A Prisioneira do Fogo – Edmund Cooper

Era uma tarde de fim de primavera. Vanessa estava livre (se o termo pudesse ser usado propriamente) até a chamada e à refeição da noite, às dezoito horas. Às dezenove haveria uma sessão de grupo com meia dúzia de outros paranormais com o Dr. Lindernann ou o Dr. Dumbarton, ou ambos. Às vinte, ela e a maior parte das outras crianças paranormais teriam permissão para umas horas de TV tridimensional, ou xadrez, ou pingue-pongue ou jogos de cartas. Depois disso, cama e o fim de outro dia. Vanessa suspirou. A vida na Escola Residencial de Random Hill era terrivelmente, maçadoramente previsível. Pensamento perigoso (baixa tonalidade). Alguém pode estar a ouvir (também baixa tonalidade). Vanessa mudou subitamente o seu pensamento e deu uma alta tonalidade às encantadoras palavras de A Viagem Dourada à Samarcanda, o que deixou os pensamentos de baixa tonalidade na sua privacidade. Isto era uma forma de esquizofrenia intelectual a que se disciplinara durante os últimos anos. Em baixa tonalidade e pela centésima vez, considerou a perspectiva de fugir. Tinha disciplina suficiente para manter as áreas de transmissão fortemente ocupadas com a poesia de James Elroy Flecker, o que, pelo menos, lhe garantia a privacidade para contemplar a sua situação.


Random Hill era uma instituição em que, segundo o pessoal, havia mais liberdade para as crianças dotadas do que em qualquer outra escola do gênero em todo o país. Então, por que as vedações eletrificadas a seguir às altas linhas de arame farpado que rodeavam os cem acres da Escola? Por que os guardas e os cães que a patrulhavam? Por que as infinitas variações da resposta “Amanhã”, sempre que alguém exprimia o desejo de ver o mundo lá de fora? “Tenho dezessete anos”, pensou Vanessa (tonalidade baixa). “Estou aqui presa há mais de dez anos. Tenho de sair, mesmo que o mundo seja tão perigoso como eles dizem. Tenho de sair!” Mas onde estavam os poderes paranormais que lhe permitiriam atravessar uma vedação eletrificada? Vanessa estava sentada numa pequena elevação com relva, debaixo de um grande carvalho, a cerca de cento e cinqüenta metros da grande casa do século XIX que fora convertida numa escola para paranormais. Estava bem à vista da ala do pessoal e escolhera deliberadamente aquele local precisamente por isso, achando que se permanecesse visível as pessoas ficariam, provavelmente, menos curiosas por saber em que pensava. Algumas vezes era assim que acontecia, outras vezes não. Mas se alguém se escondesse ou parecesse misterioso, havia fortes chances de que eles usassem umrelator ou um sondador para descobrir em que é que a pessoa pensava e onde é que estava. Não se podia sentir um relator, mas se podia sentir um sondador. Ela interpretara sempre a pesquisa de um sondador como uma mão muito suave a acariciar o seu cabelo. Assim que ela notava essa sensação, sabia que os seus pensamentos já não eram privados. Vanessa deitou-se na relva e espreguiçou-se luxuriosamente. Cansou-se do jogo com Samarcanda e mudou para música; uma melodia folclórica simples: Greensleeves. Alguém lhe disse que fora composta por um antigo rei de Inglaterra. Co m Greensleeves a dominar a área de alta tonalidade, Vanessa permitiu aos seus pensamentos de baixa tonalidade vaguear.

Realmente, pensou ela, estava em perigo de ficar paranóica. Não havia ninguém em Random Hill de quem devesse ter medo. Possuía a melhor classificação extra-sensorial dentre todas as quarenta e três crianças. O mais próximo era Dugal Nemo, que tinha apenas nove anos. E era amigo de Vanessa. O problema com Dugal era que ele era um rapaz confiado, facilmente levado e era um sondador de primeira classe, assim como um relator em desenvolvimento. Mas certamente que não haveria nada a recear de Dugal?! Tanto ele como ela eram órfãos e não sabiam nada de nada acerca dos pais, o que era um laço. Mesmo que não fossem bons ter-se-iam do mesmo modo sentido como irmãos. Vanessa afastou os seus medos e a vigilância, e concentrou-se no problema da fuga. Dugal tentou pôr-se confortável na cadeira, que era demasiado grande para ele e tirou a barra de chocolate que o Dr. Lindernann lhe oferecia. — Posso comê-la agora? O Dr. Lindernann riu. — Que farias se eu dissesse que não? Apertá-la-ias na tua mãozinha até ela se tornar uma porcaria pegajosa. Sim, Dugal, come o chocolate, mas, por favor, não o espalhes pela tua cara toda, assim mesmo, pois.

Estavam no estúdio do Dr. Lindernann. Pela janela podia ver-se Vanessa deitada na relva debaixo de uma grande árvore. Dugal gostava muito do Dr. Lindernann. Ele era o mais novo dos cientistas em Random Hill e tinha sentido de humor; ria muito. E era também uma fonte inesgotável de barras de chocolate. — Estamos muito satisfeitos contigo, Dugal! És o nosso melhor aluno. Um dia, quando cresceres, vais manter uma linha de comunicação com as colônias solares. Serás um homemimportante. Dugal mastigava o seu chocolate. Lançou uma sonda impetuosa à mente do Dr. Lindernann. Como esperava, bateu na barreira. Engraçado como todos estes cientistas tinham a mesma barreira mental! Se calhar, eram deformados.

— Vanessa é melhor do que eu — disse Dugal. O Dr. Lindernann contraiu-se. — Ela é muito mais velha que tu, e é apenas uma rapariga. — Algumas raparigas não são más — disse Dugal cuidadosamente. — Quer dizer, Vanessa não tem de ser menos boa só porque é uma rapariga. — Não. Mas as raparigas são geralmente menos ambiciosas que os rapazes, Dugal. Provavelmente Vanessa vai se casar, ter filhos e esquecer tudo acerca dos seus dotes especiais. — Eu quero ser o melhor telepata do mundo — disse Dugal, mastigando. — Quero ser capaz de falar com pessoas longe, pelas estrelas afora. — E poderás ser — disse o Dr. Lindernann. — Tu sabes que as pessoas como eu são cegas, Dugal. Mas mesmo cegos, nós, os cientistas, sabemos muito sobre os poderes paranormais.

Se seguires os nossos ensinamentos, poderás muito bem tornar-te o melhor telepata do mundo… Gostas muito de Vanessa, não gostas? — Ela é a maior!… Quer dizer, para uma rapariga. O Dr. Lindernann riu-se. — Aposto que não a podes sondar! Dugal mostrou-se surpreendido. — Claro que posso, Dr. Lindernann. O senhor sabe isso. Peça-lhe que ela se abra e eu sondarei aquilo que o senhor quiser. — O que quero dizer é que acho que tu não consegues sondá-la se nós não lhe pedirmos que ela se abra — disse o Dr. Lindernann aveludadamente. Dugal acabou o seu chocolate e lambeu os dedos. — Conseguiria, sim. Mas será que eu devia? — Ela é tua amiga, não é? — É. — Nesse caso, claro que não havia mal nisso. — Tem certeza? — Tenho… Tenta, Dugal.

Diz-me em que está ela a pensar. Dugal fechou os olhos. E depois disse: — Quando os grandes mercados à beira-mar subitamente fecham, em todo aquele calmo domingo que continua. Quando mesmo os amantes encontram finalmente a sua paz. E a Terra não passa de uma estrela que em tempos brilhou. — Ele abriu os olhos. — É nisto que ela está a pensar, Dr. Lindernann. Não faz muito sentido, pois não? Mas é nisto que ela estava a pensar. — Poesia — disse o Dr. Lindernann. — É o que é. Vanessa está a divertir-se. — Olhou-a pela janela; ela não pareceu ter-se movido. — Achas que Vanessa sentiu a tua sonda, Dugal? — Não sei, mas não me parece.

Fui muito brando. Posso ir-me embora, Dr. Lindernann? O cientista sorriu. — Espera um pouco. Sem dúvida que queres ir brincar para o sol. Muito bem, isso está certo. As crianças devem ser como animais jovens e saudáveis… Gostas de Random Hill, Dugal? — Sim, senhor, gosto muito. — És feliz aqui, conosco? — Sim, senhor. Toda a gente é muito boa. — Bem. Bem… Só para nos divertirmos, Dugal, tenta sondar Vanessa outra vez. Vamos ver se ela continua a deliciar-se com a sua poesia. Obedientemente, Dugal fechou de novo os olhos. — É música — disse depois de uns momentos — Música bonita. Quer que eu a assobie umpouco? — Não, não é preciso.

Vanessa parece estar de bom humor… Mas pergunto-me se ela não estará a pensar noutra coisa além da música. Às vezes as pessoas entretêm-se com umas musiquinhas, enquanto outras partes de si estão ocupadas com outros pensamentos. Podes sondar mais fundo, Dugal? Dugal pareceu angustiado. — Vanessa pode não gostar. O Dr. Lindernann contraiu-se, mas miraculosamente apareceu na sua mão outra barra de chocolate. — É só uma experiência, Dugal. Nós fazemos experiências como esta durante o dia todo, não fazemos? Dugal hesitou. — E se eu for num instante pedir-lhe, Dr. Lindernann? Quer dizer, pedir-lhe que me deixe tentar uma sonda profunda? O Dr. Lindernann fingiu sufocar um bocejo. — Não é assim tão importante, Dugal. — Avançou o chocolate para o rapaz. — Além disso, podíamos guardar segredo desta experiência, não podíamos? Mas se achas que não és capaz de fazer uma sonda profunda em segredo… — Oh, sim, posso! — disse Dugal com toda a confiança de uma criança. — Bom, então vamos fazer a nossa experiência secreta.

E depois podes ir-te embora gastar a energia que absorveste das duas barras de chocolate. — O Dr. Lindernann ria. — Mas se apareceres com manchas e fores chamado à matrona, eu negarei ter-te dado qualquer chocolate, hem! Dugal arreganhou-se conspirativamente, depois fechou os olhos. — A mesma música bonita, muito alto. Agora estou a passar por debaixo, mas ela está a sentir-me. Sabe que alguém está lá… A música agora está mais alta, e os seus pensamentos, os seus pensamentos estão a tentar dissipar-se… Há qualquer coisa sobre eletricidade. É tudo o que consigo apanhar. A música está mesmo muito alta. Dugal abriu os olhos. Parecia perturbado. — Eletricidade — disse o Dr. Lindernann. — Música e eletricidade. Que interessante! Foste muito bem, Dugal.

— Posso ir-me embora? — Sim, podes ir-te embora, Dugal. Não te esqueças de que isto foi uma experiência secreta. Posso assegurar-te de que Vanessa não se vai importar. — Sim, senhor. — Dugal saiu do estúdio sentindo-se vagamente infeliz. Vanessa tremeu. Por duas vezes sentiu o vento no seu cabelo. Mas quando veio a sonda profunda, soube que não era o vento. E só uma pessoa poderia passar as suas barreiras, se quisesse. Mas porque faria Dugal isso? Não apenas pela sua curiosidade infantil. Ele era demasiado delicado, demasiado sensível para isso. Alguém o intrigara. Lindernann, Dunibarton, o Prof. Holroyd; alguém. Era importante qual deles? Eles eram todos inimigos, todos eram carcereiros! Tudo o que importava era o que Dugal tivesse descoberto e o que tivesse contado.

Enquanto pensava na situação, Vanessa usou aquilo que ela considerava a sua mais forte barreira: uma velha canção maluca com um refrão monótono: Dez garrafas verdes, Uma vez que pusesse aquela seqüência compulsiva a correr na cabeça, podia estar razoavelmente segura de que nem mesmo Dugal poderia vencer esta repetição idiota. O importante era não deixar ninguém perceber que sentira a sonda. O importante era deixarse estar deitada na relva, parecendo apreciar o céu azul, a luz do sol primaveril. Vanessa fechou os olhos e pareceu não tomar consciência da presença do Dr. Lindernann até que ele lhe falou. — Estás a dormir? — perguntou suavemente. Ela abriu os olhos e olhou-o de soslaio, contra o céu. Não tinha mau aspecto para um homemde meia-idade, com quarenta anos, mais ou menos. Ela sabia que, além do seu interesse profissional, ele também a achava sexualmente atraente. — Estou acordada, Dr. Lindernann. Sonhava um pouco. — Oh! Com alguma coisa em especial? “Portanto, fora ele quem usara Dugal.” Vanessa teve uma inspiração, levar a guerra até ao inimigo. — Nada importante.

Estava só a pensar nas vedações eletrificadas. O Dr. Lindernann pareceu cofiar uma barba que não existia. — Interessante. E sabes por que estavas a pensar nas vedações eletrificadas? Ela sentou-se. — Sim. Parece-me tão triste, especialmente num dia de primavera, nós estarmos fechados para o resto do mundo e o resto do mundo fechado para nós. O Dr. Lindernann sorriu. — Precauções, Vanessa. Apenas precauções. Tu tens sorte, tens uma vida resguardada. O mundo lá fora podia ser um sítio perigoso para pessoas como tu. Vês televisão, sabes o nível de violência que existe na nossa sociedade chamada civilizada. As massas estão sempre à procura de bodes expiatórios, comunistas, católicos, imigrantes, anarquistas, espiões.

Até mesmo pessoas como tu. Já pensaste na sorte que tens de ser assim tão bem protegida? — Sim, e estou grata por ter uma vida tão segura, com bons amigos e bons professores. Mas, ocasionalmente, sinto-me um pouco prisioneira. O Dr. Lindernann riu-se. — Um pensamento mórbido. Tu não és prisioneira, Vanessa. Tu és uma pessoa privilegiada. Em breve terás dezoito anos; durante mais alguns meses continuarás a ser uma menor e o teu bemestar é da nossa responsabilidade. Mas quando atingires a maturidade, se então te quiseres ir embora, nós não te impediremos. Se então te quiseres ir embora, poderás sair o portão com cerca de mil euros no bolso e sem quaisquer obrigações para com Random Hill. Vanessa lembrou-se (baixa tonalidade) da última pessoa que fizera isso. James Grey, um rapaz que era o melhor telepata que Random Hill jamais desenvolvera. Isso acontecera há quase umano. Vanessa e James tinham sido psicologicamente íntimos.

Por acordo mútuo combinaram não usar barreiras um com o outro. James estava convencido de que a instalação de Random Hill fazia parte de uma conspiração complicada contra a liberdade dos paranormais. No seu décimo-oitavo aniversário decidira sair de Random Hill e tentar a sua sorte no mundo exterior. Deram-lhe dinheiro, o seu cartão de identidade e as roupas de que precisava. Uma hora depois de ter saído da instituição foi encontrado morto, horrivelmente assassinado. O seu corpo foi trazido de volta e as crianças mais velhas foram autorizadas a vê-lo, se quisessem. Algumas delas quiseram e Vanessa estava entre elas. As feridas tinham sido cuidadosamente dissimuladas, mas não demasiadamente, especialmente para jovens com alguma imaginação. Vanessa lembrou-se da sua última e angustiosa transmissão: “Não o tentes! Assim, não! Eles têm rufiões à espera…” Portanto ela disse ao Dr. Lindernann: — Não penso que alguma vez queira sair de Random Hill ou rejeitar o treino que recebi. Tenho aqui demasiados amigos. Onde encontraria eu amigos lá fora? — Talvez tenhas razão. Mas não me deixes influenciar-te. Decide por ti, tens ainda muito tempo. — Sim, tenho ainda muito tempo — disse Vanessa.

Apesar de saber que o tempo escasseava. Por quanto tempo se pode viver numa situação em que tem de se usar barreiras mentais para manter a privacidade e viver a própria vida? CAPÍTULO 2 No verão de 1973, Jenny Smith, de dezoito anos, filha de um agricultor do Sussex, fugiu de casa. Jenny era uma criança excepcionalmente inteligente e conseguiu distinguir-se na escola. Os seus professores descobriram uma peculiaridade: em qualquer forma de exame oral em que o professor soubesse as respostas às perguntas feitas, ela alcançava sempre cem por cento. Se o professor não soubesse as respostas, ela teria notas altas, mas nunca cem por cento. Em exames escritos, quer o professor que assistia soubesse as respostas quer não, Jenny obteria cem por cento ou muito perto disso. Os seus professores queriam que fosse para a Universidade e ela também. O pai de Jenny, um bom, mas tolo, homem de cinqüenta e três anos, não queria. Tendo enterrado recentemente a sua mulher, não via razões para continuar a pagar um bom salário a uma empregada doméstica quando Jenny já tinha idade para a substituir. Jenny desejava tirar um curso de Literatura Inglesa, mas o pai vetou essa idéia. Tornou-se uma empregada doméstica sem salário numa quinta isolada, a mais de quinze quilômetros da vila mais próxima. Suportou o isolamento (físico, emocional, intelectual) durante um longo inverno. Depois fugiu. Tirou dez libras (do dinheiro da casa), juntou as suas poucas roupas numa mala já batida, andou nove quilômetros até a estrada principal e aí arranjou uma boléia para Londres. Dirigiu-se a uma agência de empregos e arranjaram-lhe um emprego provisório.

Uma vez que não sabia datilografia nem estenografia, o trabalho era bastante humilde: consistia em arquivar papeis de uma companhia da City especializada em marketing de produto da indústria petroquímica. Encontrou um quarto para alugar em Bayswater, e por uns tempos contentou-se em cozinhar refeições num fogão com um único bico, em ouvir rádio e em ler os livros que era necessário ler para poder acalentar a esperança de tirar um curso de Literatura, como externa. Entretanto foi promovida à importante posição de assistente de informações, o que queria dizer que tinha de atender o v-fone e procurar dados pedidos por executivos poderosos. Por vezes queriam saber sobre os levantamentos sísmicos no Brasil ou os depósitos de gás natural na Austrália, ou sobre a produção da borracha butílica nos E.U.A. ou ainda sobre as reservas de petróleo bruto na U.R.S.S. Ela era bastante boa neste tipo de problemas, sobretudo se tivesse de contatar umespecialista. Parecia saber as respostas quase antes de terem sido dadas. Por esta altura conheceu John. Este vivia num quarto no mesmo edifício do dela. Possuía umbom emprego como supervisor de raparigas que empacotavam chocolate numa grande fábrica.

Era rodesiano e tinha uma tez suficientemente escura, maçãs do rosto suficientemente largas e cabelo suficientemente preto para sugerir um toque de sangue negro algures na sua linhagem. John estudara arte em tempos, era um idealista. Poderia ter arranjado uma boa posição nummuseu de belas-artes ou numa galeria de pintura, ou mesmo na sub-indústria em expansão de pesquisa pós-graduação. Em vez disso, escolheu antes flutuar. O emprego na fábrica de chocolate era, como ele dizia, simplesmente a maneira de comprar uma passagem aérea para o Japão. Dizia que queria observar a cultura japonesa e também descobrir o que os estudantes radicais estavam a fazer. John e Jenny nunca se apaixonaram, mas cada um deles tinha a misteriosa capacidade de saber o que o outro pensava e sentia. Por vezes pareciam entregar-se a conversas em que nenhumdeles abria os lábios. Acabaram por dormir juntos, tanto por conforto mútuo e uma extensão de intimidade como por simples desejo sexual. Apenas se conheciam a seis semanas, quando John foi morto (absurda e estupidamente) numa manifestação em frente à Embaixada Americana, na Praça Grosvenor. A manifestação começara mais ou menos pacificamente, como um protesto disciplinado contra as acusações de incompetência a ummédico negro no Estado do Alabama. Estava um lindo dia e apareceu muita gente. Os provocadores tornaram-se violentos e foi chamada a Polícia Montada, esse esplêndido anacronismo britânico. Alguém lhes atirou uma bomba de gelinhite, mas falhou. Morreram dois manifestantes e sete ficaramferidos; John foi um dos mortos.

Por essa altura, apesar de não o saber, Jenny estava grávida. Ela conformou-se de algum modo com a morte de John, continuou a desempenhar impecavelmente o seu trabalho e começou a prosperar. Aprendeu muito a respeito da companhia para que trabalhava, também aprendeu alguma coisa a respeito da manipulação de ações na Bolsa. Não tanto pelo que as pessoas diziam, mas sobretudo pelo que pensavam. Enquanto o bebê crescia no seu abdômen, ela aprendeu a ganhar dinheiro. Quando a criança nasceu, decidiu dedicar-se a ganhar dinheiro como meio para alcançar poder. Conheceu também um jovem brilhante, que não lhe era simpático no sentido estranho em que John o era, mas suficientemente sensível e atraente para despertar o seu desejo físico e o seu respeito. Ele, por sua vez, queria casar com ela, mas não queria o embaraço de suportar uma criança que não era dele. Quando a bebê nasceu, ela pô-la numa instituição. Depois casou com o jovem brilhante que acabou por tornar-se muito, muito rico. Nunca voltou à quinta no Sussex e nunca perguntou nada sobre bem-estar da filha. Com trinta e nove anos tomou uma dose excessiva de comprimidos para dormir. Mas já então sabia o que acontecera à Vanessa.

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