resultavam em danos; na pior, a embarcação sumia, levando consigo todas as pessoas a bordo. “Dois navios grandes afundam em média a cada semana [no mundo inteiro], mas a causa nunca é investigada com o mesmo grau de detalhamento de um acidente aéreo. O acontecimento é simplesmente atribuído ao ‘mau tempo’”, disse o dr. Wolfgang Rosenthal, cientista sênior do Projeto MaxWave, um consórcio de cientistas europeus que se reuniram em 2000 para investigar o desaparecimento de navios. Embora os números de Rosenthal possam ser altos, o argumento é significativo. Tendo em vista a falta de sobreviventes ou indícios, é impossível chegar a estatísticas exatas de navios atingidos por ondas gigantes; mas está claro que, a cada ano, mais de vinte navios grandes afundam ou desaparecem, levando a reboque suas tripulações (se forem consideradas também as embarcações menores, as cifras são bem maiores). Um tipo de navio conhecido como graneleiro é particularmente vulnerável. Numa triste ocasião em março de 1973, dois graneleiros se perderam num intervalo de uma hora na mesma área do Atlântico Norte. Quando li pela primeira vez sobre os navios desaparecidos, fiquei abismada. No mundo marítimo high-tech de radares, transmissores de localização de emergência Epirb, sistemas GPS e vigilância por satélite, como é possível centenas de navios enormes serem engolidos pelo mar? Aliás, como isso pode acontecer sem maior cobertura da mídia? Imagine as manchetes se um único jato 747 sumisse do mapa com todos os passageiros e nunca mais fosse localizado. Era evidente que algo extraordinário vinha acontecendo nos sete mares. Depois do incidente da plataforma Draupner, isso se tornou inegável: ninguém tinha ideia de como as ondas se comportavam em suas formas mais extremas. Porém, vidas dependiam dessa informação. Enquanto os cientistas discutiam, as companhias petrolíferas se mobilizavam, os engenheiros navais revisavam seus cálculos e os capitães de navios fitavam preocupados o horizonte, imagino que todos pensassemconsigo mesmos: Quer dizer que as histórias eram verdadeiras, afinal de contas. A primeira vez que vi uma onda realmente grande foi em dezembro de 1989.

Por acaso eu estava no Havaí, e minha viagem coincidiu com a disputa da Tríplice Coroa Havaiana, uma série de três competições realizadas na costa norte de Oahu. Para que o evento ocorra, primeiro você precisa das ondas. Às vezes os surfistas tinham que esperar semanas ou meses até que se formassem as condições ideais. Portanto, foi uma sorte e algo incomum um swell 1 de bom tamanho chegar durante a minha visita. No dia marcado para o torneio das grandes ondas em Sunset Beach, atravessei a ilha no meu carro alugado e fui parar naquela faixa de areia junto com outras mil pessoas. Os espectadores se deparavam com uma infinidade de cores, biquínis rosa-choque, pranchas de surfe amarelo-canário, faixas verde-limão e todos os azuis cintilantes do oceano Pacífico. Uma profusão de picapes lotadas de apetrechos, uma variedade de cabelos de praia, desde desbotados pelo sol a tranças rastafári. O sapato fechado mais próximo estava a pelo menos trinta quilômetros dali. O céu não tinha nuvens, mas pairava no ar um véu de neblina causado pela força das ondas que arrebentavam. De início achei aquilo surpreendente, porque, em Sunset Beach, a onda de verdade – a face que os surfistas surfariam – quebrava a mais de oitocentos metros da areia. E então uma série chegou, uma pulsação de energia que fez com que diversas ondas aumentassem de tamanho. Observei pelo binóculo enquanto as ondas começavam a crescer, como caroços sinistros no oceano. A água elevou-se mais e mais, até que uma figura minúscula apareceu no alto e dropou a face, que explodiu formando um penhasco móvel de dez metros. A praia tremia cada vez que uma onda quebrava com violência. Postada na praia, eu estava assustada.

Já havia presenciado avalanches, explosões, tornados, incêndios florestais e monções, mas nunca tinha visto algo tão intimidante como aquelas ondas. Apesar das imagens suaves evocadas pelo nome – Sunset Beach (Praia do Pôr do Sol) –, a verdade é que ali estava um monstro diferente. Um expert em surfe descreveu aquela rebentação como “o oceano Pacífico inteiro erguendo-se para cair na sua cabeça”. Nos melhores dias em Sunset Beach, as pessoas costumavam ser arrastadas por correntes e ondas ferozes. Ao observar, eu podia compreender o que estava acontecendo. O que não conseguia imaginar era por que alguém iria voluntariamente se meter naquele lugar. Estranho eu estar aterrorizada pela água. Após décadas de competições de natação, costumo me sentir mais em casa em ambientes aquáticos do que em terra firme. Ao longo dos anos, sofri vários acidentes em terreno sólido – contusões, pancadas, lacerações, um joelho reconstituído comparafusos de titânio –, mas nada de ruim havia acontecido comigo na água. Só que eu nunca havia experimentado a água naquele estado de ânimo. Enquanto eu observava os surfistas se lançando no oceano agitado e remando até a rebentação, preocupava-me com cada um deles. Aquele esporte parecia mais afeito a gladiadores do que a atletas, algo como chegar ao trabalho todo dia e ter que enfrentar elefantes bravios. É esta a razão por que, alguns anos depois, fiquei de queixo caído ao ver a fotografia de umhomem pegando uma onda que tinha mais que o dobro do tamanho das de Sunset Beach, algo na faixa dos vinte metros. O surfista era Laird Hamilton, um havaiano de 28 anos, um metro e noventa e 98 quilos que parecia completamente à vontade dentro de um tubo da altura de um prédio comercial. Os cabelos louros voavam para trás no borrifo, os braços musculosos estavam bem abertos para dar equilíbrio enquanto ele descia onda abaixo sobre uma prancha minúscula.

Uma fisionomia de beleza clássica, esculpida e intensa, sem qualquer sinal de medo no rosto – apenas uma concentração extasiada. Olhando a foto, eu não entendia como algo assim era possível. Desde que o surfe se popularizou, em meados do século XX, ondas com faces na faixa dos doze metros têm representado o limite da capacidade humana de remada. Qualquer coisa maior está simplesmente se movendo rápido demais. Tentar pegar uma onda de vinte metros remando com os braços, de bruços na prancha, é como tentar pegar o metrô engatinhando. E, mesmo que você conseguisse alcançá-la, não haveria como surfar. Água demais cai da face de uma onda gigante enquanto ela se encrespa, sugando o desafortunado ser (por falta de impulso) e sua prancha (por excesso de fricção) sobre a crista da onda. Assim, enquanto os points de surfe mais populares lotavam, chegando a estourar brigas na água, no mundo inteiro as ondas mais impressionantes eramdesperdiçadas. Para Hamilton e sua galera, isso era inaceitável. As regras tinham que mudar, e um sistema novo precisaria ser inventado. Então, criaram uma técnica chamada surfe tow-in, ou surfe rebocado. Adotando ideias do windsurfe e do snowboarding, criaram pranchas de surfe mais curtas e pesadas, com streps 2 e quilhas mais finas e fortes que rasgavam a água como facas. Depois, acrescentaram jet skis e cordas de esqui aquático à mistura, a fim de rebocar a prancha à posição perfeita a cinquenta quilômetros por hora. No ponto ótimo, quando a onda começava a atingir o auge, o surfista largava a corda de reboque e disparava para a face. O condutor do jet ski, enquanto isso, se afastava atrás da onda.

Usando esse método, muito mais potente e com equipamento redesenhado, umsurfista poderia teoricamente alcançar as maiores ondas do mundo. Quanto a surfá-las – e sobreviver em caso de queda –, era uma outra história. Hamilton foi o piloto de teste, logo seguido por outros surfistas e windsurfistas de seu círculo: Darrick Doerner, Brett Lickle, Dave Kalama, Buzzy Kerbox, Rush Randle, Mark Angulo e Mike Waltze. Apelidados de “Strapped Crew” (Turma dos Streps), fizeram testes nos recifes externos de Oahu e Maui, longe das multidões de surfistas. “Não havia ninguém ali”, disse Hamilton. “Ninguémhavia surfado ondas daquele tamanho. Era o desconhecido. Como o espaço sideral ou o mar profundo. Não sabíamos se iríamos retornar.” Tudo que envolve ondas gigantes tem seu grau de risco, mas o surfe tow-in parecia um convite ao desastre. A curva de aprendizado do esporte era uma série de lições duras, e o preço da queda era alto. Incluía ombros deslocados, cotovelos rachados, tímpanos estourados, fêmures fraturados, tornozelos rompidos, pescoços arrebentados, escalpos lacerados, pulmões perfurados e ossos dos pés quebrados. Limitações que Brett Lickle descreveu como “correr quatrocentos metros prendendo a respiração e sendo golpeado por cinco Mike Tysons”. Quanto às suturas, Hamilton “parou de contar em mil”. Independentemente dos riscos (ou talvez por causa deles), a popularidade e a visibilidade do surfe tow-in cresceram nos anos 1990, e os surfistas se aventuravam em ondas mais perigosas a cada ano.

Eles adaptaram seu equipamento. Refinaram suas técnicas. Trabalhando em duplas – um condutor de jet ski e um surfista –, descobriram como resgatar um ao outro em ondas gigantescas. À medida que os riscos aumentavam e as margens para erros se reduziam, um tipo de seleção natural ocorreu. Surfistas que viram a própria morte de perto abandonaram o jogo. Na outra extremidade do espectro estava Hamilton. Quem o observasse tinha a impressão de que nenhuma onda estava fora de seu alcance. Quanto mais intimidantes as condições, mais ele parecia se dar bem. Até que em julho de 2001 o empresário do surfe Bill Sharp lançou um desafio. “Ao longo de 2.700 anos”, dizia o press release, “o épico de Homero conhecido como Odisseia tem sido associado ao canto da sereia, belo mas mortal, e a monstros assustadores de um olho só. Mas agora, graças à poderosa empresa australiana de surfwear Billabong, está associado a um monstro ainda mais assustador: a traiçoeira onda de trinta metros (cem pés)”. A empresa, continuava o texto, ofereceria um prêmio de 500 mil dólares a quem surfasse uma delas. Era um valor inédito no mundo do surfe, sem falar nos milhões em patrocínio que viriam após a conquista. Um grupo seleto de equipes de tow-in seria convidado a participar, um pessoal ao qual Sharp se referiu como “a Força Delta do surfe”.

Era um desafio convidativo, definido por um belo número redondo. Divulgar aquele número era a intenção de Sharp. Ele vendeu a ideia da competição Odisseia da onda de trinta metros, originalmente denominada “Projeto Monstro Marinho”, à Billabong em menos de quinze minutos. Propenso a exageros, Sharp proferiu algumas frases de impacto: “A Odisseia é Jacques Cousteau encontrando Evel Knievel, que encontra O caçador de crocodilos, que encontra o Jackass.” 3 E quase da noite para o dia a ideia da “onda de trinta metros” (ou “onda de cem pés”) tornou-se o graal da mídia, o equivalente no surfe tow-in à aterrissagem na Lua. Havia uma série de senões. Primeiro: aquilo seria fisicamente possível? Ninguém sabia como surfar uma onda de trinta metros poderia diferir de, digamos, surfar uma onda de vinte metros. Ao aumentarem de tamanho, a velocidade e a energia das ondas também cresciam substancialmente. Emque ponto a potência sobrepujaria o equipamento ou os surfistas? “A onda de trinta metros provavelmente mataria qualquer um que caísse dela”, escreveu a revista Time. O então chefe de segurança do mar de Honolulu, capitão Edmund Pestana, concordou: “É um cenário mortal para todos os envolvidos.” A revista especializada TransWorld SURF Business foi direta: “Vocês estão pedindo a esses surfistas que corram riscos enormes para o nosso deleite.” Além disso, ainda que um surfista quisesse correr os riscos, havia o problema de encontrar a onda. Embora não fossem mais consideradas imaginárias, ondas de trinta metros não estavam exatamente perambulando dentro do raio de alcance de um jet ski. Outro complicador: não era qualquer onda de trinta metros que servia para o surfe tow-in. As ondas enormes com que o Discovery se deparou e as ondas aberrantes que castigavam plataformas de petróleo eram inadequadas, apesar da grande altura.

Ondas no centro de uma tempestade são avalanches de água, ondas misturadas sobre outras ondas, todas avançando numa confusão caótica. Os surfistas necessitam de ondas gigantes de uma estirpe mais exclusiva. No cenário ideal, uma onda de trinta metros nasceria da explosão de energia de uma tempestade, percorreria uma longa distância no oceano fortalecida pelos ventos, depois se desgarraria da tempestade e se estabilizaria como um swell, um rolo compressor de potência. Aquele swell acabaria colidindo com um recife, um baixio ou algum outro obstáculo submerso, forçando sua energia para cima e para os lados até explodir em ondas de rebentação. E seria aí que o surfe começaria – longe o suficiente do centro da turbulência para que fosse menos agitado, mas não tão longe a ponto de ter perdido muito de seu poder. Era uma exigência difícil. Se o oceano fosse uma máquina caça-níqueis, ondas surfáveis de quinze ou vinte metros surgiriam com a mesma regularidade de uma sequência só de cerejas. E a onda perfeita de trinta metros? Se você topasse com uma delas, as sirenes soariam e todos no cassino parariam impressionados com sua proeza, e os funcionários viriam correndo com carrinhos de mão para ajudá-lo a transportar o dinheiro. Um surfista que pretendesse participar da Odisseia, portanto, estaria se inscrevendo numa caça ao tesouro global. Não apenas teria que surfar a onda, como teria que esquadrinhar os oceanos para encontrá-la, monitorar cada nuance do tempo como um meteorologista e depois aparecer no momento certo levando consigo jet skis, equipamento de segurança e de surfe, e fotógrafos – sem falar numparceiro altamente qualificado que não se importasse em arriscar a vida quando convocado. Aquilo estava para uma competição de surfe como o ônibus espacial estava para um avião. “Comparado coma Odisseia, escalar o Everest é fácil”, um jornalista britânico escreveu. Mesmo assim, Sharp não desanimou. “Acho que todos estão preparados”, afirmou. “Agora, na era das gigantes, não existe nenhuma onda que faça alguém recuar.

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