A vinganca da amante – Tamar Cohen

Deixe-me explicar antes de começar. Sei que talvez você ache tudo isso um tanto alarmante, malicioso ou até repugnante. Chame do que quiser. Mas acredite em mim, nada pode estar mais longe da verdade. A questão é que eu fui a uma psicóloga, como você me aconselhou. Tão gentil da sua parte pensar nisso. “Sei que acha que isso é tudo balela, eu também achava, mas, acredite em mim, você vai ver o resultado”, encorajou-me você, em seu tom de voz mais preocupado logo depois do York Way Friday, quando ainda agia de modo inteiramente culpado. E como estava certo. Já posso ver os resultados, de verdade. Seja como for, ela me falou — aliás, o nome dela é Helen Bunion, dá para acreditar?* E ela costuma virar a cabeça de lado um pouquinho, feito um passarinho, quando começo a falar. Acho que é para demonstrar que tenho atenção total e exclusiva dela —, ela me falou que colocar tudo “para fora” é parte vital do meu processo de recuperação. Foi exatamente isso que ela disse: “parte vital do meu processo de recuperação”. Então, o que posso fazer? Não quero obstruir meu processo de recuperação, e Helen Bunion está realmente preocupada com meu bem-estar, então “para fora”, aí vamos nós! Sei que você vai ficar preocupado com a possibilidade de outras pessoas lerem isto e de a história toda se tornar pública, e, acredite, se eu arrumar um jeito de colocar tudo “para fora” sem correr o risco de exposição e de ter todos os problemas associados a ela, é claro que vou tomar cuidado. Faço isso por você. Você sabe disso.


Mas, como você mesmo já vivenciou as vantagens de se fazer “terapia”, tenho certeza de que vai entender que é preciso ser absolutamente honesta (não, qual é a palavra que se usa atualmente? Transparente. Absolutamente transparente), não importa o quão doloroso isso seja. Então, é isso que vou ser. Como parte do meu processo de recuperação. E já posso ver os resultados. Muito obrigada pelo conselho. Helen Bunion — ela prefere que eu a chame só de Helen, e, com um sobrenome desses, dá para imaginar por quê. Mas acho difícil. É como chamar um professor pelo primeiro nome, é errado de alguma forma. Ela me falou que eu devia “diariar” minhas emoções. Você sabia que tem um verbo para isso agora? “Diariar”? É mais um daqueles verbos inventados que deveriam permanecer como substantivos, igual a “impactar”. Engraçado, Helen também já usou esse. Ela disse que você “impactou minha vida catastroficamente”. Catastroficamente é uma palavra muito forte, não acha? Ainda assim, é de se esperar que uma psicóloga experiente saiba do que está falando, não é? Então, preciso presumir que ela tenha alguma base. E, assim, minha tarefa agora é fazer um diário das minhas emoções.

Isso vai ser fundamental no meu processo de recuperação, ou ao menos fui levada a acreditar nisso. Na verdade, estou ansiosa para começar. Desde que você foi embora, tenho sentido falta de conversar com você. Você se lembra de como eu dissecava cada detalhe de nossas vidas naqueles e-mails intermináveis que a gente trocava o dia inteiro? Nosso relacionamento nunca teria começado se tivéssemos empregos “de verdade”, você disse, fazendo a expressão “empregos de verdade” soar como uma coisa escura e pegajosa que a gente encontra na salada. E você estava certo, é claro. Cinquenta, setenta, cem emails por dia, só era possível porque passávamos tanto tempo na internet, sentados sozinhos diante do computador por horas a fio: você em Fitzrovia, nos elegantes escritórios da gravadora onde é patrão e produtor musical, ou no seu escritório pequeno, porém perfeitamente funcional, instalado no sótão de sua linda casa branca de estuque, no St. John’s Wood (eu sei que você insistia que gostava da vista para os jardins e para os outros telhados, mas aquele sótão minúsculo sempre pareceu uma escolha um tanto esdrúxula, considerando que você poderia ter tomado conta da casa. “O babaca solitário no sótão”, era o assunto dos seus e-mails). E eu no cubículo feito de divisórias em minha desgastada casa de três quartos no sul de Londres, na maior parte do tempo, encarando o nada. “Divagações de um babaca solitário no sótão.” As mensagens chegavam à minha caixa de entrada. Aquele título indo e vindo, à medida que a troca de e-mails aumentava. Às vezes, eu mudava o assunto para “Divagações de uma mulher invisível num cubículo”. Cada vez maiores, mais e mais mensagens, catalogando os pormenores de nossas vidas. Cada incidente em meu dia era cuidadosamente coletado para mais tarde ser entregue a você como um presente em forma de e-mail.

Me trancar do lado de fora de casa ao tirar o lixo! Comprar um exemplar do Guardian no supermercado para descobrir logo depois que já tinham roubado a revista Guide! Só agora, quando já não há mais ninguém a quem oferecer esses brindes, nem alguém que os queira, é que percebo quão inúteis todas essas superficialidades foram. Quem mais se interessaria pelas refeições desastrosas que faço para as crianças (isso mesmo, ainda me limito a preparar fajitas, e você se divertia tanto com meu repertório culinário de dois pratos) ou pelo velho rabugento que veio fazer a leitura do gás e me deu uma bronca por causa da pilha de caixas e bolsas que acumulo no armário embaixo da escada? “Você está me colocando em perigo”, disse ele. Não é um exagero? Colocando-o em perigo. Imagino que eu poderia contar tudo isso para Helen Bunion, e ainda assim ela tombaria aquela cara de passarinho para o lado e me ouviria com intensidade, balançando a cabeça e fazendo “hum” de um jeito encorajador e eminentemente empático, mas não seria a mesma coisa. Nem seria um uso muito eficiente de 75 libras por hora! É preciso reconhecer que foi muito gentil da sua parte me fazer achar que havia algum valor em meu falatório. Fico me perguntando o que você faz com todo o tempo livre que deve ter agora que não precisa mais ler tudo aquilo. Esse negócio de diariar é fantástico. De verdade, não sei o que seria de mim sem isso. Faz com que eu perceba que honestidade — desculpe, transparência — realmente é a chave. Já me sinto mais leve. Você sempre foi o maior defensor da honestidade, é claro. “Acho que vou contar tudo para Susan”, diria você num ímpeto. “Não quero que isso tenha de ser algo oculto. Não é assim que me sinto a seu respeito. Quero que o mundo saiba sobre ‘nós’.

” A verdade nos libertaria, você sempre dizia. No entanto, quando eu sugeri (tudo bem, admito que “implorei” talvez seja uma palavra mais adequada) que a gente esclarecesse tudo e deixasse que a sua esposa e o meu “parceiro” (algum dia houve eufemismo maior?) decidissem por si próprios baseados em todos os fatos, de repente a verdade passou a ser outra coisa, uma força destruidora da qual Susan e Daniel deveriam ser protegidos. Tão conveniente que você tivesse habilidade comessas nuanças sutis. Sem a sua ajuda, eu jamais teria entendido a diferença. Sian ligou de novo. Ela o tem feito bastante nos últimos dias. Acho que está tentando me flagrar sofrendo. “Me sinto tão responsável”, foi o refrão constante dela depois dos eventos do York Way Friday. “Eu conspirei para o caso de vocês. Fui uma capacitadora.” Ela realmente usou essa palavra. Capacitadora. Desde quando todo mundo ficou tão fluente empsicologuês? Ainda assim, acho que em um ponto ela tem razão. O que teria acontecido entre a gente se Sian não tivesse servido de álibi quando eu me jogava na noite para encontrar você ou quando ela se juntava a nós num jantar e fingia não ver que estávamos de mãos dadas por baixo da mesa? “Acho que ela se diverte por tabela”, dizia-me você, e sem dúvida havia um fundo de verdade nisso. Você nunca entendeu por que Sian, não é? E, de alguma forma, estava certo.

Ela é a única amiga de faculdade que, tanto tempo depois de eu ter me afastado dos outros, permanece em minha vida como um Post-it que ficou perdido, pendurado nas costas de um casaco. Antes de nosso caso começar, ainda tínhamos poucos e preciosos pontos em comum, ela e eu. Eu sempre dizia que Sian ostenta o status de solteira estável como uma camiseta com um slogan agressivo, insistindo que se trata de um estilo de vida. Você se lembra do jantar daquele seu amigo produtor de TV no qual levou a nós duas? Ela deu em cima de todos os homens a noite toda, regalou os outros convidados comhistórias fantasiosas sobre os garotos de 25 anos que já tinha levado para a cama (engraçado como esses amantes são sempre “maravilhosos”, embora ninguém nunca os encontre), acabou jogada emcima de um pufe e teve de ser mandada para casa de táxi. Feliz em conspirar em favor de qualquer coisa que desafiasse a predominante Máfia dos Casados, como Sian dizia, a princípio ela ficou satisfeita por capacitar o nosso caso. É por isso que, apesar do frequentemente declarado carinho pelo Daniel (“A gente se entende tão bem”, falou-lhe uma vez. Você se lembra disso? Do quão mordaz você foi?), ela nos encorajou, a mim e você, arrastados pela embriagante ilusão de romance e seu reconfortante engrandecimento da paixão sobre o companheirismo. “Se serve de consolo, Sally, eu também me enganei a respeito dele”, me disse ela hoje, balançando a cabeça meio tristonha. “Eu me iludi completamente. Me sinto traída.” Isso o surpreende, Clive, o efeito dominó da sua traição? A forma como até minha melhor amiga se sente traída por tabela? Em favor dela, digo que Sian tem passado por muita coisa nos últimos meses: me levantou do chão várias vezes, se esta não for uma analogia muito banal. (Pense em mim como uma mancha de gordura grudada no piso da cozinha, o tipo de sujeira que você precisa raspar com força, usando uma faca afiada.) A primeira reação de Sian às bombásticas notícias do York Way Friday foi choque e incredulidade. “Ele não pode ter feito isso…” “Não, não pode ser…” “Não acredito que ele tenha feito isso…” Mas logo passou para a raiva. “Como ele pôde ter feito isso…” “Quem ele pensa que é…” Ela se sentia como se sua confiança na natureza humana, que nunca chegou a ser muito sólida, estivesse sendo testada.

Ela se sentia desiludida. “Você vai superá-lo logo”, falou-me hoje. “Vai aprender a vê-lo pelo que ele realmente é, e então, puff, a venda diante de seus olhos vai cair.” Puff. Fácil assim. Eu disse a ela que não podia mais esperar. E então, porque isso a faria feliz e porque eu queria que fosse verdade, contei que já estava começando a acontecer. “Estou melhorando, de verdade”, falei. E, na certa, estou melhorando. De verdade. Alguns dias sou capaz de passar longos minutos sem sequer pensar em você. Sian pareceu satisfeita quando contei a ela sobre meu progresso. “Estava preocupada com você, preciso dizer”, disse ela. “Não tem sido você mesma ultimamente.” O que não cheguei a lhe contar é que eu mesma sou a última pessoa que quero ser ultimamente.

Sian ainda estava aqui em casa quando Tilly e Jamie chegaram da escola. Sabe, cada vez mais me surpreendo quando eles entram pela porta da frente. Isso soa horrível? É como se, assim que meus filhos saem de casa pela manhã, e eu fico aqui sozinha, eles parassem de existir, e, então, quando voltam à tarde, tenho de reaprender que eles existem. Será que alguém sente isso? Bem, você não, imagino, uma vez que já passou por isso antes. Sinto falta dos seus conselhos em situações como essas. Jamie estava ávido para me contar que o Sr. Henshaw ainda estava de licença por causa de uma enfermidade misteriosa e secreta. Ele parecia pensar que eu devia saber tudo a respeito do Sr. Henshaw, portanto, concordei veemente com a cabeça e torci para que não esperasse mais nada de mim. Tilly me lançou um daqueles olhares. Todas as meninas fazem isso? Lançam esses olhares fulminantes que fazem com que você se sinta como se tivesse feito algo absoluta e irremediavelmente estúpido? Imagino que sua Emily o tenha poupado disso. Afinal, ela é a filhinha do papai, não é? Guarda seus olhares fulminantes para o restante de nós. “Não sei por que você perde tempo contando essas coisas para a mamãe”, disse Tilly a Jamie. “Ela não tem ideia do que você está falando.” “Ela tem, sim!” E o rosto de Jamie ficou vermelho.

“Eu contei para ela ontem.” “Então tá.” E Tilly me encarou, um par de olhos de 13 anos fixos nos meus. “Quem é o Sr. Henshaw?” Helen Bunion me falou uma vez sobre como interagir com crianças, e eu fiquei tentando lembrar o que ela tinha dito. Sabia que tinha alguma coisa a ver com distraí-las, respondendo uma pergunta comoutra pergunta. Ou talvez isso seja exatamente o que você não deve fazer. Preciso admitir, devo ter parecido um tanto vaga, parada ali, tentando me decidir entre distrair ou não distrair meus filhos, porque Sian, que costuma lidar com crianças como se fossem entregadores não muito inteligentes e que precisam de instruções precisas e firmes, decidiu intervir: “A mãe de vocês não tem se sentido muito bem nos últimos dias.” E dois pares de olhos infantis me encararam, subitamente curiosos. “O que ela tem?” Foi um choque que Tilly tenha se referido a mim como se eu não estivesse ali. Mas, em parte, foi também um alívio. Como a pergunta não tinha sido direcionada a mim, ninguémesperava que eu a respondesse. “Para mim, mamãe parece bem.” Jamie estava na dúvida. “Os olhos dela parecem menores, como se tivessem encolhido.

” “Não tenho dormido muito bem, é só isso”, expliquei a eles. Uma reação maternal apropriada, não? Tentar diminuir os próprios problemas de forma a não preocupar os filhos. (Ultimamente tenho me perguntado com frequência sobre o que é e o que não é apropriado. É como se eu estivesse assumindo o papel de mãe pela primeira vez, e sem qualquer vocação para tal.) Jamie se aproximou e me deu um abraço, de olho em Sian, em busca de aprovação. Tilly permaneceu onde estava, enrolando uma mecha de cabelos entre os dedos. “Você deve estar com a consciência pesada”, disse ela. Sian me encarou. Foi a expressão “consciência pesada”, eu sei. Mas para mim está claro que Tilly só estava querendo provocar. E a verdade é que não estou com a consciência pesada. A respeito de nada. Sei que deveria estar, mas não estou. “Culpa é um sentimento tão pequeno-burguês”, você costumava dizer. Sempre encarou a culpa como um desperdício.

E estava certo, é claro. Tão inteligente esse seu jeito de classificar as emoções: de acordo com a utilidade delas. Também preciso começar a fazer isso, de verdade. Aparar toda a bobajada emocional deve tornar sua vida interior tão mais eficiente. Você deve ter o Volkswagen das vidas interiores, Clive. Quanto a isso, tenho que lhe dar o braço a torcer. Sabe, posso perdoá-lo pelo fato de que, mesmo tendo lhe implorado que me avisasse de antemão quando fosse me deixar, ainda assim você me fez aparecer naquele restaurante no York Way Friday com uma impaciência animada, sem lavar os cabelos e usando não mais do que minha segunda melhor calça jeans. Posso perdoar o jeito como me falou que estava tudo acabado antes mesmo que eu terminasse de tirar o casaco, esperando, de alguma forma, que conseguíssemos preencher as três tortuosas horas seguintes, eu com um dos braços ainda dentro da manga. Posso perdoar aquele almoço terrível, excruciante e doloroso; a garçonete rondando sem jeito as refeições não comidas, a cara tão esticada num sorriso que parecia prestes a arrebentar, e eu evitando quaisquer olhares. Posso até perdoá-lo por ter pedido a nota fiscal (parece que mesmo as despedidas podem ser dedutíveis de imposto). O que não posso perdoar é a maneira como você bateu em retirada, tão aliviado, quando saímos do restaurante e falei que fosse embora. Você estava no meio da rua, a bolsa do laptop batendo insistentemente contra suas costas, e só então me dei conta de que ia mesmo me deixar ali, chorando na chuva. Saaaally, sua bobinha, você costumava escrever em seus e-mails. Mas, antes que diga qualquer coisa, sei que você está de saco cheio de mim. Recebi seu e-mail onteme estou fazendo o melhor possível para entender como se sente.

Esse diário realmente está aumentando minha habilidade de compreensão. Acho que você ficaria orgulhoso. “Tente me entender só um pouquinho”, você me implorou logo antes de me deixar chorando no York Way Friday. “Apenas tente ver as coisas sob meu ponto de vista.” Acho que estou enfim começando a pegar o jeito, esse negócio de empatia, de ver as coisas sob o ponto de vista de outras pessoas. É excelente. Então agora estou lhe pedindo que veja as coisas sob a minha perspectiva. Demonstrar um pouco de empatia. Deve ter se familiarizado um bocado com isso pela sua própria psicóloga. Deus sabe, você teve sessões suficientes. “Bem, o plano de saúde cobre, então posso fazer bom uso do meu próprio dinheiro.” Além do mais, você sempre gostou de se ouvir falar. Lembro quando você voltou da primeira sessão, todo satisfeito consigo mesmo. “Peguei a psicóloga completamente desprevenida”, você se gabou. “Ela não tem ideia do que pensar de mim.

Não me enquadrei em nenhum dos padrões perfeitos dela, entende?” Mas, ainda assim, é de se esperar que todas aquelas sessões tenham transmitido alguma coisa, uma espécie de autoconhecimento. Portanto, espero que tente me entender. Lá estava eu, na noite passada, pensando em Susan e imaginando como ela estava. Sei que Susan e eu nunca fomos exatamente melhores amigas — aquele sotaque australiano atrapalha um pouco as coisas, não acha? Suavizado, mas inegavelmente ali apesar de estar há três décadas no Reino Unido. Conhecidas, eu diria. Mas sempre gostei dela. Às vezes chegava a achar que eu gostava dela mais do que você. “Não quero que Susan fique sozinha”, eu dizia, tão generosa. “Ela não merece.” Ou: “Como vamos ser capazes de construir nossa felicidade à custa do sofrimento de Susan?” Você sempre fazia uma cara de dor quando eu falava assim. “Me sinto péssimo em relação a Susan”, você me diria (essas eram as palavras que você sempre usava quando se referia a ela: “péssimo”, “terrível”, “infeliz”). “Mas quando duas pessoas estão tão apaixonadas como nós dois, temos obrigação de ficar juntos, de ser felizes, não é?” E, de qualquer forma, Susan ficaria bem, você me dizia. Ela sempre foi tão capaz, tão incrivelmente talentosa. Você falava dela como se fosse uma biblioteca. Mas preciso admitir que a palavra “puta” no e-mail de ontem à noite me machucou.

Sabe, eu até tive que interromper a leitura e dar uma olhada nos e-mails anteriores, mais alegres, como aquele emque você falou que mataria qualquer um que pensasse em me magoar, lembra? Eu sei que isso soa meio rude, mas é assim que você me faz sentir, você escreveu. É uma coisa primitiva. Primitiva. Que escolha de palavras interessante. Sabe, é exatamente assim que tenho me sentido durante a maior parte do tempo. Primitiva. O curioso é que, inconscientemente, acho que eu estava esperando que o cara que escreveu o primeiro e-mail viesse me proteger do que escreveu o segundo. Não é ridículo? Talvez eu devesse guardar esse pensamento para a próxima sessão com a Helen. Ela é boa nesse negócio de inconsciente. Vai ser como levar uma maçã de presente para a professora. De qualquer forma, na noite passada eu estava pensando em Susan. Tenho feito isso com frequência desde que você pintou um retrato tão vívido da vida conjugal de vocês dois. E tem sido muito útil, já que agora sou capaz de visualizar o que ela está fazendo a qualquer hora do dia. Faz com que eu me sinta mais próxima dela. Sei que depois da ceia vocês normalmente passam para o segundo andar da magnífica casa em St.

John’s Wood, onde fica o enorme quarto azul-celeste com portas de vidro que se abrem para o terraço privativo no telhado. Não que eu tenha visto com os meus próprios olhos, mas você descreveu o quarto tão bem que é como se eu já tivesse estado nele. É ali que vocês se recolhem depois da “ceia”, para relaxar na cama king-size gigante, ler o jornal, ver TV e comentar sobre o que viram ou leram. “Só conversa fiada”, você me assegurava. “Nada parecido com a variedade e a profundidade dos assuntos sobre os quais você e eu falamos.” E assim, na noite passada, eu estava meio sem ter o que fazer. As noites têm sido tão longas, você não acha? O intervalo sonolento entre o jantar e o estado de esquecimento? E eu comecei a imaginar Susan e você na cama. Na minha cabeça, eu já tinha acompanhado a rotina de vocês. Sabia que já tinham “ceado” na impecável extensão da cozinha feita com paredes de vidro, sentados em torno da mesa quadrada de madeira clara em que Daniel e eu jantamos tantas vezes (tão estranho pensar nisso agora). Vocês provavelmente comeram com o filho, Liam, que nunca cheguei a conhecer, e uma de suas namoradas riquinhas maravilhosas, de cabelos sedosos, dentes grandes e usando sandálias absurdamente altas. E depois que você terminasse de tirar a mesa — seu jeito de demonstrar apreço pelas refeições exemplares de Susan (dona de casa perfeita, executiva, publicitária de sucesso, esposa, mãe, tão, tão talentosa) —, vocês dois subiriam pela escada até o segundo andar. E, de repente, me veio a ideia de ligar para Susan. Não ria, mas sempre achei que nós duas seríamos mais próximas se as circunstâncias tivessem sido diferentes. Às vezes, me deixo imaginar ligando e convidando-a para um café, quando Susan estivesse entre um trabalho e outro, ou então sentadas, batendo papo na mesa da cozinha enquanto você trabalha no computador em seu escritório no sótão. Talvez nós três pudéssemos sair um pouco mais tarde para comer alguma coisa de almoço.

E assim, liguei para Susan. “Olá, estranha”, ela atendeu, e eu a imaginei encarando seu olhar atarantado e gesticulando com os lábios a palavra “Sally”, antes de se recostar nos travesseiros, sem ver que sua boca congelou emforma de “O” ou que seus dedos tremeram ao apertarem as laterais do Times. Eu nem sabia o que planejava dizer até ouvir a voz dela. Ela tem um sotaque sofisticado e sério, não tem?, do tipo que combina com seu porte alto e atlético e que imagino ser próprio de uma professora de educação física. (Não que eu tenha muita experiência no assunto.) “Respire fundo e corra duas voltas ao redor do pátio e logo, logo você estará nova em folha”, é o tipo de coisa que uma voz dessas diria. Susan na certa não tem muito tempo para diariar. “Vá passear e compre uma roupa bonita ou vá para Marrakesh no fim de semana”, é o que ela provavelmente diria. “Muito melhor do que ficar sentada num quarto escuro, chafurdando no próprio sofrimento.” Eu me lembro de uma vez, há muito tempo, quando ainda nos conhecíamos havia pouco, estávamos todos juntos em algum lugar, e Susan discursava para mim e uma das outras mulheres que estavam com a gente sobre pensão e como ela já reclamava para si uma boa parte do seu patrimônio, independentemente do que acontecesse. “É preciso se prevenir, sabe”, disse ela. “Se Clive e eu nos divorciarmos, vou fazer a limpa nele.” Você riu conosco, embora eu tenha reparado que já tinha ouvido aquele discurso centenas de vezes. Será que a possibilidade de passar por um limpa passou pela sua cabeça quando você me ouviu no telefone ontem à noite e viu Susan gesticular sem som os movimentos que formam a palavra Saaaally? Espero que eu não tenha causado muita ansiedade. Preocupação é uma emoção tão fútil, Helen sempre diz.

Não me preocupo em dizer a ela que futilidade é uma das minhas especialidades. Como foi, imagino, reclinar-se naquela cama enorme, ouvindo sua esposa conversar com sua amante? Opa, digo, ex-amante. Imagino que não tenha sido muito confortável, embora eu esteja certa de que tenha levado tudo com sua indiferença costumeira. Imagino que tenha ficado se perguntando sobre o que eu estava falando toda vez que havia um silêncio (o que, vamos combinar, não é tão frequente quando se está conversando com Susan, embora eu tenha feito meu melhor para dar conta). Imagino que seu coração estivesse palpitando bem dolorosamente, apesar de todos os avisos do seu médico para controlar o estresse. (Foi uma das razões que você me deu para terminar comigo, lembra? Que o estresse da sua vida dupla estava sendo muito pesado para o coração. Chegou até a arregaçar a manga para me mostrar o eczema no antebraço. “Preciso começar a pensar em mim”, falou-me, sem qualquer ironia.) Preciso admitir, Susan foi muito gentil ao telefone, muito articulada, como se eu a tivesse pegado num momento de tédio e ela estivesse feliz pela interrupção. Ela queria saber tudo sobre como eu estava. “Faz tanto tempo que não vemos você e o Daniel”, disse com gentileza. “Vocês precisam vir para a ceia um dia desses.” Posso até ver a sua cara. Pagaria para ver a sua cara, de verdade. “Seria ótimo”, respondi, com sinceridade.

“Mas enquanto isso, porque não saímos juntas, só nós duas, para uma noite só de meninas?” “Boa ideia. Homens são tão chatos, não é? Não sei sobre o Daniel, mas o Clive é um velho rabugento.” Eu ri. “Pelo menos assim a gente vai poder conversar direito”, disse ela. Meia hora mais tarde, seu e-mail chegou. Veio com aquela mensagem no final, “enviado do meu iPhone”, e fiquei imaginando você escondido no banheiro da suíte, abrindo a torneira para encobrir o barulho das teclas. Você pareceu de péssimo humor naquele e-mail (que, aliás, foi a mensagem mais recheada de erros de digitação que já vi, considerando-se que era tão curta — iPhones não têm corretor ortográfico?). Entendo, é claro, por que aquela conversa com Susan poderia tê-lo deixado chateado. Acredite em mim, não sou tão insensível quanto você pensa. Mas ainda acho que “puta” foi uma palavra pesada demais. Citalopram. É o nome das pílulas da felicidade que a médica me passou. Fico querendo chamar de Cilitbang, igual àquele desinfetante. Declare guerra às manchas mais difíceis. Helen Bunion iria adorar isso.

Todo o simbolismo oculto. Será que um dia você vai virar só uma mancha difícil de limpar, Clive? Saaaally, sua bobinha. Quando fui à médica pela primeira vez, fiquei encurvada na cadeira de plástico ao lado da mesa dela, me sentindo como algo enrugado e grosseiro que foi encontrado no fundo de um lodaçal. Ela tinha uns 20 e poucos anos, era médica substituta do centro de saúde em que estou registrada há anos, mas que raramente uso. Tinha cabelos louros longos e ondulados e usava uma camisa de corte perfeito e botas de camurça bege até o joelho, tão macias que você teria vontade de se esticar e desenhar um jogo da velha com os dedos nela. Ela me olhou animada com os olhos impecavelmente maquiados (embora de forma discreta) e disse: “E o que posso fazer por você?” Foi então que comecei a chorar, na certa, por causa da ideia de que alguém talvez fosse capaz de fazer alguma coisa por mim ou que ao menos estivesse disposto a tentar. Ela fez um gesto engraçado com a boca enquanto eu chorava, apertando os lábios com força e piscando os olhos, me encarando fixamente, seus dedos ainda pousados em expectativa sobre o teclado do computador, prontos para preencher o quadradinho que dizia “problema apresentado”. Enquanto esperava que eu parasse de chorar, a médica fez o mesmo que Helen, tombando a cabeça de lado um pouquinho, mantendo os lábios apertados. Será que é um trejeito que todos os funcionários de saúde aprendem na disciplina de simpatia? Será que a sua psicóloga do plano de saúde também fazia isso? Imagino que o pessoal da Harley Street frequente uma turma de simpatia mais avançada, não é? Talvez esse tombar de cabeça seja exclusivo do serviço público. “Pobrezinha”, disse ela. Enquanto eu chorava, e a jovem médica tombava a cabeça e apertava os lábios, de uma hora para outra me vi como ela devia estar me vendo: mais uma mulher de meia-idade, usando uma capa de chuva marrom (tudo bem, estritamente falando, é uma parca), soluçando num consultório médico numdia de semana à tarde, e isso me fez chorar ainda mais, soluços enormes que saíam de mim como vômito. (Posso até vê-lo franzindo a cara para essa comparação. “Você não precisa recorrer a tentativas de chocar o leitor”, você me repreenderia. “A história em si deveria ser suficiente.” Você era um daqueles jornalistas de TV com pretensões de escritor: “Vou escrever um livro quando tiver tempo”, diria, como se fosse o mesmo que tirar o ar de um aquecedor que não está funcionando.

) Depois de me acalmar um pouco e usar cinco lenços de papel da caixa quadrada em tom pastel que ela mantinha na prateleira sobre o computador, a médica me perguntou por que eu estava tão triste. E então me vi num dilema. Queria dizer a verdade, porque realmente queria a ajuda que ela estava oferecendo tão gentilmente, mas, ainda assim, aquele era o centro médico da minha família. Não queria ter que levar meus filhos numa futura consulta, para uma atualização da receita de asma ou devido a uma erupção cutânea de causa desconhecida, e ver a mesma médica sentada na minha frente, cruzando o olhar com o meu com um rápido movimento conspirativo de lábios. Não queria que ela olhasse para os meus filhos com pena enquanto examinava a língua ou iluminava o ouvido deles, sabendo que a mãe é uma vagabunda. Consegue entender meu dilema agora? Então, entre uma fungada e outra, falei que minha vida estava uma confusão, que meu relacionamento era um desastre, minhas economias estavam arruinadas, minha carreira era uma piada. Falei todas as verdades: exceto a principal. Não falei de você. Para ser sincera, não acho que ela estivesse interessada em saber toda a verdade e nada mais do que a verdade. Estava muito mais preocupada com o formulário que eu tinha que preencher e que listava diferentes situações para as quais eu tinha que indicar a frequência com que aconteciam comigo. Ela pareceu muito triste quando me fez a pergunta sobre a sensação de preferir estar morta, e eu escolhi a opção 3: “boa parte do tempo”. Ainda bem que eu não fiquei com a minha primeira escolha, a opção 4: “todo ou quase todo o tempo”, que estava bem mais perto da verdade. Quem não acharia que estaria muito melhor morto, se pudesse escolher?

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