A ultima Dama do Fogo – Marcelo Paschoalin

—Mantenham o curso! Os brados do capitão mal podiam ser ouvidos, pois a fúria da tempestade, orquestrando uma melodia de ventos, relâmpagos e granizo, não cessava. Todos a bordo sabiam que o galeão havia se transformado em um brinquedo nas mãos de um displicente infante, mas nenhum membro da tripulação ousava sequer pensar em se entregar à força das ondas. A tempestade não duraria muito, pensavam, pois já lutavam há mais de uma hora contra sua fúria. Mas pela mente do contramestre as lembranças de um porto seguro se dissipavam cada vez mais. Sob o convés, na cabine reservada aos passageiros, duas pessoas se abraçavam, sem saber o que o destino havia lhes reservado. O mais velho, com cabelos brancos como o granizo que batia contra o navio e olhos azuis como o mar revolto, estava trajando uma túnica púrpura, com um capuz cobrindo sua cabeça. —Sabe que esta é minha última jornada e que não nutro esperanças por um bom final, — tentava, apesar dos trovões, acalmar a jovem a ele abraçada. — mas sei o que a aguarda. Tenho certeza de que honrará a oportunidade que o destino lhe dá para que sua vida seja plena em virtude. As lágrimas da jovem, que não aparentava possuir mais do que vinte anos, corriam profusamente por sua face, manchando o vestido escarlate que estava usando. Seus cabelos castanhos estavamrevoltos, sinal de que acordara às pressas quando a tempestade se anunciou, e sua pele alva e macia era apenas um arauto de sua beleza singular, que poderia ser resumida na pureza de seus olhos de esmeralda. —Eu não desejo isso, Zagar! — ela soluçava. — Meu lugar é aqui! Não pode o destino ser tão cruel a ponto de me separar daquele que cuidou de mim e tudo me ensinou… Zagar a abraçou mais carinhosamente, deixando que suas palavras brotassem como sussurros nos ouvidos da jovem: —Sim… Mas isso se deve a seu pai, que me fez aceitar o papel de ser seu tutor quando sua mãe voltou aos braços do Eterno. Quisera eu ter sido abençoado com uma esposa… E filhos… Os soluços cessaram, mas o pranto continuava e a jovem se agarrava cada vez mais à túnica de Zagar. —Mas o que farei quando chegar a Vlyn, se conseguir vencer a tempestade? E se a maldição da morte sempre viva ainda persistir? —Não, não há nada que possa fazê-la temer.


Uma nova magia está nascendo na ilha de Vlyn e de lá poderá seguir para o Grande Continente, se assim os deuses desejarem. — passou o dedo pela face alva da jovem, secando uma das lágrimas. — Sabe que pode usar essa magia! Aprenda e utilize bem seus conhecimentos. —Mas… —E quando chegar o momento, talvez seus atos tenham sido os precursores daqueles que irão trazer a Era Dourada novamente. Engolindo o choro, abraçou-o ainda mais forte, mas o balanço do navio logo os lançou ao chão. Foi então que, levantando-se com dificuldade, ela viu que a água começava a passar por baixo da porta de sua cabine… E, de súbito, a porta foi escancarada. Contendo um grito, porém, percebeu que não era uma massa d’água que entrava, mas sim o capitão do navio, totalmente encharcado. Escorando-se num dos móveis presos ao chão da cabine, ele puxou pelas mãos a jovem. —Não há muito tempo! — estendeu a outra mão para Zagar, sua voz demandando urgência. — O casco foi comprometido quando nos chocamos com algo… Tenho um escaler já preparado, mas não podemos perder tempo! A jovem olhou com desespero para Zagar: —Meus pertences, minhas… —Não há tempo! – bradou o capitão. — Precisamos subir agora! E novamente foram lançados ao chão pela força das ondas. Desvencilhando-se de quem a segurava, a jovem conseguiu alcançar uma gaveta, de onde rapidamente retirou uma gargantilha de esmeraldas e a colocou no pescoço. Pondo-se em pé novamente, o capitão falou com zombaria: —Meus homens estão lutando por suas vidas e tu apenas te preocupas com riquezas… —Jamais repitas isso, capitão, — Zagar o interrompeu, colocando o indicador direito diante dos olhos dele — ou serão tuas últimas palavras. Não posso impedi-la de levar consigo o único elo físico que Deora tem com sua mãe. Mostra o caminho.

A jovem Deora segurou nas mãos de Zagar e, em meio aos trancos e balanços do galeão, conseguiram atingir o convés. Lá, contudo, a situação se mostrava infinitamente pior do que se podia imaginar: alguns tentavam, a todo o custo, reparar a vela do mastro principal, que aparentava não poder suportar por muito mais tempo o vigor dos ventos, outros corriam com baldes jogando a água para fora. Enquanto passavam pelos homens que lutavam por suas vidas, o capitão se deixava tomar pela angústia. Tudo o que temia estava tomando força, mas pouco podia fazer para salvar sua tripulação. Restava-lhe, somente, permitir que os dois que conduzia pudessem escapar. —Nau pronta, capitão. — o contramestre acenou de longe, sem muita reverência, segurando as amarras do escaler. Sem palavra, o capitão conferiu se as provisões estavam na pequena nau, já estendendo a mão para Deora, que prontamente se colocou no centro. Zagar, no entanto, não se moveu. —Meu senhor, não posso permitir que fiques conosco. — a sinceridade estava nos olhos do capitão. — O galeão não é mais seguro. Mas, como se a tempestade respeitasse a voz de Zagar, silenciou por um momento: —Há sete anos, capitão, — disse, ainda segurando nas mãos de Deora. — foi em teu navio que deixamos o Grande Continente, sendo um dos primeiros a seguir o caminho do Êxodo. Sabes muito bem que a magia é o que dá força ao nosso povo, e sabes também que não podíamos lá permanecer.

Enorme foi tua bondade ao permitir que Deora conosco embarcasse, mesmo nela não fluindo o sangue de nossas mães, e isso não pode ser esquecido. É por isso que, quando decidi retornar, sendo o primeiro a acreditar que o Êxodo teria um fim breve, escolhi a ti como aquele a nos guiar. Deora seguirá para Vlyn, com as bênçãos da amada deusa Andora, regente de toda a natureza, e irá buscar a nova magia que pode fazer com que, um dia, todos retornemos. Eu, no entanto, contigo permanecerei, pois não posso te deixar sem que o remorso por ti e por teus homens me consuma pelo resto dos dias. —Zagar, não! Os gritos de Deora, em franco desespero quando Zagar soltou sua mão, foram abafados por umtrovão ensurdecedor, prenúncio de uma nova investida da tempestade. Com um aceno, o capitão deu permissão ao contramestre para que as amarras fossem soltas e o escaler se afastou rapidamente. Os brados de Deora não mais puderam ser ouvidos e, pouco depois, as altas ondas impediram que Zagar fosse capaz de observar a jovem que esteve sob seus cuidados por tantos anos. A pequena embarcação não havia sido concebida para sobreviver em meios tempestuosos, mas precisava, ao menos desta vez, ser capaz de atravessar o temporal e atingir águas mais calmas. Porém, a fúria das ondas parecia não ter fim e Deora, finalmente deixando que sua razão falasse mais alto, amarrou-se ao escaler para que, se fosse jogada ao mar, pudesse alcançá-lo sem muitos problemas. Com um remo nas mãos, em vão tentava manobrar a pequena nau, que havia se tornado nada além de uma marionete sob controle das ondas. Por ser noite, somente o clarão dos relâmpagos podiam guiá-la, o que não a impediu de lutar. Todavia, suas forças estavam se esvaindo, e Deora percebeu o quão difícil era remar contra todas as correntezas de Andora. Então, sem aviso, as ondas se acalmaram apesar dos ventos rugirem como nunca antes haviamfeito. Deora suspirou, aliviada, e deixou que o escaler seguisse por uma leve corrente marinha por alguns instantes. Mas, quando os raios novamente iluminaram os céus, o pavor tomou conta da jovemque, murmurando todas as preces que conhecia, largou o remo e se segurou ainda mais fortemente à pequena embarcação… A razão de seu pavor não era infundada, pois aquela calmaria era apenas o anúncio da formação da maior das ondas, tão alta quanto um dragão, tão extensa quanto as asas de um pássaro roca.

E, comum rugido mais poderoso que todos os trovões juntos, a onda quebrou, tragando o escaler e Deora para as profundezas do mar. Capítulo 1 As gaivotas já singravam os céus em uma constante revoada quando Brion retornou de sua pescaria, um tanto insatisfeito com a pequena quantidade de peixes que havia em sua rede. Sabia, no entanto, que era mais do que ele e sua esposa precisariam nos próximos três dias, fazendo-o se recriminar por desejar dos mares mais do que seria justo para si. Remando pelas águas que banhavam a praia de Mitarna, vazia como de costume àquela hora, o pescador sorriu, admirando a rotina de seus dias. Porém, desta vez, havia algo mais, suficiente para fazer com que Brion se sobressaltasse. —Ora, ora… — uma pequena embarcação balançando ao ritmo das ondas, parcialmente presa na areia da praia, era o que chamava sua atenção. — Quem em sã consciência deixa um barquinho mal ancorado assim? Desembarcando rapidamente, o pescador se aproximou da nau, enquanto notava o nome entalhado na proa, escrito com símbolos estranhos, talvez grafado em um idioma desconhecido. Contudo, ao admirar a estrutura de madeira, percebeu entalhes em toda a extensão da quilha, como se o barco tivesse sido feito por um artesão e não um carpinteiro. Mas sua estupefação chegou ao ápice quando, ao ouvir um gemido, percebeu que uma pessoa estava deitada de bruços, amarrada por um dos braços à pequena embarcação. —Por Val’ys! — murmurou Brion. — Roupas vermelhas! As ondas trouxeram uma donzela da nobreza até aqui! Como se houvesse percebido a presença do pescador, a jovem tentou se mover, tossindo. Só então viu o interior da pequena nau quase todo tomado por água do mar, concluindo que a jovem, vítima das fortes tempestades dos últimos dias, tivesse tentado escapar… Mas não haveria de ter vindo sozinha, pensava enquanto desatava o nó que a prendia, pois não seria possível que tivessem deixado uma nobre singrar os mares desacompanhada. Apoiando o corpo da jovem no seu, ajudou-a a se sentar na areia, pacientemente aguardando até que ela expelisse toda a água de seus pulmões. —Sei como é ruim engolir tanta água salgada, — havia esperado até que ela se recompusesse, falando em tom calmo, olhando para os céus. — é por isso que navego somente quando as marés estão tranquilas.

Eu deveria saber que os mares iriam trazer algo diferente hoje, pois há muito não vejo as gaivotas tão cedo aqui em Mitarna… Mas, antes que me esqueça, meu nome é Brion… A jovem, ainda com os olhos fixos na areia, disse, como se sussurrasse: —Eu sou… Deora. Ainda por alguns instantes o pescador aguardou, como se esperasse o enfadonho discurso de umnobre, dizendo seu nome, linhagem e terras que possuía, mas a jovem permaneceu em silêncio. —Mas de onde vens, Deora, e onde estão aqueles que contigo vieram? — ele a fitava, seus olhos tomados por dúvidas sinceras. — Se fostes vítima de um naufrágio, o que não é algo comum nas águas de Vlyn, temos condições de tentar localizar teu navio… Ainda assim, a última forte tempestade ocorreu três dias atrás. Quem cuidou de ti durante todo esse tempo? Mas Deora não disse palavra alguma. Seus pensamentos estavam vazios — por mais que tentasse se recordar de algo, o que passava por sua mente eram apenas lembranças inertes, fragmentos de memória, escassas peças do quebra-cabeças que era sua vida. —Eu… — apoiou a cabeça nas mãos, numa tentativa surda de se prender a algum elemento que pudesse esclarecer-lhe algo sobre o que estava fazendo ali e de onde viera. — Eu não lembro… De nada. O sorriso deixou os lábios de Brion quando o pescador tentou imaginar que eventos poderiam ter ocorrido recentemente na vida da jovem para que esquecesse tudo, a não ser seu nome. Mas, acreditando ser passageiro, o pescador se ergueu lentamente e, com o sol às suas costas, vislumbrou o ornamento de pedras verdes no pescoço de Deora. —Parece-me mesmo que tu pertenças à nobreza, jovem. — voltou-se para a direção do vento, esperando dele as respostas para as perguntas. — Mas há coisas que riqueza alguma pode nos dar. Deora o fitou por alguns instantes, vendo seus cabelos grisalhos brilhando ao sol. As feições do pescador denotavam a simplicidade daqueles que vivem uma existência pacífica, suas rugas, profundas, revelando as noites de sono perdidas à espera de alimento.

Entretanto, mais do que isso, eram os olhos de Brion, tintos de um azul profundo, que inspiravam confiança, pois Deora acreditava que já havia fitado olhos como esses em algum lugar, há algum tempo. E foi essa confiança que a fez questionar, aceitando as respostas de Brion como totalmente verdadeiras: —Onde é aqui? Esta praia…? Essa Mitarna?… —Não te contarei apenas sobre Mitarna, mas também sobre Vlyn. — o pescador sorriu, abrindo os braços, sentindo-se como um narrador de um conto antigo. — Esta ilha é chamada de Vlyn, e é lar daqueles que ousaram deixar o Grande Continente quando navegaram para o sul. Minha vila, Mitarna, não é mais que uma pequena comunidade pesqueira, que sobrevive com as bênçãos dos deuses que nos dão o suficiente quando jogamos nossas redes ao mar. E, do nosso ancoradouro, passam as naus que carregam ametistas com destino ao Grande Continente e as especiarias, gado e aço que recebemos em troca. Contudo, é a vila de Jollern, a cerca de seis horas daqui, que extrai as ametistas, pois foram eles que abriram a mina na parte sudeste da ilha… — olhou novamente para os céus, vendo a posição do sol no firmamento. — Mas aguarda um pouco. Vou até minha casa pegar algum bom alimento para ti, mas retornarei em breve. Deora ouvia a tudo com atenção, como se procurasse buscar um lampejo de memória através das palavras de Brion, mas sua tentativa resultou infrutífera. Ainda assim, ela sorria. —É uma bela ilha, com certeza, Brion. Eu esperarei por ti e… Obrigada. Obrigada por tudo o que fazes por mim. O pescador pensou que jamais ouviria uma nobre agradecer por algo e deixou que o brilho nos seus olhos revelasse isso.

Com uma marcha rápida, prontamente seguiu na direção de uma trilha que levava à pequena comunidade pesqueira. Sentindo-se recuperada, Deora se pôs em pé e olhou para seu reflexo na água acumulada na pequena embarcação que a havia trazido até Vlyn — seus cabelos estavam em desalinho e seu vestido puído em alguns pontos, até mesmo deixando à mostra seu ombro esquerdo. Mas era no adorno de esmeralda que trazia em seu pescoço, brilhando como se dele pulsasse vida, que seus olhos se fixaram. Tocando sua gargantilha, por um instante, vislumbrou um clarão em meio à escuridão de sua memória — uma única cena, mas suficiente para que a jovem se sentisse não mais tão só: era o momento em que alguém colocava no pescoço de uma recém-nascida aquela joia. Deora, de alguma maneira, soube que era a garota, mas ainda não se recordava de mais nada… —Certas lembranças devem ser deixadas para trás, criança. A voz parecia ter vindo de todos os lugares, despertando Deora de seu sonho acordado. Volvendo os olhos pela extensão da praia, não encontrou ninguém. Era, com certeza, uma voz feminina e suave, mas a jovem duvidava que houvesse sido fruto do pequeno lampejo de memória que tivera. Mas ao ver Brion, já retornando com uma pequena cesta de vime, acenando para ela, a jovem ousou pensar que sua imaginação estava pregando-lhe peças. —É bom ver que já te levantaste. — o pescador deixou a cesta na areia e se sentou. — Karina, minha esposa, ficou feliz em saber que teríamos uma nobre hóspede em nossa casa hoje… É claro, se aceitares nosso convite. A jovem deixou todas as preocupações de lado ao sentir o aroma de pão doce com frutas e leite quente mesmo antes da cesta ser aberta. A fome, algo que Deora enfrentara nos últimos dias, agora se mostrava com todo o vigor, e o pescador notou isso em sua face. —Não mais fiques em pé, Deora.

A comida deve ser saboreada junto à areia e às ondas. O pão acabou de sair do forno e o leite foi tirado há pouco. — riu ao ver que ela ainda não se mexera. —Vamos, o que aguardas? Um convite formal? A jovem se contagiou com o riso de Brion e, sentando-se ao seu lado, compartilhou da mesma alegria. Juntos, dividiram o pão e tomaram da mesma jarra de leite. Nobre ou não, pensava o pescador, Deora era uma pessoa de excepcional simplicidade. Quando o sol estava alto, os dois juntaram as coisas e seguiram em direção à casa do pescador. Pelo caminho, Brion mostrava tudo o que havia, chamando cada planta e cada animal por seu nome particular, revelando saber mais do que apenas contar histórias. E, não muito depois, avistaram uma construção de alvenaria, humilde em sua aparência, singela em seus detalhes, um pouco afastada da vila, pois somente ao longe outros rolos de fumaça subiam aos ares… Um fogo estava aceso em um amontoado organizado de pedras, tal qual um fogão improvisado, e sobre ele peixes assavam. Ao lado, uma jovem os recebia sorrindo. Karina, esposa de Brion, tinha os cabelos, da mesma tonalidade de seus olhos castanhos, emtranças, brilhando sob o sol, enaltecendo a beleza de sua fronte. Suas roupas, um misto de vestido e avental, estavam um pouco impregnadas com aroma de especiarias, mas Deora parecia mais impressionada com os quinze ou dezesseis anos que aparentava possuir. —Meu marido! — tinha uma voz juvenil. — Começava a me preocupar contigo, pois mesmo trazendo tão nobre visita não te costumas demorar. Minha senhora, — ela fez uma reverência.

— és nossa hóspede e sou tua serva durante tua estada. Algo que possa fazer para te servir neste instante? Deora olhou para Brion com olhos indagadores, mas o pescador apenas sorriu, sem nada dizer. Um pouco encabulada, aproximou-se de Karina, erguendo-a. —Devo ser eu tua serva, minha anfitriã, pois a ti e ao teu marido devo toda a retribuição por vossos cuidados. Dessa forma, somos iguais, e nenhuma de nós tem algo a dever. Somos Deora e Karina, e não servas uma da outra. O sorriso de Brion cresceu enquanto as duas se abraçavam como se velhas amigas fossem. E, enquanto conversavam, o pescador cuidou de terminar a preparação do almoço para que os três pudessem comer com as bênçãos dos deuses. Após almoçarem, descansaram sob a sombra de uma figueira que Brion se orgulhava de ter plantado. Riram. Conversaram sobre muitas coisas. Deixaram que a noite caísse antes de retornaremaos seus afazeres — Brion cuidando de seu barco, Karina de seu jantar. Sozinha, brindada pela mais prateada das luas, Deora deixou que o sereno e a calmaria fossem suas únicas companhias. —Esta noite venho buscá-la, criança. E novamente Deora olhou ao redor, não vendo ninguém.

Era a mesma voz que ouvira na praia, ecoando como se viesse de todos os lugares. Lentamente, caminhou em direção à casa, ainda volvendo o olhar para se certificar de que ninguém mais estava lá. —Disseste algo? — perguntou para a senhora da casa. — Acho que ouvi uma voz me chamar… —Não, — Karina se virou por um momento, ainda mexendo uma panela. — e também nada ouvi, embora estivesse absorta em minha culinária… — provou um pouco com uma colher menor de madeira, sorrindo em aprovação. — Teremos sopa de legumes. Queres experimentar? Deora balançou a cabeça em negativa e se sentou junto ao pilão que guardava um dos cantos do cômodo, ainda pensando na voz que ouvira. Não muito depois, Brion retornou, sua face tomada pela expressão de quem fez bem o seu trabalho. Após o pescador pegar uma cumbuca, ávido pela comida de Karina, as duas também puderam comer, desta vez sem conversarem muito devido ao cansaço. Depois da frugal refeição noturna, a dona da casa preparou uma cama de palha improvisada para Deora, não tardando até que todos estivessem deitados. Ainda observando o curso da lua pelo céu, através da janela do cômodo onde estava repousada, a jovem náufraga se deixou dominar pelo sono. E seu sonho fluiu com vagar, mesclando memórias perdidas com fantasias desordenadas, em um caótico ir e vir de imagens e sons sem sentido e sem direção. Mas, emergindo desse turbilhão difuso, um brilho tomou lugar, ofuscando e inebriando, até que Deora viu uma velha toda vestida de branco no centro de uma encruzilhada, com quatro objetos aos seus pés. Um a um, flutuando e girando emtorno da anciã, eles se transformavam: uma espada, um cálice, uma moeda de prata e um manto. A luz, então, começou a ofuscar a visão novamente, impedindo que qualquer outra coisa fosse vista e, quando não mais a jovem pôde suportar o brilho, ela acordou.

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