A Procura de Sana – Richard Zimler

CONHECI SANA no meu terceiro dia em Perth, na tarde de 9 de Fevereiro de 2000. Tinha-me deslocado aí para participar no Encontro de Escritores de Perth e para fazer uma viagempromocional na Austrália e na Nova Zelândia sobre o meu romance mais recente, The Angelic Darkness (Trevas de Luz). Tivemos uma única vez uma conversa bastante demorada e, olhando para trás, em parte parece-me que a razão por que este encontro casual me iria lançar numa investigação de três anos sobre a vida dela se deve ao facto de eu me sentir nessa altura simultaneamente frágil e entusiasmado. E sentia-me assim vulnerável porque tivera uma premonição de morte quando seguia no metropolitano de Londres em direcção ao aeroporto de Heathrow antes do meu voo para Perth. Comuma dor a abrir-se dentro de mim, sentia-me como que caminhando nas águas de um oceano nocturno, a uma distância desesperante das luzes da costa. Sob mim, léguas de uma água parda e fria puxavamme para o fundo. No meu pânico de afogado, virei-me para falar com um dos meus vizinhos. Mas o perfil do homem idoso que se sentava a meu lado parecia tão lúgubre como as ramagens invernosas arranhando as vidraças das janelas. Mais do que entabular conversa, no entanto, o que eu queria era mudar de pele. Esse momento de pânico mudou a minha vida. Durante os cerca de dois anos que se seguiram, sentime como que encerrado dentro de parênteses, sem viver realmente a vida que me estava calhada. Nessa noite, a bordo do avião, encostei o nariz à janela e perscrutei as estrelas, na vã esperança de descobrir algum sinal de uma vida eterna que me esperasse. Os fusos horários sucediam-se. E, através de um desses portais, devo ter perdido alguma da minha resistência em aceitar o acaso. Uma constelação inexistente em qualquer mapa celeste formouse por momentos e conduziu-me primeiro a Sana e em seguida a Helena.


Mas talvez Sana tivesse já planos que retiravam ao nosso encontro um certo ar de coincidência misteriosa. Sofri dois períodos de depressão na minha vida, o primeiro aos doze anos e o último aos dezanove, e quando cheguei a Perth preocupava-me pensar que estava prestes a ter um terceiro. O resultado é que me foi quase impossível dormir mais do que uma ou duas horas por noite. E assim, quando falei com Sana, estava a cair de sono. A exaustão, combinada com o sentimento de trazer a morte no bolso, fez-me olhar para ela em busca de conforto; aspirava ver nela uma estabilidade que sentisse reflectir-se em mim – e dentro de mim. Tendo depositado nela esta esperança, durante algum tempo considerei como uma traição pessoal o que ela fez. Era tolice, naturalmente, uma vez que não éramos sequer conhecidos – e egoísta, também, dadas as circunstâncias. Mas um espírito trémulo que acha que está prestes a voar em chamas raramente busca as escolhas acertadas. Nas semanas que se seguiram à minha partida da Austrália, perdia-me frequentemente a fantasiar que era a mim que cabia ter mudado o futuro de ambos. Acho que sempre desejei possuir poderes mágicos – como ela, como se veio a verificar. Um. O MEU VOO DE LONDRES tocou o solo numa madrugada do Verão australiano, em 7 de Fevereiro de 2000. Ao chegar ao Rydges Hotel, no centro de Perth, disseram-me que o meu quarto ainda não estava pronto. Da recepção, telefonei a Alex, em Portugal, onde vivemos, para lhe dizer que estava tudo bem. Menti e disse-lhe que a viagem tinha corrido sem novidade.

Mas há já vinte e um anos que estávamos juntos e, ao perceber um travo na minha voz, disseme para não me deixar ir abaixo, que daí a nove dias iria ter comigo a Sydney, onde me levava a minha digressão de apresentação do livro, a quase cinco mil quilómetros. O restaurante ficava logo à saída do hotel, e, enquanto esperava que me preparassem o quarto, fui sentar-me na esplanada numa das mesas junto ao passeio. A rua conduzia a um horizonte poeirento de ambos os lados. Os carros que passavam fremiam já com a frenética energia do sol de Verão. Pedi uma Coca-Cola, que bebi de um trago, e depois um chá com leite. Descendo a rua, começaram a surgir homens de camisa branca e óculos de sol pretos, pálidos e magros, os narizes barrados de creme branco como parte da batalha em curso na Austrália contra o cancro da pele. Traziam pastas e usavam chapéus da selva, como outros tantos Crocodile Dundees que tivessem recorrido a empregos de contabilistas quando as percentagens do filme pararam de pingar. O Rydges Hotel era um megálito de betão e vidro, mas a vizinhança em redor era de estilo antigo; do outro lado da rua havia um alfarrabista, uma mercearia familiar, e uma loja de ferragens. Mais afastado, um bar de sumos anunciava rebentos de cevada, vendo-se alguns maciços em cima de uma banca voltada para a rua como pequenos pedaços de algum relvado de golfe. Provei-os mais tarde nessa manhã. Eram moídos para fazer um caldo esverdeado e servido numa minúscula tigelinha de papel branco, a fazer lembrar os copos de dentes. Inenarrável. O empregado, com uma esfera metálica espetada na língua, disseme, enquanto me servia, que aquilo tinha níveis elevadíssimos de antioxidantes. No meio da conversa, contei-lhe que tinha chegado de Portugal e ele disseme que os rebentos de cevada eram precisamente o ideal para ojet-lag – «é como comer vinte cenouras». Ao que lhe respondi que nunca seria capaz de comer vinte cenouras.

– E agora não tens de as comer, meu! – rejubilou ele. É assim o irreprimível entusiasmo australiano. Perth pareceu-me, nessa manhã, como se tivesse sido modelada num cenário de Hollywood para uma cidade vitoriana remota. Não me surpreenderia ver carroças puxadas por cavalos ou, se calhar, algum tiroteio. Na minha visão cruzavam-se umas formas esbranquiçadas como esperma sempre que olhava para o céu azul-azul; na minha cabeça erravam pensamentos como um fumo opalescente. Passei toda a minha semana em Perth atolado num árido jet-lag de um brilho cintilante, como se me habitasse um deserto. As temperaturas assavam-nos a 40 graus. Eu vagueava com os olhos franzidos como uma toupeira. Por vezes, a exultação do sol deixava-me eufórico como um rapaz de doze anos, emergindo dos nove meses de prisão na escola para as férias de Verão. Andava de calções, excepto no quarto do hotel. Aí, as janelas não abriam e estava quase sempre demasiado frio. Era como viver na minha própria cápsula espacial com controlo climático. Quando não estava no Encontro de Escritores, vasculhava livrarias, visitava a Art Gallery of Western Austrália, e deambulava pelos mercados asiáticos à procura de mangas e anonas. Estudava a geografia das pintas nas pinturas aborígenes da galeria para ver onde me encontraria. Mas não me parecia que estivesse em lado nenhum, a não ser fora da minha vida real.

No Encontro, quando não estava a ouvir algum escritor, ficava a gracejar com os empregados do café, todos loiros, bonitos, gays, e obviamente à espera de serem descobertos por Gianni Versace ou pelo seu equivalente no hemisfério meridional. Ia praticando o meu sotaque australiano, dizendo razor blade imitando a pronúncia de um deles: rizeur blied. Fiz bons amigos enquanto a minha lucidez durou. A maior parte eram também escritores: Dermot Healy e a mulher Helen, Rodney Hall, Timothy O’Grady, e Nicholas Shakespeare e a mulher, Gillian. Recordo em particular o hálito a vinho de Dermot entrando-me pelos ouvidos dentro enquanto ele cantava uma das minhas canções preferidas de Marianne Faithfull, «Love is a Teasing». Apesar de serem duas da manhã e ele mal conseguir manter abertos os seus olhos azuis de Rasputine, a voz áspera dele conseguia manter-se no tom. Durante o pequeno-almoço do meu terceiro dia em Perth, enquanto preparava os flocos de farelo com fatias de manga, uma mulher esguia de cabelo preto espetado sentou-se a uma mesa próxima. Agitava as mãos no ar como que para apanhar algum pássaro minúsculo que atravessasse a sala. Depois cerrava os punhos, que começavam a vibrar com as pequenas vidas imaginárias a bater dentro deles. Espreitava para as criaturinhas aladas através das fendas dos dedos, abria as mãos comas palmas para cima – como um mágico revelando um tesouro ao público – e libertava-as. Um homemesguio de t-shirt branca, com uma tatuagem de um peixe tropical azul, verde e amarelo no braço, foi então ter com ela, agarrou, da borda de uma mesa vizinha, um dos pássaros imaginários, e pô-lo emcima da cabeça dela. Deu-lhe um beijo na cara e saiu sem uma palavra. A mulher curvou o pescoço com o peso do pássaro. Eu podia sentir as patinhas dele a emaranhar-lhe o cabelo ao vê-la franzir o sobrolho. Pondo o seu companheiro invisível na mão e passando-o para o ombro, desviou a atenção para a mesa do bufete.

O perfil dela surpreendeu-me pela sua severidade – os olhos eram penetrantes, os lábios apertados como que para censurar os seus pensamentos. Tinha uma pele escura de uma agradável cor de azeitona, e os tendões faziam um arco tenso no pescoço delicado. Em torno dos olhos desenhava-se um leque de rugas profundas e as sobrancelhas altas subiam como asas de borboleta. Tinha uma pequena cicatriz junto à linha do cabelo. Pensei que devia ser uma actriz que viera para o Festival Artístico. Imaginei que fosse iraniana, ou talvez da índia ou do Paquistão. Voltou-se então para o pássaro no seu ombro. – Então, não fiques aí parado, diz lá o que queres! – Falava no tom impaciente, mas afectuoso, que as pessoas normalmente reservam aos filhos. Depois de se ter servido de um pouco de iogurte e fruta do bufete, reparou que eu a observava e fingiu tropeçar como um palhaço, quase me atirando com a tigela que tinha nas mãos. Rimo-nos. – Bravo! – disse eu. – Muito obrigada, gentil senhor – respondeu, fazendo uma pequena vénia. Olhou em torno da sala como que apreciando o pássaro a voejar em círculo. Fez que dava beijinhos com os lábios e estendeu o braço. O passarito poisou no indicador, que desceu um pouco, e ela voltou a colocá-lo em cima do ombro.

Não consegui voltar a captar o olhar dela enquanto tomava o pequeno-almoço. Suspeitei de que estava sempre em risco de ter de representar e que precisava de impor a si própria uma disciplina. Quando me levantei, fez-me um aceno de rapariguinha. – Até depois – disse eu. – Espero que sim – respondeu. Tirando o pássaro do ombro, atirou-o ao ar na minha direcção. Estiquei o dedo indicador e deixei-o poisar, pondo-o depois em cima da cabeça. Cheirei a mão e sacudi-a para a limpar do que o pássaro tinha aí largado. Ela riu-se. Fiquei a desejar ter uma ocasião de falar com ela durante a minha estada. Voltei a vê-la ao fim da tarde, quando regressava do Encontro de Escritores. Estava sentada ao bar, bebericando uma coisa cor de âmbar, provavelmente Drambuie, já que, como vim a saber, era a sua bebida favorita. Usava uma camisola felpuda cor-de-rosa com uma gola alta preta. Tinha uma aparência de grande nobreza. Quando lhe acenei, respondeu com outro aceno, mas com a mão abrindo-se lentamente, fechando-se depois subitamente, como o focinho de um lobo.

Os olhos castanhos solenes seguiram-me enquanto eu atravessava a sala em direcção ao elevador. Pensei que podia querer-me alguma coisa. Tinha uma flor delicada de hibisco azul-da-califórnia presa atrás da orelha. Com os braços cruzados, recostou-se como que para ouvir o que a flor lhe sussurrava acerca de mim. Pus as mãos em oração, como quem diz: «Espero que o que estão a sussurrar seja simpático.» Ela fez que sim com a cabeça. Estive quase a ir ter com ela, mas ela afastou de repente o olhar e não se voltou de novo. Concluí que não queria ser incomodada. No dia seguinte, estava eu sentado sozinho a tomar o pequeno-almoço, ela entrou, dirigindo-se a mim com um exemplar da edição britânica de O Último Cabalista de Lisboa – Tive receio de o abordar antes – disse. Um sotaque estrangeiro dava às suas palavras um final ascendente. – Apesar da impressão que costumo causar às pessoas, sou tímida. A edição que ela tinha não trazia nenhuma fotografia minha, e por isso perguntei-lhe como sabia que era eu o autor. – Li a edição brasileira logo que foi publicada. Você está na badana do livro. E também está na brochura do Festival.

Quando lhe perguntei como dominava tão bem o inglês, disseme que vivera em Nova Iorque durante dois anos. – Ainda lá vive? – Não, parti há três anos e mudei-me para São Paulo – envolveu o pescoço com as mãos e fez os sons de quem está a sufocar. – Os Americanos iam-me linchando. Respondendo às minhas perguntas, disse que não, que não era brasileira. Tinha nascido em Israel. Foi nesse momento que assumi erradamente que era judia. Disse que se encontrava ali com a Trupe Paulista de Dança e Mimo e que estavam a apresentar a Lisístrata. Era a segunda vez que estava na Austrália. O espectáculo do grupo A Espera de Godot tinha sido um sucesso no Festival de Adelaide dois anos antes. Combinavam mímica e dança para contarem as suas histórias. Surpreendeu-me então perguntando-me se podia pegar-me na mão. Ainda hoje sinto o aperto firme dos dedos dela. – É tão estranho conhecê-lo – disse ela, apertando-me a mão. – Quer dizer, vi a brochura que eles nos mandaram e por isso sabia que estaria cá. No Festival.

Mas não sabia que iríamos ficar no mesmo hotel. – Nos olhos dela brilharam lágrimas. – Ou que me iria cruzar consigo. – Largou a minha mão e enxugou os olhos. – O seu livro serviume para pôr em ordem algumas coisas… não, não é isso… ajudou-me a ver as coisas mais devagar de maneira a poder analisá-las devidamente e descobrir o que fazer. Mesmo o que não me agrada no livro, os defeitos, acabaram por me parecer não terem grande importância. O seu romance é como uma vida bem vivida. – Queria dizer mais, mas faltou-lhe a voz. Com os dedos indicador e médio esboçou uns passos no ar entre nós, até eu ver um cavalo a caracolear. Depois deteve-se e apontou para os meus olhos. Tocou com a ponta dos dedos as minhas pestanas fechadas. Senti aquela pressão como se viesse de dentro de mim. Não sabia o que pretendia ela dizer com esse gesto. Ainda hoje não sei. Estava demasiado atónito para falar.

Talvez fosse uma espécie de linguagem gestual. Tinha o pressentimento de que estava a conhecer-me através do tacto. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, irrompeu numa risada e tapou a cara com as mãos como uma rapariguinha apanhada numa brincadeira secreta. – Deve achar que sou parva, e que devo estar perturbada, com todas estas lágrimas. Mas não estou. Estou muito feliz. Só que neste momento estou particularmente sensível. – Não é nada parva. Fico contente por me ter dito o que pensa. É sempre bom ouvir que o que escrevemos tem um efeito positivo para alguém. Estou-lhe muito agradecido. – Oiça, não quer assinar o meu livro? Ou não é coisa que se peça? Tirei-lhe o livro das mãos. – Claro que assino. Que nome devo pôr na dedicatória? – Dedique-o a Helena. – Só isso… nenhum apelido? – Helena basta.

Datei a dedicatória e escrevi: «Para Helena, Obrigado por me falar no efeito que o meu livro teve na sua vida!» Entre parênteses, acrescentei: «Fazer greve pela paz continua a ser uma causa justa.» Quando leu a minha mensagem, soltou um suspiro. – Que foi? – perguntei. – Como tudo é estranho, na vida. A minha afirmação parentética era evidentemente uma referência à Lisístrata. Nessa peça, as mulheres de Atenas recusam-se ao amor com os maridos até que seja posto um fim à guerra com Esparta. Falámos um pouco mais sobre Perth, depois ela rebuscou o saco de lona e estendeu-me dois sabonetes com uma espiral rosa e branca, a cheirar a rosas, que tinha comprado na galeria de arte. – Queria oferecer-lhe alguma coisa por ter escrito aquele livro. Desatou de novo a chorar quando lhe agradeci. Normalmente não sou muito ousado, mas naquele momento levantei-me e abracei-a. Vendo-a tremer, senti a sua vulnerabilidade – e também uma energia extraordinária contra o meu peito. Era tão magra que lhe sentia o desenho das costelas. Abraçá-la era o bastante para me confirmar, por instantes, a solidez e a rectidão da minha vida. Estava-lhe grato. Pela primeira vez, pensei então que deveria ser maravilhoso escrever uma peça ou um filme – alguma coisa que ela pudesse interpretar.

– Nas suas actuações, já fez alguma coisa com palavras? – perguntei. – Já, mas foi há alguns anos. – É uma ideia maluca, mas se escrevesse alguma coisa para si… quer dizer, uma peça ou um filme, era capaz de lhe dar uma vista de olhos? Agarrou-me o braço com a mão. – Claro. Mas não escreva nada só para mim. Era capaz de ser demasiado… demasiado limitado. Escreva uma coisa bonita e boa, é a única coisa que importa. Deu-me um beijo na cara e sem nenhuma explicação precipitou-se para o elevador. Levantou a mão direita acima da cabeça e acenou adeus sem se voltar, como se estivesse com medo de me olhar uma última vez. À medida que caminhava, ia sacando dos bolsos pedras invisíveis que atirava para os lados. Ergueu-se em bicos de pés, mais leve a cada passo que dava, e saltou para dentro do elevador, os braços abertos, como que para voar. Que teria acontecido se tivesse corrido atrás dela e insistido em continuar a conversa? Nunca mais voltei a falar com ela, embora a tivesse visto ainda uma vez. No dia seguinte, por volta das seis horas, fiquei à conversa com Martin, um dos organizadores do Festival de Perth, na esplanada do hotel. Estava um fim de tarde de um calor tórrido. Deliciavame com uma sopa de milho com natas.

Martin fumava e ia debicando o meu pão com dentadinhas de rato.

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