A Voz da Vinganca – Tigana – Vol 2 – Guy Gavriel Kay

Elena estava na porta da casa de Mattio, acompanhando com os olhos a estrada sombria até o fosso, a ponte levadiça erguida, observando as velas tremerem e depois se apagarem, uma a uma, nas janelas do Castelo de Barso. De tempos em tempos, alguém passava por ela para entrar na casa —dava apenas um aceno ou fazia uma saudação breve, quando se dignava a tanto. Uma noite de batalha se aproximava e todos os que chegavam sabiam disso. Do vilarejo atrás dela não vinha nenhum som; nenhuma luz. Todas as velas tinham sido apagadas fazia tempo, as fogueiras extintas, as janelas cobertas; até mesmo as frestas na base das portas tinhamsido tapadas com roupas e trapos. Os mortos andavam por aí na primeira Noite das Brasas, todos sabiam disso. Quase nenhum ruído vinha de dentro da casa, apesar de já terem chegado entre quinze e vinte pessoas, que se amontoaram na propriedade de Mattio, nos limites da aldeia. Elena não sabia quantos Andarilhos ainda se juntariam a eles ali ou no ponto de encontro, mais tarde. Só sabia que seriampoucos. Não estavam em número suficiente no último ano nem no ano anterior, e tinham perdido feio aquelas batalhas. As guerras das Noites das Brasas estavam matando os Andarilhos mais rápido do que os jovens, como Elena, chegavam à idade de substituí-los. Por isso, continuavam a perder a cada primavera; por isso, era quase certo que também perderiam naquela noite. Era uma noite estrelada, com apenas uma lua acima do horizonte — o pálido crescente de Vidomni que já minguava. Fazia frio ali, nas terras altas, no comecinho da primavera. Elena passou os braços ao redor de si, agarrando os cotovelos com as mãos.


Em apenas algumas horas, o céu teria mudado e ela sentiria uma sensação totalmente diferente à noite, quando a batalha começasse. Carenna entrou, dando um sorriso rápido e caloroso, mas sem se deter. Não era a hora de conversas. Elena estava preocupada com ela, que tinha dado à luz havia duas semanas. Era cedo demais para estar fazendo aquilo, mas precisavam dela, precisavam de todos, pois a Noite das Brasas não seria adiada por ninguém, homem ou mulher, nem por nada que acontecesse no mundo diurno. Ela acenou em resposta a um casal que não conhecia. Eles seguiram Carenna e passaram por ela para entrar na casa. Tinham poeira na roupa, provavelmente vinham de muito longe, do leste, programando-se para chegar ali depois do pôr do sol e do fechamento das portas e janelas, tanto na cidade quanto nas solitárias casas de fazenda, espalhadas pelos campos. Atrás daquelas portas e janelas, Elena sabia que o povo das terras altas do sul estaria esperando, rezando no escuro. Orando para que viesse a chuva e depois o sol, para que a terra fosse fértil na primavera e no verão, até a grande colheita do outono; para que as sementes de grãos e de milho germinassem quando semeadas, fincassem raízes e então se erguessem do rico solo escuro e úmido, amarelas e cheias de promessas maduras. Pedindo, mesmo que totalmente alheios em suas casas escuras ao que se passava do lado de fora, que os Andarilhos da Noite salvassem os campos, a estação, os grãos, para que salvassem e socorressem suas vidas. Elena ergueu a mão e tocou instintivamente o pequeno amuleto de couro que usava ao pescoço. O amuleto continha os restos enrugados do pelico em que nascera. Assim como todos os Andarilhos, ela havia saído do útero materno ainda envolta na bolsa amniótica, a membrana transparente que se desenvolve em torno do embrião durante a gestação. As parteiras no restante da Palma consideravam o pelico um símbolo de boa sorte.

Segundo diziam, crianças nascidas “empelicadas” estavam destinadas a uma vida abençoada pela Tríade. Mas ali, naquelas remotas fronteiras no sul da Península, naquelas selvagens terras altas ao pé das montanhas, a tradição e os ensinamentos eram outros. Ali, os antigos ritos iam mais fundo, mais longe, e eram passados de mão em mão, de boca em boca, desde suas origens, muito tempo atrás. Nas terras altas de Certando, a criança nascida empelicada não estava protegida de morrer no mar ou ingenuamente destinada a ter boa sorte. Era marcada para a guerra. Para aquela guerra, travada a cada ano na primeira Noite das Brasas, que anunciava o começo da primavera e do ano. Travada nos campos e pelos campos, pelas sementes ainda não germinadas que eram esperança e vida, a promessa de renovação da terra; por aqueles que estavam nas grandes cidades isolados das verdades da terra, aqueles que ignoravam aquelas coisas; por todos que viviamem Certando, encolhidos atrás de suas paredes, que sabiam apenas o bastante para rezar e ter medo dos sons na noite em que os mortos poderiam andar livremente por ali. Por trás de Elena, uma mão tocou seu ombro. Ela se virou para encontrar Mattio olhando-a, questionador. Ela balançou a cabeça, ajeitando o cabelo para trás. — Nada ainda — disse. Mattio não respondeu, mas o luar pálido deixava entrever seus olhos sombrios acima da barba negra e cheia. Ele apertou o ombro de Elena, um gesto automático para tentar tranquilizá-la, antes de se virar e entrar em casa. Ela ficou observando enquanto ele caminhava, pisando forte, sólido e capaz. Pela porta aberta, viu quando se sentou de novo à mesa comprida, diante de Donar.

Olhou para os dois por um tempo, pensando em Verzar, no amor e no desejo. Voltou-se para olhar de novo a noite e a imensa silhueta do castelo. Passara a vida toda na sombra daquela construção e, de repente, sentiu-se velha, muito mais do que realmente era. Tinha dois filhos pequenos, que, naquela noite, dormiam com os avós em uma daquelas cabanas fechadas em que nenhuma chama queimava. Também tinha um marido que dormia sob a terra — uma perda entre tantas na terrível batalha do ano anterior, quando o número de Outros parecia ter crescido como nunca antes, malévolos e cruelmente triunfantes. Verzar morreu poucos dias depois da derrota, assim como todas as vítimas das batalhas noturnas. Os que eram tocados pela morte nas guerras das Noites das Brasas não caíam nos campos. Eles reconheciam aquele toque frio e decisivo em suas almas — Verzar tinha dito que era como um dedo no coração — e voltavam para casa, para dormir, acordar e caminhar por um dia, uma semana ou um mês antes de se renderem ao fim que os tinha alcançado. Ao norte, nas cidades, falava-se do último portal de Morian, da graça por que tanto ansiavam emseus Salões sombrios, das intervenções sacerdotais invocadas com velas e lágrimas. Aqueles nascidos empelicados nas terras altas do sul, que lutavam nas guerras das Brasas e viamas silhuetas dos Outros que iam lutar ali, não falavam disso. Não que fossem tolos o bastante para negar a existência de Morian dos Portais, de Eanna ou de Adaon — apenas sabiam que existiam poderes mais antigos e sombrios que a Tríade, poderes que ultrapassavam a Península. Donar falara, certa vez, em poderes que iam além do próprio mundo, comsuas duas luas e seu sol. Uma vez por ano, os Andarilhos da Noite de Certando viam — ou eram forçados a ver — uma parte dessas verdades, sob um céu que não era o deles. Elena sentiu um calafrio. Sabia que mais Andarilhos seriam convocados pela morte naquela noite, o que os deixaria em ainda menor número para o ano seguinte e para o que viria depois.

Onde aquilo iria acabar, ela não sabia. Não fora educada naqueles assuntos. Tinha 22 anos, era mãe, viúva e filha de um carpinteiro das terras altas. Também fora uma criança nascida com o pelico dos Andarilhos da Noite em uma época em que eles perdiam todas as batalhas, ano após ano. Também era conhecida por ter a melhor visão noturna entre eles, e, por isso, Mattio a tinha colocado na porta, vigiando a estrada em busca daquele que Donar dissera que viria. Fora uma estação de seca; o fosso, como ele esperava, estava raso. Houve uma época, muito tempo antes, em que os senhores do Castelo de Barso tinham prazer em deixar o fosso repleto de criaturas assassinas. Baerd não esperava encontrá-las, não agora, depois de tanto tempo. Ele atravessou, com água até os quadris, sob as estrelas e a luz fraca de Vidomni no céu. Estava frio, mas muitos anos já tinham passado desde que se sentira realmente incomodado pelo clima. Tampouco se perturbava por estar ao ar livre em uma Noite das Brasas. Na verdade, com o passar dos anos, aquilo tinha se tornado um ritual: saber que ao redor da Palma as pessoas observavam e marcavam os dias santos, esperando na escuridão silenciosa atrás de suas paredes, oferecia-lhe o profundo sentimento de solidão de que sua alma precisava. Ele era intensamente atraído pela sensação de andar por um mundo que mal respirava, agachado sob as estrelas na escuridão primordial, sem que nenhum fogo mortal respondesse ao céu, somente as chamas que porventura a Tríade criasse para si com os relâmpagos caídos do céu. Se havia fantasmas e espíritos acordados naquela noite, ele queria vê-los. Se os mortos de seu passado estivessem caminhando ali, queria implorar seu perdão.

Sua própria dor nascia de imagens que não o deixavam em paz. Imagens de serenidade desaparecida, de mármore pálido debaixo de um luar como aquele, de pórticos graciosos formados por harmonias que custariam a vida do estudioso que quisesse entendê-las; de vozes baixas, quase compreendidas por uma criança sonolenta no quarto ao lado e da gargalhada certa e confiante que se seguia; da luz do sol no quintal tão familiar e da mão firme e forte de um escultor em seu ombro. A mão de seu pai. E então fogo e sangue e cinzas ao vento, deixando o sol do meio-dia vermelho. Fumaça e morte, mármore marretado até se tornar apenas destroços, a cabeça do deus voando, batendo como uma pedra na terra queimada e sendo moída sem remorsos, até se tornar um pó fino como areia. Como a areia das praias em que andara na escuridão depois, naquele mesmo ano infinito e sem sentido, à beira do mar frio e insensível. Aquelas eram as visitantes sombrias, as companheiras de suas noites, aquelas e outras, inúmeras, que o acompanhavam por quase dezenove anos. Ele carregava na bagagem, como uma carroça presa em seus ombros, como uma pedra em seu coração, imagens de seu povo — seu mundo destruído e seu nome aniquilado. Verdadeiramente aniquilado: um som que, ano após ano, afastava-se cada vez mais das costas do mundo dos homens, como o mar recuando na hora cinzenta de um amanhecer de inverno. Como se fosse essa maré, mas diferente — afinal, marés voltam. Aprendeu a viver com as imagens por não ter outra escolha, a menos que se render fosse uma escolha. Ou morrer. Ou se refugiar na loucura como sua mãe tinha feito. Ele se definiu por suas dores, conhecia-as como outros homens conheciam os contornos das próprias mãos. Mas a única coisa que o fazia ficar acordado, banido definitivamente do sono ou de qualquer outro descanso, que o forçava a estar ao ar livre, não tinha a ver com aquelas coisas.

Não era umvislumbre de uma grandiosidade passada, nem uma imagem de morte e perda. Ao contrário, era, acima de todas as coisas, a memória do amor entre as cinzas da ruína. No escuro, não conseguia manter suas barreiras contra a memória de uma primavera e de um verão com Dianora, com sua irmã. Assim, Baerd saía para as noites da Palma — duplamente enluaradas, com apenas uma lua ou escura, somente com as estrelas. Saía por entre as colinas cobertas de urze de Ferraut no verão, pelos vinhedos carregados de Astibar ou Senzio, no outono, por entre as encostas montanhosas cobertas de neve em Tregea ou ali, numa Noite das Brasas no começo da primavera nas terras altas. Ele andava na escuridão envolvente, sentia o cheiro da terra, sentia o solo, ouvia a voz do vento do inverno, saboreava frutas e água, ficava deitado sem se mover em uma árvore para observar os predadores noturnos caçando. E, muito raramente, em emboscada ou quando desafiado por mercenários, Baerd matava. Era um predador noturno por si só, incansável, que logo desaparecia. Um outro tipo de fantasma, já que uma parte dele morrera com aqueles que haviam sido derrotados no rio Deisa. Por todos os cantos da Palma continental, exceto no seu, de onde partira havia muito tempo, tinha feito aquilo por anos a fio, sentindo o lento passar das estações, aprendendo o significado da noite em uma floresta e em um campo, na beira de um rio escuro ou nas serras montanhosas, indo para a frente, para trás e para os lados, tentando alcançar uma libertação que sempre lhe era negada. Ele já estivera nas montanhas altas muitas vezes na Noite das Brasas daquela estação. Ele e Alessan conheciam Alienor de Barso havia muito tempo e tinham compartilhado muitas coisas com ela. Além disso, havia outra razão — ainda mais importante — para eles irem até as montanhas do sul a cada dois anos naquela mesma época. Ele pensou nas notícias do oeste. Em casa.

Lembrou-se da expressão no rosto de Alessan ao ler a carta de Danoleon e seu coração se apertou. Deixaria, porém, aquilo para o dia seguinte; era um fardo de Alessan, mais do que seu, por mais que ele quisesse — como sempre queria — compartilhar ou aliviar aquele peso. Aquela noite era dele e o chamava. Sozinho na escuridão, mas de mãos dadas com uma Dianora sonhada, ele se afastou do castelo. Antes, sempre se dirigia para o oeste e depois para o sul de Barso, fazendo um caminho tortuoso pelas colinas abaixo da Passagem de Braccio. Naquela noite, contudo, sem nenhuma razão conhecida por ele, seus passos o guiaram na outra direção, para sudeste. Eles o levaram pela estrada até o limite do vilarejo que ficava perto das muralhas do castelo. Ali, enquanto passava por uma casa com a porta aberta, Baerd viu uma mulher de cabelos claros ao luar, como se estivesse esperando por ele, e parou. Sentado à mesa, resistindo mais uma vez à tentação de contar quantos eram, tentando fingir que tudo estava normal naquela noite de guerra, Mattio ouviu, do lado de fora, Elena chamar seu nome e depois o de Donar. Sua voz estava baixa, como sempre, mas seus sentidos estavam concentrados nela, como sempre haviam estado. Mesmo antes de o pobre Verzar morrer. Olhou para o outro lado da mesa, para Donar, mas o Ancião já estava pegando suas muletas e se levantando para se balançar em sua única perna até a porta. Mattio o seguiu. Alguns dos outros observaram, nervosos e apreensivos. Ele forçou um sorriso tranquilizador.

Carenna percebeu toda essa movimentação e começou uma conversa reconfortante com aqueles que estavam mais visivelmente nervosos. O próprio Mattio não estava muito tranquilo quando saiu com Donar e viu que alguém havia chegado. Um homem de cabelos escuros e barba bem-feita, de estatura mediana, estava parado diante de Elena, olhando para ela e para os outros dois, sem falar. Ele tinha uma espada pendurada em uma bainha nas costas, à maneira tregeana. Mattio olhou para o Ancião, que mantinha o rosto impassível. Apesar de toda a sua experiência na guerra das Noites das Brasas e do dom de Donar, ele sentiu um calafrio. Alguém deve vir, o líder havia anunciado na noite anterior. E agora realmente alguém aparecera ali, ao luar, na hora que antecedia a batalha. Mattio se virou para Elena; seus olhos não deixavam de fitar o estranho. Ela estava de pé, muito ereta, magra e imóvel, as mãos segurando os cotovelos, escondendo seu medo e sua surpresa o melhor que podia. Mas Mattio passara anos observando-a e podia ver que sua respiração estava rápida e curta. Ele a amou por estar ali, parada, e por tentar esconder seu medo. Olhou de relance para Donar de novo e deu um passo à frente, estendendo duas palmas abertas para o estranho. — Seja bem-vindo — disse calmamente —, apesar de não ser uma boa noite para se andar por aí. O outro acenou, concordando.

Os pés, afastados, estavam firmes no chão. Ele parecia saber usar aquela espada. — Tampouco, pelo que entendo das terras altas, é uma noite para ficar com as portas e janelas abertas — respondeu. — E por que você acha que entende as terras altas? — disse Mattio, rápido demais. Elena ainda não desviara os olhos daquele homem. Tinha uma expressão estranha no rosto. Movendo-se para mais perto dela, Mattio percebeu que já tinha visto aquele homem antes. Ele tinha vindo várias vezes ao castelo. Músico, pelo que ele se lembrava, ou algum tipo de comerciante. Um daqueles homens sem pátria que ficavam eternamente viajando pelas estradas da Palma. Seu coração, que havia se animado ao ver a espada, perdeu um pouco do entusiasmo. O estranho não respondeu ao comentário mordaz. Parecia, pelo que a luz da lua revelava, pensar no assunto. Foi quando surpreendeu Mattio. — Desculpe-me.

Se invado um costume por causa da minha ignorância, peço desculpas. Tenho meus motivos para andar hoje à noite. Eu os deixarei em paz. Ele realmente se virou com a intenção de partir. — Não! — bradou Elena, com urgência. Ao mesmo tempo, Donar tomou a palavra pela primeira vez. — Não haverá paz esta noite — disse, naquela voz profunda na qual tanto confiavam. — E você não está invadindo. Senti que alguém viria pela estrada. Elena estava esperando por você. Ao ouvir isso, o estranho se virou. Seus olhos pareciam maiores no escuro, e algo novo, mais frio e calculista, brilhava neles. — Viria para quê? — perguntou. Houve um silêncio. Donar trocou as muletas e se balançou para a frente.

Elena foi para o lado para deixá-lo ficar diante do estranho. Mattio olhou para ela, com o cabelo caindo sobre o ombro, quase branco ao luar. Ela não tirou os olhos do homem de cabelos escuros. Que encarava Donar fixamente. — Viria para quê? — perguntou, novamente, ainda bastante calmo. E, mesmo assim, Donar hesitou. Naquele momento, Mattio percebeu, chocado, que o moleiro, seu Ancião, estava com medo. Um aperto nauseante de apreensão cresceu nele, pois subitamente entendeu o que Donar estava prestes a fazer. Então, ele o fez. Ele os revelou para alguém do norte. — Nós somos os Andarilhos da Noite de Certando — disse, a voz firme e profunda. — E esta é a primeira Noite das Brasas da primavera. Esta é a nossa noite. Preciso perguntar: quando você nasceu, havia alguma marca? As parteiras que o ajudaram a nascer declararam algum sinal de benção? Lentamente, Donar colocou a mão dentro da camisa, tirando o amuleto de couro que usava ao pescoço, aquele que guardava o pelico que o marcara no nascimento. Pelo canto dos olhos, Mattio viu Elena morder o lábio inferior.

Ele olhou para o estranho, vendo-o absorver o que Donar dizia, e começou a calcular suas chances de matá-lo, caso fosse necessário. Dessa vez, o silêncio foi ainda maior. Os sons abafados da casa atrás deles pareciam muito altos. Os olhos do homem de cabelos escuros estavam arregalados e sua cabeça muito erguida. Mattio podia ver que ele ponderava sobre o que estava por trás do que havia sido revelado. Ainda sem falar, o estranho levou uma das mãos ao pescoço e puxou de dentro da camisa, para que os outros três pudessem ver à luz da lua e das estrelas, o pequeno amuleto de couro que ele tambémusava. Mattio ouviu um som baixo, um suspiro de alívio, e só percebeu depois que havia sido dele. — “A Terra seja louvada… — murmurou Elena, sem conseguir se conter. Seus olhos estavam fechados. — “A Terra e tudo o que dela nasce e depois retorna… — completou Donar. Sua voz, surpreendentemente, estava trêmula. Deixaram que Mattio finalizasse. — “Retorna para nascer mais uma vez, no ciclo que não tem fim” — disse, olhando para o estranho, para o amuleto que usava, quase igual ao seu, ao de Elena, ao de Donar, ao de todos eles. Foi com as palavras de invocação ditas em sequência pelos três que Baerd finalmente entendeu como que havia encontrado. Duzentos anos antes, em uma época de pestes que pareciam não ter fim, de colheitas ruins, de sangue e violência, a heresia Carlozzini havia se enraizado ali no sul.

E das terras altas começou a se espalhar pela Palma, ganhando força e adeptos com velocidade assustadora. E foi contra o principal ensinamento de Carlozzi — de que a Tríade era composta de deuses mais jovens, obedientes e submetidos a poderes mais antigos e sombrios — que o clero da Palma concentrou seus esforços, de forma conjunta e determinada. Encarando uma unidade tão rara quanto absoluta entre o clero e aqueles que haviam sido apanhados no pânico de uma década de peste e fome, os duques e grão-duques, e até mesmo Valcanti, Príncipe de Tigana, se viram sem escolha. Os Carlozzini foram caçados, julgados e executados por toda a Península, de acordo com o método das execuções em cada província naquela época. Uma época de violência e sangue, duzentos anos antes. E naquele momento ele estava ali parado, mostrando o amuleto que guardava o pelico do seu nascimento, falando com três pessoas que acabaram de admitir serem Carlozzini. E mais. Andarilhos da Noite, dissera o Ancião. A vanguarda; o exército secreto da seita. Escolhidos de forma desconhecida por todos. Mas agora ele sabia; tinham lhe mostrado. Ocorreu-lhe que ele poderia estar em perigo por ter recebido aquele conhecimento — e, realmente, o homemmaior, de barba, parecia estar se contendo, como se preparado para a violência. No entanto, a mulher que estivera de vigia estava chorando. Ela era muito bonita, mas não como Alienor, de quem cada movimento, cada palavra indicava uma corrente oculta e felina de perigo. Aquela mulher era jovem demais, tímida demais; ele não podia acreditar que fosse uma ameaça.

Não chorosa como estava. E os três tinham dito palavras de agradecimento, de louvor. Seus instintos estavam alertas, porém não em relação a um perigo imediato. Deliberadamente, Baerd forçou seus músculos a relaxar. — O que vocês têm a me dizer, então? Elena limpou as lágrimas do rosto e olhou de novo para o estranho, absorvendo sua solidez tranquila e nítida, sua realidade, o fato tão improvável de ele estar ali. Engoliu com dificuldade, sentindo seu coração acelerado, tentando superar o momento em que aquele homem emergira da noite e das sombras para ficar à sua frente. E então deu-se um longo intervalo em que se encararam à luz do luar, antes de ela erguer, instintivamente, a mão para tocá-lo, para ter certeza de que ele era real. Só depois chamara Mattio e Donar. Algo estranho estava acontecendo com ela. Esforçou-se para se concentrar no que Donar dizia. — O que eu disse agora lhe dá poder de vida e morte sobre muitas pessoas — disse, em voz baixa. — Pois os sacerdotes ainda nos querem destruídos e o Tirano de Astibar obedecerá ao clero nesses assuntos. Acho que você sabe disso. — Eu sei — o homem de cabelos escuros confirmou, igualmente baixo. — Você me contará por que está confiando em mim? — Porque esta é uma noite de batalha — Donar disse.

— Nesta noite, eu irei liderar os Andarilhos da Noite na guerra. Ontem, quando anoiteceu, eu adormeci e sonhei com a vinda de um estranho até nós. Aprendi a respeitar meus sonhos, apesar de não saber quando eles vão surgir. Elena viu o estranho acenar, calmo, imperturbável, aceitando aquilo tão facilmente quanto tinha aceitado a presença dela na estrada. Viu que os braços dele eram musculosos por baixo da camisa e que se portava como um homem que já tinha visto muita violência na vida. Em seu rosto havia algo de triste, mas estava escuro demais para dizer com certeza, e ela se repreendeu por deixar sua imaginação correr solta em uma hora daquelas. Por outro lado, ele estava perambulando sozinho numa Noite das Brasas. Ela tinha certeza que homens sem suas próprias dores jamais fariam algo assim. Perguntou-se de onde ele seria. Tinha medo de perguntar. — Então, você é o líder desta companhia? — disse Baerd para Donar. — Ele é — Mattio interrompeu, seco. — E seria melhor que você não comentasse sobre sua enfermidade. Pelo tom desafiador, estava claro que ele interpretara mal a pergunta. Elena sabia o quão protetor ele era em relação a Donar, era uma das coisas que ela mais respeitava nele.

Mas aquele era um momento grande demais, importante demais, para mal-entendidos como aquele. Virou-se para ele, sacudindo a cabeça energicamente. — Mattio! — começou ela, mas Donar já tinha colocado uma das mãos no braço do ferreiro e, naquele momento, o estranho sorriu pela primeira vez. — Você se defendeu de uma ofensa que não existiu — disse. — Já vi outros, com ferimentos tão ruins ou piores, que lideraram exércitos e governaram homens. Eu apenas quero saber onde estou pisando. Está mais escuro para mim do que para vocês. Mattio abriu a boca, mas fechou-a em seguida. Fez um pequeno gesto desajeitado, como que pedindo desculpas com os ombros e as mãos. Foi Donar quem respondeu. — Sim, sou o Ancião dos Andarilhos. E também sou, com a ajuda de Mattio, o líder em batalha. Mas você precisa saber que a guerra que iremos travar hoje à noite não é como as que talvez você conheça. Quando sairmos novamente dessa casa, será sob um céu completamente diferente do que nos cobre agora. E sob esse céu, no mundo estranho de fantasmas e sombras, poucos de nós terão a mesma aparência que temos aqui.

O homem de cabelos escuros se mexeu, desconfortável, pela primeira vez. Olhou para baixo, quase relutante, para as mãos de Donar. Ele sorriu e ergueu sua mão esquerda, os cinco dedos bem abertos. — Não sou um mago — disse, baixinho. — Existe magia aqui, sim, mas nós pisamos nela e somos marcados por ela, não a moldamos. Isto não é feitiçaria. O estranho assentiu devagar e depois disse, com cortesia cuidadosa: — Consigo ver. Não entendo bem, só posso achar que você está me contando isso por algum motivo. Você gostaria de dizer qual é? — Gostaríamos de pedir a sua ajudar em nossa batalha hoje à noite — disse Donar, finalmente. No silêncio que se seguiu, Mattio falou e Elena percebeu quanto custou ao seu orgulho dizer isso. — Nós precisamos. Precisamos muito. — Contra quem lutaremos? — perguntou Baerd. — Nós os chamamos de Outros — respondeu ela, já que nem Mattio nem Donar falaram. — Eles vêm até nós, ano após ano, geração após geração.

— Eles vêm para arruinar os campos e amaldiçoar as sementes e as colheitas — explicou Donar. — Por duzentos anos, os Andarilhos da Noite de Certando os combatem nesta Noite das Brasas, e por todo esse tempo conseguimos contê-los quando nos atacavam, vindos do oeste. — Mas por quase vinte anos tem sido cada vez pior para nós. E nas últimas três Noites das Brasas, fomos derrotados. Muitos de nós morreram. E as secas em Certando têm piorado, você deve saber. Deve saber também sobre as pestes daqui. Elas têm… Mas o estranho levantou a mão de repente, um gesto brusco e inesperado. — Há quase vinte anos? E vindos do oeste? — disse, asperamente. Deu um passo para perto e virou-se para Donar. — Os tiranos chegaram há quase vinte anos. E Brandin de Ygrath chegou pelo oeste. O olhar de Donar estava firme enquanto ele se apoiava nas muletas, observando o outro homem. — É verdade — disse — e é um pensamento que já ocorreu a alguns de nós, mas eu não acho que seja importante. Nossas batalhas anuais nesta mesma noite vão muito além das preocupações diárias sobre quem governa a Palma em uma geração, como governam e de onde vieram.

— Mesmo assim… — o estranho começou. — Mesmo assim — Donar balançou a cabeça — existem mistérios nisso que vão além do meu poder de compreensão. Se você consegue ver um padrão, e eu não consigo… quem sou eu para questionar ou negar o que pode ser verdade? Ele colocou a mão no pescoço, tocando o amuleto de couro. — Você carrega a marca que nós usamos, e eu sonhei com a sua presença aqui hoje. Apesar disso, não temos nenhum poder sobre você, nenhum mesmo, e devo lhe dizer que a morte estará nos esperando nos campos quando os Outros vierem. Também posso lhe dizer que nossa necessidade vai além destes campos, além de Certando e acho mesmo que vai além da Península da Palma. Você lutará conosco hoje à noite? O estranho ficou em silêncio por muito tempo. Ele se virou e olhou para além deles, para a lua fina e as estrelas, mas Elena sentiu que sua verdadeira visão voltava-se para dentro; ele não estava olhando para as luzes. — Por favor? — ela se ouviu dizendo. — Você lutará, por favor? Ele não deu sinal de sequer tê-la ouvido. Quando se virou, foi para olhar novamente para Donar. — Entendo muito pouco sobre isso. Tenho minhas próprias batalhas para lutar e pessoas a quem jurei lealdade, mas não vejo o mal nem mentira em vocês e quero ver por mim mesmo as formas que esses Outros podem tomar. Se você sonhou com a minha vinda aqui, vou me deixar ser guiado pelo seu sonho. Quando seus olhos começavam a ficar cheios de lágrimas novamente, Elena viu-o virando-se para ela.

— Sim, vou lutar — disse ele, no mesmo tom e sem sorrir, seus olhos escuros sérios. — Vou lutar com vocês hoje à noite. Meu nome é Baerd. E então parecia que ele a tinha escutado, no fim das contas. Elena controlou as lágrimas, ficando o mais séria que conseguiu. Mas um tumulto, um caos terrível, crescia dentro dela e, no meio desse caos, parecia que Elena ouvia um som, como uma única nota tocada em seu coração. Atrás de Donar, Mattio dizia alguma coisa. No entanto, ela não estava escutando. Ela olhava para o estranho e percebia, quando seus olhares se encontravam, que estava certa antes, que seus instintos não haviam se enganado. Havia uma tristeza tão profunda nele que não podia deixar de ser notada por qualquer homem ou mulher com olhos para ver, mesmo na noite e nas sombras.

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