A Vinganca Dos Sete – Pittacus Lore

O PESADELO ACABOU. QUANDO ABRO MEUS OLHOS, NÃO HÁ NADA ALÉM DA escuridão Estou em uma cama, é o que posso dizer por enquanto, e ela não é a minha. O colchão é enorme, de algum jeito moldado perfeitamente para caber meu corpo, e por um momento eu me pergunto se meus amigos me mudaram para uma das camas gigantes do apartamento de Nove. Estico minhas pernas e braços até onde consigo, e mesmo assim não consigo alcançar as bordas. O lençol que está sobre mim é mais escorregadio do que macio, quase como se fosse de plástico, e está muito quente. Não apenas morno, eu percebo, mas também há uma vibração constante que massageia meus músculos doloridos. Por quanto tempo eu dormi, e onde será que estou? Tento me lembrar do que aconteceu comigo, mas tudo em que posso pensar é na minha última visão. Senti como se estivesse naquele pesadelo por dias. E ainda posso sentir o fedor de borracha queimada de Washington D.C. Nuvens de poluição pairavam sobre a cidade, uma lembrança da batalha que ocorreu lá. Ou da batalha que ainda ocorrerá, se minha visão se tornar realidade. As visões. Elas são partes de algum Legado novo? Nenhum dos outros têm legados que os deixam assustados pela manhã. Elas são profecias? Ameaças enviadas por Setrákus Ra, como os sonhos que John e Oito costumavam ter? São avisos? O que quer que sejam, eu gostaria que elas parassem de acontecer.


Respiro fundo algumas vezes para limpar o cheiro de Washington das minhas narinas, embora eu saiba que tudo isso esteja em minha cabeça. Mas pior do que sentir o cheiro é o fato que eu posso me lembrar de cada pequeno detalhe, desde o olhar aterrorizado de John quando ele me viu no palanque junto com Setrákus Ra, condenando Seis à morte. Ele estava preso na visão também, como eu. Eu estava impotente lá em cima, entre Setrákus Ra, que se denominou governante da Terra, e… Cinco. Ele está trabalhando para os mogadorianos! Tenho que alertar os outros. Eu me sento e minha cabeça gira – rápido demais – e partículas alaranjadas flutuam através dos meus olhos. Eu as pisco para longe, meus olhos parecendo pegajosos, minha boca seca e a garganta inflamada. Esse definitivamente não é o apartamento de Nove. Meus movimentos devem ativar algum sensor próximo, porque as luzes do quarto lentamente se tornam mais fortes. Elas vêm gradualmente, e então o quarto fica banhado com um brilho vermelho pálido. Olho em volta para encontrar a fonte da luz e descubro que elas vêm de veias pulsantes dentro das paredes. Um arrepio passa por mim por quão funcional a sala parece, quão severa, semdecoração alguma. O calor do lençol aumenta, quase como se quisesse que eu voltasse para baixo dele. Eu o afasto. Esse lugar pertence aos mogadorianos.

Rastejo através da cama para mamutes – é maior do que um SUV, suficiente para que um mogadoriano de cinco metros possa relaxar tranquilamente – até meu pé descalço pisar no chão de metal. Estou usando um vestido longo e cinza, bordado com videiras pretas espinhosas. Tenho um arrepio, pensando neles colocando isso em mim e me deixando aqui para descansar. Eles poderiam ter me matado, mas ao invés disso me vestiram um pijama? Na minha visão, eu estava sentada ao lado de Setrákus Ra. Ele me chamou de sua herdeira. O que isso quer dizer? É por isso que ainda estou viva? Isso não importa. O fato é simples: fui capturada. Eu sei disso. Agora, o que vou fazer? Imagino que os mogadorianos devam ter me levado para uma de suas bases. Com exceção de que esse quarto não se parece com as horríveis celas minúsculas que Nove e Seis descreveram de quando eles foram capturados. Não, esta deve ser uma ideia dos mogadorianos de hospitalidade. Eles estão cuidando de mim. Setrákus Ra queria que me tratassem mais como uma hóspede do que como uma prisioneira. Porque, um dia, ele me quer liderando ao seu lado. Por que motivo, eu ainda não entendo, mas agora é a única coisa que me mantém viva.

Ah não. Se eu estou aqui, o que aconteceu com os outros em Chicago? Minhas mãos começam a tremer e eu afasto as lembranças de Washington, afasto a preocupação com os meus amigos, afasto tudo. Preciso ser uma lousa em branco, como fui quando lutamos pela primeira vez com Setrákus Ra no Novo México, como eu era nas sessões de treinamento com os outros. É mais fácil ser corajosa quando não penso nisso. Se eu agir somente por instinto, consigo fazer isso. Corra, imagino Crayton dizendo. Corra até eles se cansarem de te caçar. Eu preciso de alguma coisa pra lutar com eles. Busco ao redor por algo que eu possa usar como arma. Perto da cama há um criado-mudo de metal, o único móvel da sala. Os mogs deixaramum copo com água para eu beber, mas não boba o bastante para tomar, mesmo estando morta de sede. Perto do copo, há um livro grosso como um dicionário, a capa feita de pele de cobra encerada. A tinta na capa parece chamuscada, as palavras afundadas na superfície, como se fossem impressas com tinta feita de ácido. O título diz O Grande Livro do Progresso Mogadoriano, surpreendentemente escrito eminglês. Embaixo dele há várias formas angulares e pequenas marcas que assumo ser o título emmogadoriano.

Então eu pego o livro e o abro. Cada pagina está divida ao meio, com uma coluna escrita em inglês e outra em mogadoriano. Eu me pergunto se era pra eu ler isto. Fecho o livro. A coisa mais importante é que ele é pesado e eu posso segurá-lo. Não transformarei mogs em cinzas com isso, mas é melhor do que nada. Eu me levanto da cama e ando até o que me parece ser a porta. É um painel retangular cortado na parede, mas não há fechaduras ou botões. Vou na ponta dos pés até ela, me perguntando como vou abri-la, e então há um chiado mecânico saindo de dentro da parede. Deve ser mais um sensor de movimentos como o das luzes, porque a porta se abre pra cima assim que eu me aproximo, desaparecendo no teto. Eu não paro para me perguntar por que estou viva. Segurando o livro mogadoriano, entro em um corredor que é tão frio e metálico quanto o quarto que eu estava. — Ah — uma voz feminina diz. — Você acordou. Ao invés de guardas, uma mulher mogadoriana está sentada num banco ao lado da porta do meu quarto, obviamente esperando por mim.

Eu não tenho certeza se já vira uma mulher mogadoriana antes, mas ela parece surpreendentemente não ameaçadora em um vestido longo que vai até o chão, como um dos vestidos que as irmãs vestiriam lá em Santa Teresa. Sua cabeça é raspada, exceto por duas longas tranças pretas na parte de trás do crânio, e o resto do seu couro cabeludo é coberto por uma tatuagem elaborada. Ao invés de ser nojenta e ameaçadora, como os mogs que vi antes, esta parece quase elegante. Eu paro na frente dela, incerta do que fazer. A mog lança um olhar para o livro em minhas mãos e sorri. — E já esta pronta pra começar seus estudos, vejo — ela diz, se levantando. Ela é alta, delgada e lembra vagamente uma cobra. De pé na minha frente, ela faz uma reverência exagerada. —Senhorita Ella, eu devo ser sua instrutora enquanto… Assim que ela cabeça se abaixa o suficiente, eu bato com o livro no rosto dela o mais forte que posso. Ela não percebe meu movimento, o que acho estranho porque todos os mogs que encontrei estavam prontos para lutar. Esta aqui solta um gemido e cai no chão, e o tecido do seu vestido faz um som, como se tivesse rasgado. Eu não paro para ver se a nocauteei ou se ela está puxando uma espada de algumcompartimento escondido naquele vestido. Eu fujo, escolhendo uma direção aleatória e corro o mais rápido que posso. O chão de metal machuca meu pé descalço e meus músculos começam a doer, mas eu ignoro tudo isso. Tenho que sair daqui.

É muito ruim que essas bases mogadorianas não tenham nenhuma sinalização de saída. Faço uma curva, e depois por outra, passando por corredores que são muito parecidos. Continuo esperando que sirenes comecem a tocar para avisar que escapei, mas o som nunca começa. Não há som de passos pesados de mogadorianos atrás de mim, também. Só quando estou ficando sem fôlego e penso em diminuir o ritmo, uma porta se abre a minha direita, e dois mogadorianos saem dela. Eles se parecem mais com os que eu estou acostumada – corpulentos, vestidos com suas capas pretas, olhos redondos focados em mim. Eu me atiro por entre eles, embora nenhum dos dois faça alguma tentativa de me agarrar. De fato, acho que ouvi um deles gargalhar. O que está acontecendo aqui? Posso sentir os dois soldados mogs me vendo fugir, então eu me atiro no primeiro corredor que encontro. Eu não tenho certeza se estou andando em círculos ou coisa assim. Não há luz do sol ou qualquer tipo de barulho, nada para indicar que eu possa estar chegando perto de uma saída. Parece que os mogs não se importam com nada do que eu tente, como se soubessem que não tem jeito de eu escapar daqui. Eu paro para recuperar o fôlego, cautelosamente avançando para baixo nesse último corredor estéril. Ainda estou segurando o livro – minha única arma – e já estou começando a ficar com cãibra. Eu balanço minha mão para ela ir embora.

Acima, um arco enorme se abre com um chiado eletrônico; é diferente das outras portas, maior, e há pequenas luzes piscantes muito estranhas do outro lado. Não são luzes piscantes. São estrelas. Enquanto passo pelo arco para entrar na sala, o teto de metal muda para uma abóbada de vidro, a sala é bem grande, quase como um planetário. Com exceção de que é real. Há vários consoles de computadores presos ao chão – talvez seja algum tipo de sala de controle – mas eu os ignoro, atraída pela visão confusa que se vê através do vidro. Escuridão. Estrelas. A Terra. Agora eu entendo porque os mogadorianos não estavam me caçando. Eles sabem que não há como eu fugir daqui. Eu estou no espaço. Eu me aproximo do vidro, pressionando minhas mãos contra ele. Posso sentir o vazio do lado de fora, o infinito, o gelo, o espaço sem ar entre mim e aquela orbe azul que flutua ao longe. — Glorioso, não acha? Sua voz potente é despejada como um balde de água fria sobre mim.

Eu me viro e me pressiono contra o vidro, sentindo que o veneno atrás de mim é mais preferível a encará-lo. Setrákus Ra está atrás de um dos consoles de controle, me observando, um sorriso no rosto. A primeira coisa que percebo é que ele não é tão grande como era na vez em que lutamos contra ele na base de Dulce. Ainda assim, Setrákus Ra é alto e ameaçador, seu largo corpo vestido com um uniforme preto, cravejado e decorado com uma variedade de medalhas mogadorianas. Três pingentes lóricos, os que ele roubou dos Gardes mortos, estão pendurados em volta de seu pescoço, brilhando. — Vejo que você já pegou meu livro — ele diz, gesticulando para o objeto em minhas mãos. Eu não havia percebido que ainda o segurava. — Embora não da maneira que eu gostaria que segurasse. Felizmente, sua instrutora não teve ferimentos graves… De repente, em minhas mãos, o livro começa a brilhar em vermelho, como os detritos que peguei em Dulce. Não sei exatamente como estou fazendo isso, ou o que estou fazendo. — Ah — Setrákus Ra diz, me observando e erguendo as sobrancelhas. — Muito bom. — Vá para o inferno! — eu grito, arremessando o livro brilhante contra ele. Antes mesmo de o livro percorrer metade da distância até ele, Setrákus Ra levanta uma de suas mãos enormes e o livro para no meio do caminho. Eu observo enquanto o brilho que eu criei desaparece.

— Agora — ele se queixa. — Chega disso. — O que você quer de mim? — eu berro, lágrimas de frustração saindo dos meus olhos. — Você já sabe por que — ele responde. — Eu te mostrei o que vai acontecer. Assim como mostrei uma vez para Pittacus Lore. Setrákus Ra aperta alguns botões no painel de controle, e a nave começa a se mover. Gradualmente, a Terra, parecendo ao mesmo tempo, longe e perto, como se eu pudesse agarrá-la com minhas mãos, começa a se mover diante meus olhos. Não estamos indo em direção a ela, estamos indo na direção oposta. — Você está abordo da Anubis — Setrákus Ra diz, com um tom de orgulho em sua voz grave. — A nave capitã da frota mogadoriana. Quando a nave completa sua manobra, eu suspiro. Pressiono minhas mãos contra o vidro para me apoiar, meus joelhos estão fracos. Do lado de fora, em órbita ao redor da Terra, está a tropa mogadoriana. Centenas de naves – muitas delas longas e prateadas, do tamanho de aviões, como a Garde as descrevera das batalhas anteriores.

Mas junto a elas, há pelo menos vinte naves enormes, que fazem com as outras pareçamanãs – com iminentes canhões ameaçadores, projetando suas armas em vários ângulos, tendo como objetivo o planeta abaixo. — Não — eu sussurro. — Isso não pode estar acontecendo. Setrákus Ra anda em minha direção, e eu estou muito chocada com a visão que mal consigo me mexer. Gentilmente, ele coloca a mão em meus ombros. Eu posso sentir o frio dos seus dedos pálidos. — A hora finalmente chegou — ele diz, observando a frota comigo. — A Grande Expansão enfim chegou à Terra. Vamos celebrar o progresso mogadoriano juntos, minha neta. Capítulo dois DA JANELA QUEBRADA DO SEGUNDO ANDAR DE UMA FÁBRICA TÊXTIL ABANDONADA, eu observo um homem velho de casaco esfarrapado e jeans sujo se abaixar na porta entreaberta de um edifício do outro lado da rua. Depois de ter sentado, o homem tira uma garrafa marrom do seu casaco e começa a beber. Está no meio da tarde – estou vigiando – e ele é a única alma viva que vi nessa parte abandonada de Baltimore desde que chegamos aqui ontem. É umlugar deserto, quieto e ainda assim é mais preferível à versão de Washington D.C. que vi na visão de Ella.

Até agora, pelo menos, parece que os mogadorianos não nos seguiram desde Chicago. Embora, tecnicamente, eles não precisariam. Já há um mogadoriano entre nós. Atrás de mim, Sarah bate o pé no chão. Estamos na sala que costumava ser o escritório do chefe, há pó em todo canto, o assoalho inchado e com mofo. Eu me viro a tempo de vê-la franzindo as sobrancelhas para o que sobrou de uma barata embaixo do sapato dela. — Cuidado. Você vai acabar caindo no andar debaixo através do assoalho — eu digo a ela, fazendo piada. — Acho que seria demais querer que todas as bases de vocês fossem em apartamentos de luxo, né? — Sarah pergunta, me encarando com um olhar de provocação. Nós dormimos nesta fábrica abandonada ontem à noite, nossos sacos de dormir estendidos no assoalho afundado. Ambos estão sujos, já faz uns dois dias desde que tomamos um banho de verdade, e o cabelo louro de Sarah está endurecido por conta da sujeira. Ela ainda é linda para mim. Sem ela a meu lado, eu teria ficado totalmente perdido depois do ataque em Chicago, onde os mogs sequestraram Ella e destruíram o apartamento. Faço uma careta enquanto penso, e o sorriso de Sarah imediatamente desaparece. Eu saio de perto da janela e ando até ela.

— Não saber de nada está me matando — eu digo, movendo a cabeça. — Eu não sei o que fazer. Sarah toca meu rosto, tentando me consolar. — Pelo menos sabemos que eles não vão machucar Ella. Não se o que você viu na visão for verdade. — Eu sei — digo, suspirando. — Eles vão fazer uma lavagem cerebral nela e transformá-la em uma traidora, como… Eu paro, pensando no restante dos nossos amigos desaparecidos e no traidor que viajou comeles. Ainda não sabemos nada de Seis e dos outros, não que haja uma maneira fácil de eles se comunicarem conosco. Todas as Arcas estão aqui e, presumindo que eles poderiam tentar nos achar pelos métodos tradicionais, eles não teriam nenhuma pista para tentar nos encontrar, já que tivemos que fugir de Chicago. A única coisa que tenho certeza é que eu tenho uma cicatriz fresca na minha perna, a quarta delas. Não dói mais, mas parece um peso que tenho que carregar. Se a Garde tivesse se mantido separada, se nós tivéssemos mantido o feitiço intacto, essa quarta cicatriz significaria a minha morte. Ao invés disso, um dos meus amigos foi morto na Flórida, e eu não sei como, ou quem, ou o que aconteceu com o restante deles. Sinto em minhas entranhas que Cinco ainda está vivo. Eu o vi na visão de Ella, ao lado de Setrákus Ra, um traidor.

Ele deve ter levado os outros para uma armadilha, e agora um deles não vai voltar. Seis, Marina, Oito, Nove – um deles se foi. Sarah entrelaça seus dedos com os meus, massageando-os, tentando aliviar um pouco a tensão. — Eu não consigo parar de pensar nas coisas que eu presenciei na visão… — eu começo —Nós perdemos, Sarah. E agora me parece que está acontecendo de verdade. Como se esse fosse o começo do fim. — Aquilo não significa nada e você sabe disso — Sarah responde. — Olhe para Oito. Não havia um tipo de profecia de morte sobre ele? E ele sobreviveu. Eu franzo as sobrancelhas, não percebendo o óbvio, de que Oito pode ter sido o que morreu na Flórida. — Eu sei que parece — Sarah continua — e, quero dizer, a situação está ruim John. Obviamente. — Motivador. Ela aperta minha mão, bem forte, e olha para mim com um olhar que diz cale a boca. — Mas aqueles que foram para a Flórida são Gardes — ela diz.

— Eles vão lutar, e vão continuar lutando e vão vencer. Você tem que acreditar, John. Quando você estava em estado de coma em Chicago, nós nunca desistimos de você. Continuamos a lutar, e valeu a pena. Quando pareceu que tínhamos perdido, você nos salvou. Penso no estado em que meus amigos estavam quando eu finalmente acordei do coma emChicago. Malcolm estava ferido, beirando a morte, Sarah fora bem machucada, Sam estava quase sem munição e Bernie Kosar desaparecido. Eles fizeram de tudo por mim. — Vocês me salvaram primeiro — respondo. — Sim, obviamente. Então retorne o favor e salve nosso planeta. A maneira como ela fala, como se não fosse nada, me faz sorrir. Eu abraço Sarah e depois a beijo. — Eu amo você, Sarah Hart. — Eu te amo também, John Smith.

— Hum, eu amo vocês, também… Sarah e eu nos viramos para ver Sam parado no vão da porta, com um sorriso estranho no rosto. Enrolado em seus braços há um gato laranja enorme, um dos seis Chimæras que nosso novo amigo mogadoriano trouxe com ele, que foram chamados até nós pelos uivos de Bernie Kosar no telhado. Aparentemente, a vareta que Bernie Kosar pegou da Arca de Oito era algum tipo de totem de Chimæras, usado para guiá-los até nós, como um apito canino lórico. Ficamos bem atentos na estrada no nosso caminho até Baltimore, para termos certeza de que não estávamos sendo seguidos. A viagem na van lotada nos deu muito tempo para escolhermos os nomes dos nossos novos aliados. Esse Chimæra em particular preferiu a forma de um gato corpulento, e Sam insistiu para que o chamássemos de Stanley, em honra ao velho nome de Nove. Se ele ainda estiver vivo, tenho certeza de que Nove não vai se sentir ameaçado por ter um gato gordo com uma afeição óbvia por Samnomeado em sua homenagem. — Desculpe — diz Sam — eu interrompi o momento? — Na verdade não — Sarah diz, esticando um dos braços para Sam — abraço em grupo? — Talvez mais tarde — Sam diz, olhando para mim. — Os outros chegaram e estão arrumando as coisas lá em baixo. Eu assinto, relutantemente deixando Sarah e andando até a mochila que contém nossos suprimentos. — Eles tiveram algum problema? Sam diz que não com a cabeça.16 — Eles tiveram que se contentar com apenas dois geradores, não havia dinheiro para comprar coisa melhor. De qualquer maneira deve haver o suficiente. — E sobre a vigilância? — eu pergunto, tirando o tablet branco localizador e seu cabo da mochila. — Adam disse que não viu mogs mensageiros — Sam responde.

— Bem, ele saberia como encontrá-los melhor do que ninguém — Sarah acrescenta. — Verdade — eu digo desconfiado, ainda não acreditando nesse mogadoriano bonzinho, mesmo com tudo o que ele tem feito desde que chegou a Chicago para nos ajudar. Mesmo agora, com ele e Malcolm instalando nossos novos aparelhos eletrônicos no primeiro andar da fábrica, eu tenho uma sensação de mal-estar por ter um deles tão perto. Tento esquecer isso. — Vamos. Nós seguimos Sam por uma escada em espiral enferrujada, que leva para o primeiro andar da fábrica. O lugar deve ter sido fechado às pressas, porque ainda há prateleiras mofadas com roupas masculinas dos anos oitenta penduradas nas paredes e caixas repletas de capas de chuva abandonadas. Um Chimæra em forma de um retriever que Sarah insistiu para que chamássemos de Biscuit está em nosso caminho, seus dentes cerrados em uma manga de terno rasgada, em meio a uma briga comAreal, o husky de pelo cinzento. Outro Chimæra, Gamera, o qual Malcolm nomeou depois de um filme antigo de monstros, rola atrás dos outros, mas com dificuldade de se manter na sua forma de tartaruga. Os outros dois Chimæras – um falcão que nomeamos de Regal e um guaxinim que chamamos de Bandit – assistem a briga de cima das capas de chuva. É um alívio vê-los brincando. Os Chimæras não estavam na melhor forma quando Adam os libertou dos experimentos mogadorianos, e eles ainda não estavam muito bem quando Adam os levou para Chicago. Demorou, mas eu consegui curá-los com meu Legado de cura. Havia alguma coisa dentro delas, alguma coisa mogadoriana, que na verdade estava lutando contra meus poderes. Até fez meu Lúmen brilhar intensamente, algo que nunca aconteceu antes enquanto usava meu Legado de cura.

Finalmente, o que quer que os mogs tenham feito, foi lavado pelo meu Legado. Eu nunca havia usado meu Legado de cura em um Chimæra antes daquela noite. Por sorte, funcionou, porque havia um Chimæra em estado mais grave do que todos os nossos novos amigos. — Você viu BK? — eu pergunto a Sam, procurando por ele na sala. Eu o encontrei no telhado do John Hancock Center, perfurado por uma espada mogadoriana e à beira da morte. Usei meu Legado de cura nele, rezando para que funcionasse. Mesmo que ele esteja melhor agora, eu ainda tenho mantido um olhar extra nele, provavelmente porque o destino de muitos dos meus outros amigos é desconhecido. — Ali — Sam me responde, apontando. Em um canto no fim da sala adjacente, contra uma parede coberta com grafite, está um trio de máquinas de lavar roupa industriais, transbordando em pilhas de calças cáqui. E é no topo de uma dessas pilhas que Bernie Kosar descansa, as brincadeiras de Biscuit e Areal parecem tê-lo cansado. Apesar dos meus esforços, ele ainda está fraco da luta de Chicago – está sem parte de uma de suas orelhas – mas com minha telepatia animal, posso sentir uma espécie de contentamento que emana dele enquanto ele observa os outros Chimæras. Quando BK nos vê entrar, seu rabo batendo levanta uma nuvem de poeira da pilha de roupas. Sam coloca Stanley no chão, e o gato vai até a pilha de roupas com BK, se acomodando no que eu acho que designaria como uma zona de cochilo para Chimæras. — Nunca pensei que eu teria meu próprio Chimæra — Sam diz — muito menos meia dúzia deles. — E eu nunca pensei que estaria lutando junto com um deles — respondo, meu olhar parando em Adam.

No centro do primeiro andar da fábrica, bancadas siderúrgicas estão aparafusadas no chão. O pai do Sam, Malcolm, e Adam, estão instalando os computadores que eles acabaram de comprar, em troca de algumas das minhas pedras Lóricas. Porque não há eletricidade nessa fábrica, eles tiveramque comprar alguns pequenos geradores à bateria para o trio de notebooks e do roteador móvel. Observo Adam ligando uma das baterias – sua pele pálida, seu cabelo preto liso e suas expressões que fazem com que ele pareça mais humano do que os mogadorianos comuns – me fazendo lembrar de que está do nosso lado. Sam e Malcolm parecem acreditar nele, e além disso, ele tem um Legado, o poder de criar terremotos, o qual herdou da Um. Se eu não o tivesse visto usar o Legado com meus próprios olhos, não tenho certeza se diria que fosse possível. Parte de mim quer acreditar, talvez até precise acreditar, que um Mog não seria capaz de roubar um Legado, de que ele vale a pena, de que tudo isso aconteceu por algum motivo. — Olhe isso — Sam diz, abaixando o tom de voz enquanto andamos em direção aos outros. — Humanos, lorienos, mogadorianos… nós temos, tipo, a primeira reunião da Nação Unida Intergaláctica bem aqui. É histórico. Eu assinto e vou até o notebook que Adam acabou de ligar. Ele olha para mim e deve ter percebido alguma coisa – talvez eu não seja bom em esconder meus conflitos internos – porque ele olha para o chão e dá um passo para o lado, abrindo espaço para que eu possa me dirigir até o outro notebook. Ele mantém os olhos fixos na tela, digitando rapidamente. — Como está indo tudo? — pergunto. — Temos quase todos os equipamentos de que precisamos — Malcolm responde enquanto trabalha com um roteador sem fio.

Mesmo com sua barba começando a ficar despenteada, Malcolmparece mais saudável do que da primeira vez que eu o vi. — Algo aconteceu aqui? — Nada — eu digo, balançando a cabeça. — Seria um milagre se os Gardes na Flórida conseguissem nos rastrear. E Ella… eu continuo esperando que sua voz apareça em minha cabeça e vá me dizer para onde a levaram, mas ela não fez contato. — Pelo menos nós iremos saber onde os outros estão assim que ligarmos o tablet — Sarah diz. — Com os equipamentos que compramos, acho que posso invadir o sistema de telefonia do John Hancock Center — Malcolm sugere. — Assim, se eles tentarem ligar da rua, poderemos interceptar a chamada. — Ótima ideia — eu respondo, conectando o cabo branco do tablet no notebook e esperando que ele inicie. Malcolm puxa seus óculos até a ponta do nariz e pigarreia. — Foi ideia do Adam, na verdade. — Oh — eu respondo, mantendo meu tom de voz usual. — Essa é uma excelente ideia — Sarah interfere. Ela está de pé ao lado de Malcolm e começa a trabalhar no terceiro notebook, me lançando um olhar para que eu diga alguma coisa legal para Adam. Quando eu não digo, um silêncio estranho paira no ar no meio do grupo. Houve muito desses desde que saímos de Chicago.

Antes que fique mais estranho, o tablet liga. Sam espia pelo meu ombro. — Eles ainda estão na Flórida — ele diz. Há um ponto solitário mostrado no mapa do tablet, piscando na Costa Leste, e então há quilômetros de distância estão os pontos que representam os outros Gardes sobreviventes. Três dos pontos estão juntos, basicamente se juntando e formando um único ponto, enquanto o quarto está a uma curta distância. Imediatamente, coisas sobre este quarto ponto começam a aparecer em minha cabeça. Um dos nossos amigos foi capturado? Eles tiveram que se separar depois que foramatacados? Esse ponto separado é o que representa Cinco? Isso prova que ele é um traidor, como na minha visão? Estou distraído com estes pensamentos quando um quinto ponto começa a pulsar, literalmente acima do oceano, bem distante dos outros. Esse quinto flutua sobre o Oceano Pacífico, e este daqui não brilha como os outros, é meio obscuro. — Esse deve ser Ella — eu digo, franzindo a testa. — Mas como… Mas antes que eu consiga terminar minha pergunta, o ponto de Ella pisca e desaparece. Umsegundo depois, antes mesmo que eu consiga processar meu pânico, ele reaparece flutuando sobre a Austrália.

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