A Profecia do Passaro de Fogo – Melissa Grey

A ALA TINHA IDO À BIBLIOTECA EM BUSCA DE ESPERANÇA. Caminhou entre as estantes, com uma mão no bolso enquanto a outra passava pelas lombadas rachadas dos livros preferidos e pela poeira acumulada nos menos queridos. O último cidadão tinha saído horas antes, mas a Ala continuava de óculos escuros e com uma echarpe bem enrolada em volta da cabeça e do pescoço. A penumbra da biblioteca fazia sua pele negra parecer escura como a de um humano, mas as penas que tinha no lugar de cabelos e o pretume absoluto de seus olhos, grandes e brilhantes como os de um corvo, eram puro Avicen. Ela gostava de livros. Eram uma fuga das responsabilidades, dos outros membros do Conselho de Anciãos que recorriam a ela, a única Profeta viva, em busca de orientação, da guerra que acontecia havia mais tempo do que a maioria era capaz de lembrar. A última grande batalha tinha acontecido mais de um século antes, mas a ameaça de violência permanecia, e cada lado esperava um deslize do outro para que aquela pequena fagulha se transformasse em uma chama além do controle de qualquer um. A dança vagarosa dos dedos da Ala foi interrompida quando um título chamou sua atenção: Um conto de duas cidades. Seria bom ler sobre a guerra dos outros. Talvez a fizesse esquecer a sua própria. Ela estava prestes a tirar o livro da estante quando sentiu um puxão leve, como uma pena presa no bolso do casaco. A mão da Ala agarrou rápido o punho do ladrão. Uma menina magricela e pálida segurava firme o porta-moedas da Ala. Os olhos castanhos dela fitaram o punho exposto da Ala, sem piscar. — Você tem penas — disse a menina.


A Ala não conseguia se lembrar da última vez que um humano havia visto sua plumagem e ficado tão calmo. Então soltou a menina e puxou a manga sobre o antebraço, endireitando o casaco e a echarpe para esconder o resto do corpo. — Pode devolver minha carteira? — Não era uma carteira exatamente. No lugar do dinheiro, havia um pó preto e fino que zunia com energia na mão da Ala, mas a menina não precisava saber disso. A ladra a encarou. — Por que você tem penas? — Minha carteira, por favor. A menina nem se mexeu. — Por que você está usando óculos escuros aqui dentro? — Carteira. Agora. A menina olhou para a bolsinha que tinha na mão, pareceu refletir por um instante, e voltou a olhar para a Ala. Ainda assim não abdicou do item. — Por que está usando esse lenço se estamos no verão? — Você é muito curiosa para uma garotinha — a Ala disse. — E já é meia-noite. Você não devia estar aqui. Sem hesitar nem por um segundo, a ladra respondeu: — Nem você.

A Ala não conseguiu conter o sorriso. — Touché. Onde estão seus pais? A menina ficou tensa, olhando de um lado para o outro em busca de uma saída. — Não é da sua conta. — Que tal um acordo? — a Ala perguntou, agachando para ficar na altura dos olhos da menina. — Você me diz como veio parar nesta biblioteca sozinha, no meio da noite, e conto para você por que tenho penas. A menina a analisou por um momento com uma prudência que não condizia com sua idade. — Eu moro aqui. — Arrastando a ponta do tênis branco e encardido no chão de linóleo, a menina observou a Ala por sob densos cílios castanhos e acrescentou: — Quem é você? Um monte de perguntas em um pacote tão pequeno. Quem é você? O que é você? Por que está aqui? A Ala deu a única resposta possível: — Sou a Ala. — A Ala? — A menina revirou os olhos. — Não me parece um nome verdadeiro. — Sua língua humana nunca conseguiria pronunciar a minha — disse a Ala. Os olhos da menina se arregalaram, mas ela sorriu, com hesitação, como se não estivesse muito acostumada a fazer isso. — Então como devo te chamar? — Pode me chamar de a Ala.

Ou Ala, para encurtar. A pequena ladra franziu o nariz. — Não seria o mesmo que chamar um gato de “gato”? — Talvez — disse a Ala. — Mas existem muitos gatos no mundo, e só uma Ala. A resposta pareceu satisfazer a menina. — Por que está aqui? Nunca vi ninguém na biblioteca à noite antes. — Às vezes, quando estou triste, gosto de ficar perto desses livros — a Ala respondeu. — Eles são bons para fazer as pessoas esquecerem todos os problemas. É como ter um milhão de amigos embrulhados em papel e rabiscados de tinta. — Você não tem amigos normais? — a ladra perguntou. — Não. Nada parecido. — Não havia melancolia na resposta da Ala. Era apenas a verdade, desprovida de ornamentos. — Isso é triste.

— A menina pegou na mão da Ala, acariciando as penas delicadas dos ossos dos dedos dela. — Também não tenho ninguém. — E como uma criança conseguiu passar despercebida por todos que trabalham aqui? — Sei me esconder muito bem — a menina disse, com certa timidez. — Já tive que fazer muito isso. Em casa, quero dizer. Antes de vir para cá. — Com um aceno de cabeça determinado, ela continuou: — Aqui é melhor. Pela primeira vez desde que a Ala conseguia se lembrar, lágrimas começaram a se formar em seus olhos. — Desculpe por pegar sua carteira. — A menina segurou o porta-moedas diante da Ala. — Fiquei com fome. Se soubesse que você estava triste, não teria pegado. Uma pequena ladra com consciência. Será que as surpresas nunca terminavam? — Qual é o seu nome? — a Ala perguntou. A menina abaixou os olhos, mas não soltou a mão da Ala.

— Não gosto dele. — Por que não? — Não gosto das pessoas que me deram ele — a menina disse, dando de ombros. O coração da Ala ameaçou se desfazer em cinzas. — Então talvez você mesma devesse escolher um. — Posso fazer isso? — a pequena ladra perguntou, desconfiada. — Você pode fazer tudo o que quiser — a Ala respondeu. — Mas pense com cuidado. Nomes não são coisas que devem ser apressadas. Há poder nos nomes. A menina sorriu, e a Ala soube que não retornaria sozinha ao Ninho aquela noite. Ela tinha ido à biblioteca em busca de esperança; em vez disso encontrara uma criança. Ela levaria muitos anos para perceber que as duas coisas não eram tão diferentes. UM Dez anos depois ECHO SEGUIA DUAS REGRAS. A primeira era simples: não ser pega. Ela entrou com cautela na loja de antiguidades que ficava no fundo de uma viela do mercado noturno de Taipei.

A magia cintilava ao redor da entrada como o calor ascendendo do cimento quente em um dia de verão escaldante. Se Echo olhasse diretamente para ali, não veria nada além de uma porta de metal sem marcas, mas, quando inclinava a cabeça do jeito certo, enxergava o brilho discreto de bloqueios de proteção que deixavam a loja totalmente invisível exceto para aqueles que sabiam o que procurar. A luz neon do mercado que se infiltrava para dentro da loja era a única iluminação do local. As paredes eram cobertas de estantes lotadas de antiguidades em vários estados de deterioração. Havia um relógio cuco desmontado sobre a mesa no centro, com o pássaro pendurado em uma mola triste e débil. O feiticeiro dono da loja era especialista em encantar objetos mundanos, alguns compropósitos mais nefastos que outros. Os feitiços mais obscuros deixavam um resíduo, e Echo tinha contato com magia havia tempo suficiente para senti-lo, como um arrepio na espinha. Contanto que evitasse aqueles objetos, ficaria bem. A maioria dos itens sobre a mesa estava enferrujada ou quebrada demais para ser uma opção. Um espelho de mão de prata estava arruinado por uma rachadura que o dividia em dois. Um relógio enferrujado marcava os minutos ao contrário. Duas metades de uma medalha em forma de coração estavam em pedaços, como se alguém as tivesse destruído com um martelo. O único objeto que parecia funcionar era uma caixa de música. A tinta esmaltada estava descascada e gasta, mas os pássaros que enfeitavam a tampa tinham traços adoráveis e elegantes. Echo abriu a caixa e uma música familiar escapou de dentro, enquanto um passarinho preto rodopiava.

A canção de ninar da gralha, ela pensou, tirando a mochila das costas. A Ala ficaria encantada, embora o conceito de aniversário e presentes não significasse nada para ela. A mão de Echo estava a centímetros da caixa de música quando as luzes acenderam. Ela virou a cabeça e viu um feiticeiro parado na entrada da loja. Seus olhos brancos e amarronzados, a única coisa que o marcava como não humano, observavam a mão de Echo. — Te peguei. Droga. Parecia que algumas regras existiam para serem quebradas. — Isso não é o que parece — disse Echo. Não era a melhor explicação, mas teria que servir. O feiticeiro ergueu uma sobrancelha. — Sério? Porque parece que você pretendia me roubar. — Certo, então acho que é exatamente o que parece. — Os olhos de Echo pararam um pouco atrás do feiticeiro. — Minha nossa… O que é aquilo? O feiticeiro olhou para trás por apenas um segundo, mas era tudo de que Echo precisava.

Ela pegou a caixinha de música, enfiou na mochila e jogou-a sobre o ombro; apressada, trombou com o feiticeiro. Ele caiu no chão e soltou um grito enquanto Echo escapulia para a praça do mercado. Regra número dois, Echo pensou, surrupiando um pãozinho de carne de porco de uma banca de alimentos ao passar correndo por ela. Se for pega, corra. O asfalto estava escorregadio com a garoa do dia, e suas botas derraparam quando ela virou uma esquina. O mercado fervilhava com compradores e com o rico perfume de comida de rua misturado ao ar agradável. Echo mordeu o pãozinho, recuando diante do vapor que queimou sua língua. Quente, mas delicioso. Era uma verdade universal que comida roubada era mais gostosa. Echo saltou uma poça de lama e quase engasgou com um bocado de pão grudento e carne de porco assada. Comer e correr ao mesmo tempo era mais difícil do que parecia. Ela se espremeu pela multidão, desviando de carrocinhas e pedestres distraídos. Às vezes, ser pequena compensava. O feiticeiro que a perseguia encontrava maiores dificuldades. A porcelana de qualidade duvidosa foi ao chão quando ele esbarrou na banca de pãezinhos de carne de porco e soltou um turbilhão de palavrões.

O mandarim de Echo era pobre, mas ela tinha quase certeza de que ele havia dito uma enxurrada de insultos elaborados a ela e a toda sua família. As pessoas ficavam tão sensíveis quando suas coisas eram roubadas. Principalmente feiticeiros. Echo se abaixou sob um toldo e olhou para trás. O feiticeiro estava longe; no momento havia uma distância respeitável entre eles. Ela deu outra mordida no pãozinho e migalhas voaram. Uma maluca capaz de exercer magia teria dado no pé, mas ela não comia desde a fatia de pizza do café da manhã. A fome não esperava por ninguém. O feiticeiro gritou para uma dupla de policiais deterem-na quando ela passou por eles. Dedos quase alcançaram sua manga, mas Echo desapareceu antes que conseguissem pegá-la. Que fantástico, ela pensou, lutando contra a dor que se formava em seus músculos. Quase lá. A placa luminosa para a estação de metrô de Jiantan surgiu, e ela respirou aliviada. Assim que estivesse na estação, só precisaria encontrar uma porta, qualquer porta, e desapareceria em uma nuvem de fumaça. Ou melhor, em uma nuvem de pó preto como fuligem.

Echo jogou o resto do pãozinho em uma lata de lixo próxima e procurou no bolso pela bolsinha sem a qual nunca saía de casa. Ela pulou a catraca, dizendo um “Desculpe!” apressado ao funcionário desnorteado quando o som das botas se aproximou. Havia um armário de serviço perto da plataforma, a uns quarenta e cinco metros de distância, e Echo sabia que serviria muito bem. Ela enfiou os dedos na bolsinha e pegou um bocado de pó. Pó de sombra. Era uma quantidade generosa, mas o salto de Taipei a Paris não era nada pequeno. Melhor prevenir do que remediar, mesmo que significasse ficar com um estoque perigosamente baixo para a viagem de volta a Nova York. Echo espalhou o pó no batente da porta e passou por ela. O feiticeiro gritou, mas seu berro, o somdos trens parando na estação e o ruído das conversas na plataforma desapareceram assim que a porta se fechou. Por um instante, tudo era escuridão. Não era tão desnorteante quanto havia sido a primeira vez em que ela viajara pelos entremeios do mundo, mas nunca deixou de ser estranho. No espaço vazio entre todos os aqui e ali, não havia em cima, embaixo, esquerda ou direita. A cada passo, o chão se deslocava e se distorcia sob seus pés. Echo engoliu a bile que subia na garganta e esticou o braço, surda e cega no vácuo da escuridão. Quando a palma de sua mão encostou na tinta descascada da porta sob o Arco do Triunfo, ela suspirou aliviada.

O Arco era uma estação de passagem popular entre os viajantes do entremeio. Com sorte, o feiticeiro penaria muito para rastreá-la. Reconstituir o avanço de alguém no entremeio era difícil, mas não impossível, e a magia negra do feiticeiro facilitaria muito as coisas para ele. Por mais que Echo amasse Paris na primavera, ela não poderia ficar muito tempo. Uma pena… Os parques erammuito agradáveis nessa época do ano. Ela foi até o lado oposto do Arco, passando os olhos pela multidão em busca da imagem familiar de alguém com um gorro para esconder o volume de penas vibrantes e óculos estilo aviador que valiam mais do que todo o guarda-roupa de Echo. Jasper era um de seus contatos mais inconstantes, mas costumava honrar sua palavra. Ela estava prestes a desistir e escolher uma porta para levá-la de volta a Nova York quando viu um vislumbre de pele cor de bronze e o brilho de óculos escuros. Jasper acenou e Echo sorriu antes de atravessar a multidão rapidamente. Sua voz estava ofegante quando ela o alcançou. — Conseguiu? — ela perguntou. Jasper tirou uma pequena caixa azul-turquesa da bolsa-carteiro, e Echo notou que a porta ao lado dele já estava com pó de sombra espalhado no batente. Ele podia ser atencioso quando queria — o que não era muito frequente. — Já te deixei na mão alguma vez? — ele disse. Echo sorriu.

— Com frequência. O sorriso de Jasper era deslumbrante e selvagem. Ele jogou a caixa para Echo com uma piscadinha perceptível mesmo com os óculos de aviador espelhados. Echo ficou na ponta dos pés e deu um beijo rápido no rosto dele. Ela passou para o entremeio antes que ele pudesse pensar em uma resposta espirituosa. Uma vez, Echo disse a Jasper que ele só poderia ter a última palavra por cima do cadáver dela, e estava falando sério. Cruzar a soleira para o entremeio era menos desagradável pela segunda vez, mas o conteúdo do estômago de Echo ainda revirava muito. Ela tateou no escuro, fazendo uma careta quando as mãos tocaram algo sólido. As portas que levavam à estação Grand Central estavam sempre imundas, mesmo do outro lado do entremeio. Nova York, ela pensou. A cidade que nunca está limpa. Echo saiu em um dos corredores que davam para o átrio principal. Ficou rodando o balcão de informações no centro do pátio, ziguezagueando por entre grupos de turistas que tiravam fotos das constelações no teto e passageiros que aguardavam o trem. Nenhum deles sabia que havia um mundo inteiro sob seus pés, invisível aos humanos. Bem, à maioria dos humanos.

Como na loja do feiticeiro, era preciso saber o que procurar. Ela esperou alguns minutos para ver se o feiticeiro ia aparecer. Se ele tivesse conseguido segui-la desde o Arco, ela queria garantir que não o levaria até a porta de onde morava. Echo não tinha provas, mas estava certa de que o feiticeiro era uma péssima visita. Seu estômago roncou. Algumas mordidas de pãozinho com carne de porco não seriam suficientes. Ela lembrou do cômodo escondido na Biblioteca Pública de Nova York que chamava de lar e na metade de burrito que havia deixado sobre a escrivaninha. Mais cedo, naquele mesmo dia, ela o havia roubado de um estudante desatendo que cochilava com a cabeça apoiada em uma cópia gasta de Os miseráveis. Houve poesia naquele pequeno roubo. Foi o único motivo que a levou a pegar o burrito. Ela não precisava mais roubar comida para sobreviver como quando era criança, mas algumas oportunidades eram boas demais para deixar passar. Echo alongou o pescoço, deixando a tensão que havia se instalado em seus músculos descer pelos braços e sair pelos dedos. Centímetro a centímetro, ela se permitiu relaxar, escutando o ruído dos trens que chegavam e partiam da estação. O som era calmante como uma canção de ninar. Com uma última olhada pelo átrio, ela jogou a mochila sobre o ombro e seguiu para a saída da avenida Vanderbilt.

Sua casa ficava a poucas quadras a oeste da Grand Central, e lá havia um burrito roubado com seu nome.

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