A Voz do Arqueiro – Mia Sheridan

Agarre a minha mão! Peguei você – disse eu bem baixinho, o helicóptero se levantando do chão, enquanto Duque segurava a mão de Cobra Invasor. Eu tentava falar o mais baixo possível enquanto brincava, já que minha mãe estava dormindo depois de levar outra surra, e eu não queria acordá-la. Mamãe me dissera para ficar vendo desenhos ao lado dela na cama, e fora o que eu fizera por algum tempo, mas quando vi que ela começou a dormir, desci para brincar com meus Comandos em Ação. O helicóptero aterrissou e meus homens saltaram e correram para debaixo da cadeira – eu tinha aberto uma toalha por cima dela para fingir que era um esconderijo subterrâneo. Peguei o helicóptero e o ergui novamente no ar, com o ruído de vup-vup-vup. Desejei poder estalar os dedos e transformar o brinquedo em um helicóptero de verdade. Aí, eu colocaria minha mãe dentro dele e voaríamos para longe daqui… para longe dele, dos olhos roxos e das lágrimas da mamãe. Não me importava para onde iríamos, desde que fosse para muito, muito longe. Eu me arrastei para baixo do esconderijo e, poucos minutos depois, ouvi a porta da frente ser aberta e fechada. Então, passos pesados percorreram o hall de entrada e atravessaram o corredor até onde eu estava brincando. Espiei e vi um par de sapatos pretos brilhantes e a bainha do que eu sabia serem calças de um uniforme. Saí o mais rápido que pude de baixo da cadeira chamando: – Tio Connor! Ele se ajoelhou e me joguei em seus braços, tomando o cuidado de ficar longe do lado em que ele mantinha o revólver e a lanterna de policial. – Ei, rapazinho – disse ele, me abraçando. – Como está meu herói de resgate? – Bem. Está vendo a fortaleza subterrânea que eu construí? – perguntei, me afastando e apontando orgulhoso para a fortaleza que tinha montado embaixo da mesa usando mantas e toalhas.


Estava muito legal. Tio Connor sorriu e tornou a olhar para mim. – É claro que estou vendo. Você fez um bom trabalho, Archer. Nunca vi uma fortaleza que parecesse tão impenetrável quanto essa. Ele piscou para mim e seu sorriso ficou mais largo. – Quer brincar comigo? – perguntei. Ele bagunçou meu cabelo, sorrindo. – Agora não, amigão. Mais tarde, está bem? Onde está a sua mãe? Tive a sensação de que meu rosto murchava. – Hã… ela não está se sentindo muito bem. Está deitada – respondi. Levantei os olhos para o rosto de tio Connor, para seus olhos castanho-dourados. A imagem que surgiu na minha mente no mesmo instante foi a do céu antes de uma tempestade… escuro e um tanto assustador. Me afastei um pouco, mas rapidamente os olhos de tio Connor voltaram a clarear, ele me puxou outra vez e me abraçou.

– Tudo bem, Archer, tudo bem – disse ele. Então me afastou um pouco, segurou meus braços e examinou meu rosto. Eu sorri e ele sorriu de volta. – Você tem o sorriso da sua mãe, sabia? Meu sorriso ficou mais largo. Eu adorava o sorriso da minha mãe. Era afetuoso, bonito e fazia com que eu me sentisse amado. – Mas eu me pareço com meu pai – falei, abaixando os olhos. Todos diziam que eu tinha a aparência dos Hales. Tio Connor me encarou por um instante, como se quisesse me dizer alguma coisa, mas então mudou de ideia. – Ora, isso é bom, amigão. Seu pai é bonito pra caramba. Ele sorriu para mim, mas o sorriso não chegou até seus olhos. Eu o encarei, desejando parecer com ele. Minha mãe me dissera uma vez que o tio Connor era o homem mais bonito que ela já tinha visto na vida. Mas logo parecera culpada, como se não devesse ter dito aquilo.

Provavelmente porque ele não era o meu pai, imaginei. Além do mais, tio Connor era um policial – um herói. Quando eu crescesse queria ser igualzinho a ele. Tio Connor ficou de pé. – Vou ver se a sua mãe está acordada. Fique brincando com seus bonecos. Desço em um minuto, está certo, amigão? – Está certo – assenti. Ele bagunçou os meus cabelos outra vez e se afastou na direção da escada. Esperei alguns minutos e o segui em silêncio. Evitei todas as tábuas que rangiam, segurando no corrimão para subir. Eu sabia como fazer silêncio naquela casa. Quando cheguei ao topo da escada, fiquei parado diante da porta do quarto da minha mãe. Apenas uma pequena fresta estava aberta, mas era o bastante. – Estou bem, Connor, de verdade – disse a voz suave da minha mãe. – Você não está bem, Alyssa – sibilou tio Connor, a voz falhando no final de um jeito que me assustava.

– Meu Deus! Tenho vontade de matá-lo. Estou farto disso, Lys. Estou cansado dessa rotina de mártir. Você pode achar que merece isso, mas Archer não merece – disse ele, cuspindo as últimas três palavras entre os dentes, daquele jeito que eu já vira antes. Normalmente quando meu pai estava por perto. Não ouvi nada além do choro baixo da minha mãe por alguns minutos, até que tio Connor voltou a falar. Dessa vez a voz dele parecia esquisita, sem nenhuma expressão. – Você quer saber onde ele está neste momento? Saiu do bar com Patty Nelson. Eles estão fazendo de tudo no trailer dela. Dirigi até lá e consegui ouvir os dois de dentro do carro. – Pelo amor de Deus, Connor! – A voz da minha mãe saiu engasgada. – Você está tentando tornar tudo pior… – Não! – rugiu ele, e eu dei um pulo. – Não – repetiu tio Connor agora mais calmo. – Estou tentando fazer você enxergar que já basta. Já basta.

Se achou que precisava pagar uma penitência, está paga. Não vê isso? Você estava errada ao acreditar que precisava pagar por alguma coisa, mas, já que achou, vamos aceitar… está pago, Lys. Há muito tempo. Agora estamos todos pagando. Você quer saber o que eu senti quando ouvi os sons que saíam daquele trailer? Tive vontade de entrar lá e arrebentar a cara dele por humilhar você, por desrespeitá-la daquela forma. E o pior de tudo é que eu deveria me sentir feliz por ele estar com qualquer outra pessoa que não você, qualquer outra que não a mulher que está tão enraizada no meu coração que eu não consigo tirá-la de lá de jeito nenhum. Mas em vez disso eu me senti enjoado, Lys. Porque ele não está tratando você bem, mesmo sabendo que se ele a tratasse bem isso iria significar que eu poderia tê-la de novo. O quarto ficou em silêncio por alguns minutos e eu tive vontade de espiar lá dentro, mas não fiz isso. Só conseguia escutar o choro baixo da minha mãe e um leve farfalhar. Por fim, tio Connor voltou a falar, a voz mais tranquila agora, mais gentil. – Deixe-me levá-la para longe daqui, querida. Por favor, Lys. Deixe-me proteger você e Archer. A voz dele estava cheia de alguma coisa que eu não sabia o nome.

Prendi a respiração. Ele queria nos levar embora? – E Tori? – minha mãe perguntou baixinho. Tio Connor demorou alguns segundos para responder. – Vou dizer a Tori que estou indo embora. Não temos mesmo um casamento de verdade há anos. Ela terá que entender. – Ela não vai entender, Connor – disse minha mãe, parecendo assustada. – Não vai mesmo. Tori vai fazer alguma coisa para se vingar de nós. Ela sempre me odiou. – Alyssa, não somos mais crianças. Essa não é nenhuma disputa idiota. É a nossa vida. E tem a ver com o fato de eu amar você, de merecermos ter uma vida juntos. Tem a ver comigo, com você e com Archer.

– E Travis? – perguntou ela, baixinho. Houve uma pausa. – Vou chegar a um acordo com Tori – disse ele. – Você não precisa se preocupar com isso. Houve mais um momento de silêncio, então minha mãe falou: – Seu emprego, a cidade… – Alyssa – disse tio Connor, a voz carinhosa –, não me importo com nada disso. Se eu não tiver você, nada importa. Não sabe disso até hoje? Vou sair do emprego, vender a terra. Vamos ter uma vida, meu amor. Vamos ser felizes. Longe daqui, longe desta cidade. Em algum outro lugar que possamos chamar de nosso. Meu amor, você não quer isso? Me diga que quer. Mais silêncio. Só que dessa vez eu ouvia um barulho, como se eles estivessem se beijando. Eu já os vira se beijando antes, quando minha mãe não sabia que eu estava espionando, como agora.

Eu sabia que era errado – mães não deveriam beijar homens que não fossem seus maridos. Mas tambémsabia que pais não deveriam voltar para casa bêbados o tempo todo e bater nas esposas. E tambémsabia que mães não deveriam olhar para tios com o olhar suave que minha mãe sempre tinha no rosto quando o tio Connor estava por perto. Era tudo muito confuso e eu não sabia o que pensar. Era por isso que eu os espiava, para tentar entender. Por fim, depois do que pareceu muito tempo, minha mãe sussurrou e eu mal consegui ouvir: – Está bem, Connor, leve-nos para longe daqui. Leve-nos para bem longe. Eu, você e Archer. Vamos ser felizes. Eu quero isso. Quero você. Você é o único que eu sempre quis. – Lys… Lys… Minha Lys… – disse tio Connor, a respiração pesada e entrecortada. Eu me afastei e desci novamente as escadas, em silêncio, evitando os pontos que rangiam. c a p í t u l o 2 BREE Joguei a mochila sobre o ombro, peguei a pequena caixa de transporte de cães no assento do passageiro ao meu lado e fechei a porta do carro.

Fiquei imóvel por um minuto, apenas ouvindo a música das cigarras que ecoava ao meu redor, quase abafando o sussurro suave das folhas das árvores farfalhando. O céu era de um azul vívido e consegui ver de relance o pequeno brilho prateado das águas do lago além dos chalés à minha frente. Estreitei os olhos na direção de um deles, o único que ainda tinha a plaquinha na janela da frente anunciando: Aluga-se. Era claramente o mais antigo e estava um tanto decadente, mas tinha um charme que logo me conquistou. Consegui me imaginar sentada na pequena varanda à noite, observando as árvores ao redor oscilando com a brisa enquanto a lua subia acima do lago atrás de mim, o aroma dos pinheiros e da água enchendo o ar. Sorri. Torcia para que o chalé também tivesse certo charme por dentro, ou pelo menos, que estivesse limpo. – O que acha, Phoebe? – perguntei baixinho. De sua caixinha de transporte, Phoebe pareceu satisfeita. – Sim, também acho – falei. Um sedã antigo parou perto do meu fusca e um senhor calvo desceu do carro e veio caminhando na minha direção. – Bree Prescott? – Eu mesma. – Eu me adiantei alguns passos e apertei a mão dele. – Obrigada por vir tão rápido, Sr. Connick.

– Por favor, me chame de George – disse ele, sorrindo para mim e indo em direção ao chalé, nós dois levantando poeira e agulhas de pinheiro secas a cada passo. – Não foi incômodo nenhum. Estou aposentado agora e não tenho compromissos. Subimos os três degraus de madeira que levavam à pequena varanda. George pegou um molho de chaves no bolso e começou a procurar por uma delas. – Aqui vamos nós – anunciou ele, enquanto enfiava a chave na fechadura e abria a porta da frente. O cheiro de poeira e um leve aroma de mofo me receberam enquanto entrávamos e eu olhava ao redor. – Minha mulher vem aqui sempre que pode e faz uma limpeza básica, mas, como você pode ver, o lugar precisa de uma boa faxina. Norma não consegue mais fazer as coisas tão bem quanto antes por causa da artrite no quadril e tudo o mais. O chalé esteve vazio durante todo o verão. – Está ótimo – afirmei. Coloquei a caixa de transporte de Phoebe no chão perto da porta e avancei na direção da cozinha. O interior do chalé estava mesmo precisando de uma boa faxina. Mas me apaixonei imediatamente por ele. Era pitoresco e cheio de charme.

Quando ergui alguns lençóis que cobriam a mobília, vi que era antiga, mas de bom gosto. O piso de madeira era de pranchas largas, rústicas e lindas, as cores das paredes eram suaves e aconchegantes. Os equipamentos de cozinha eram antigos, mas a verdade era que eu não precisava de muito no que se referia à cozinha. Não sabia se um dia ia querer cozinhar de novo. – O quarto e o banheiro ficam nos fundos… – começou a dizer o Sr. Connick. – Eu fico com ele – interrompi-o, então ri e balancei a cabeça. – Quero dizer, se o chalé ainda estiver disponível e estiver tudo bem para o senhor, eu fico com ele. O Sr. Connick riu e respondeu: – Ora, sim, isso é ótimo! Vou pegar o contrato de aluguel no carro e podemos resolver tudo. Eu pedi um depósito por segurança, mas podemos negociar se isso for um problema para você. Balancei a cabeça, negando qualquer problema. – Não, não é um problema. Me parece ótimo. – Muito bem, já volto, então – disse ele, encaminhando-se para a porta.

Enquanto o Sr. Connick estava lá fora, aproveitei para dar uma olhada no quarto e no banheiro. Eram pequenos, mas serviriam, exatamente como eu imaginara. O que chamou minha atenção foi a janela grande no quarto, com vista para o lago. Não pude evitar um sorriso quando vi o pequeno píer que levava à água tranquila e espelhada, de um azul impressionante sob o brilho do sol da manhã. Havia dois barcos no lago, pouco mais de pequenos pontos no horizonte. De repente, olhando para a água, tive uma estranha sensação, como se quisesse chorar – mas não de tristeza e sim de felicidade. Porém, tão rápido quanto veio, a vontade de chorar começou a ceder, me deixando com uma estranha sensação de nostalgia que não consegui explicar. – Vamos lá – disse o Sr. Connick, e ouvi a porta do chalé sendo fechada. Saí do quarto para assinar a papelada de aluguel do lugar que eu chamaria de lar – ao menos por algum tempo – enquanto torcia para que ali eu finalmente encontrasse um pouco de paz. Norma Connick havia deixado todos os produtos de limpeza no chalé, por isso, depois que peguei minha bagagem no carro e a deixei no quarto, comecei a faxina. Três horas depois, eu afastava uma mecha úmida de cabelo dos olhos e recuava um passo para admirar meu trabalho. Os pisos de madeira estavam limpos e sem poeira, toda a mobília fora descoberta e espanada. Eu havia encontrado lençóis e toalhas no armário do corredor e os lavara e secara na pequena e apertada lavanderia perto da cozinha.

Então fizera a cama. A cozinha e o banheiro foram esfregados e desinfetados, e abri todas as janelas para deixar entrar a brisa quente de verão que vinha do lago. Eu não iria ficar muito tempo ali, mas por ora estava satisfeita. Peguei os poucos artigos de toalete que colocara na mala e arrumei no armário do banheiro. Então, tomei um banho frio demorado, limpando do corpo horas de faxina e de viagem. Eu dividira as dezesseis horas de viagem desde a minha cidade natal, Cincinnati, em Ohio, em dois turnos de oito horas e havia passado a noite em um pequeno motel na beira da estrada. Dirigira ao longo da noite seguinte para chegar ali pela manhã. Havia parado em uma pequena cafeteria com acesso à internet na véspera, em Nova York, e procurara por anúncios on-line de propriedades para alugar na cidade para onde eu estava indo. A cidade no Maine que eu escolhera era um destino turístico popular, por isso, o mais próximo que consegui dela foi do outro lado do lago, nessa cidadezinha chamada Pelion. Depois de me secar, vesti um short limpo e uma camiseta e peguei o celular para ligar para a minha melhor amiga, Natalie. Ela me telefonara várias vezes desde que eu lhe mandara uma mensagem de texto avisando que estava partindo, e eu só respondera as ligações com mensagens de texto. Devia a Nat uma ligação de verdade. – Bree? – atendeu Natalie, o som de conversas em voz alta ao fundo. – Oi, Nat. Está podendo falar? – Espere um pouco que eu vou lá para fora.

– Ela cobriu o bocal com a mão, disse alguma coisa a alguém, então voltou à linha. – Sim, estou podendo falar! Estava louca por notícias suas, aliás! Estou almoçando com minha mãe e com minha tia. Elas podem esperar alguns minutos. Eu estava preocupada – resmungou ela, em um tom levemente acusatório. Suspirei e respondi: – Eu sei, me desculpe. Estou no Maine. Eu tinha dito a Natalie para onde estava indo. – Bree, você simplesmente desapareceu. Santo Deus! Pelo menos levou bagagem? – Umas poucas coisas. O suficiente. Natalie bufou. – Está certo. E quando vai voltar para casa? – Não sei. Acho que vou ficar aqui por um tempo. De qualquer modo, Nat, não falei nada, mas estou com pouco dinheiro.

Acabei de gastar uma boa grana como depósito do aluguel. Preciso de um emprego, ao menos por alguns meses, para ganhar o suficiente para pagar a viagem de volta para casa e me sustentar por um tempo depois que eu voltar. Nat ficou em silêncio por alguns instantes. – Não sabia que as coisas estavam tão ruins assim. Mas Bree, querida, você tem um diploma universitário. Volte para casa e use esse diploma. Você não precisa viver como uma espécie de nômade em uma cidade em que não conhece ninguém. Já estou com saudades de você. Avery e Jordan também. Deixe que seus amigos ajudem você a retomar sua vida… Nós a amamos. Posso lhe mandar algum dinheiro, se isso for trazê-la de volta para casa mais rápido. – Não, não, Natalie. Estou falando sério. Eu… preciso desse tempo, está bem? Eu sei que você me ama – falei baixinho. – Também amo você.

Mas preciso fazer isso. Ela voltou a fazer uma pausa. – Foi por causa de Jordan? Mordi o lábio por alguns segundos antes de responder. – Não, não só por causa dele. Quero dizer, talvez tenha sido a última gota, mas não, não estou fugindo de Jordan. Ele foi só o empurrão de que eu precisava, entende? Tudo acabou ficando… demais para mim. – Ah, querida, todos temos um limite. Fiquei quieta, por isso ela suspirou e disse: – E então, a viagem meio esquisita e súbita já está ajudando? Ouvi o sorriso na voz de Natalie e ri baixinho. – De certa maneira, talvez. De outras, ainda não. – Então eles ainda não foram embora? – perguntou Natalie, baixinho. – Não, Nat, ainda não. Mas me sinto bem aqui. De verdade – garanti, tentando parecer animada. Nat, mais uma vez, não respondeu de imediato.

– Querida, não acho que tenha a ver com o lugar. – Não é isso que estou dizendo. Só acho que aqui parece um bom lugar para ficar e me afastar de tudo por um tempo… ah, você precisa desligar! Sua mãe e sua tia estão esperando. Podemos conversar sobre isso depois. – Está certo – disse Natalie, ainda hesitante. – Você está em segurança, então? Esperei um pouco antes de responder. Nunca me sentia inteiramente segura. Será que me sentiria algum dia? – Sim, e aqui é lindo. Encontrei um chalé bem à beira do lago. Olhei pela janela atrás de mim, assimilando novamente a linda vista do lago. – Posso ir visitá-la? – perguntou Natalie. – Espere até eu me acomodar, primeiro. Talvez antes de eu voltar para casa… – Então está combinado. Sinto muito a sua falta. – Também sinto sua falta.

Ligo de novo em breve, está bem? – Está bem. Tchau, querida. – Tchau, Nat. Desliguei e fui até a janela grande. Fechei as cortinas do meu novo quarto e subi na cama recém-arrumada. Phoebe se acomodou aos meus pés. Adormeci no instante em que pousei a cabeça no travesseiro. Acordei com o canto dos pássaros e com o barulho distante da água do lago batendo na margem. Rolei na cama e olhei o relógio. Passava um pouco das seis da tarde. Me espreguicei e sentei na cama, tentando me orientar. Levantei, com Phoebe me seguindo, e escovei os dentes no pequeno banheiro. Bochechei e me examinei no espelho do armário em cima da pia. Os semicírculos escuros continuavam sob meus olhos, embora menos pronunciados depois das cinco horas de sono. Belisquei as bochechas para dar um pouco de cor à pele e abri um sorriso grande e falso para mim mesma.

Então sacudi a cabeça. – Você vai ficar bem, Bree. É forte e vai ser feliz de novo, está me ouvindo? Este lugar tem uma energia boa. Está sentindo? Inclinei a cabeça e me encarei no espelho por mais um minuto. Várias pessoas conversamconsigo mesmas no espelho para se animarem, certo? É absolutamente normal. Bufei baixinho e sacudi a cabeça de novo. Lavei o rosto e prendi rapidamente meus longos cabelos castanho-claros em um coque bagunçado na nuca. Fui até a cozinha e abri o congelador, onde eu guardara as refeições congeladas que trouxera na caixa térmica. Eu não havia trazido muita comida – apenas o que estava na geladeira de casa: algumas refeições para aquecer no micro-ondas, leite, manteiga de amendoim, pão e algumas frutas. E meio saco de ração canina para Phoebe. Mas daria para alguns dias, antes que eu tivesse de descobrir onde ficava o mercado local. Coloquei uma massa pronta para descongelar no micro-ondas, me sentei na bancada da cozinha e comi com um garfo de plástico. Fiquei olhando pela janela enquanto comia e vi quando uma senhora de vestido azul, com os cabelos brancos curtos, saiu do chalé ao lado do meu e caminhou na direção da minha varanda com um cesto nas mãos. Quando ouvi a batida de leve na porta, joguei a embalagem vazia de comida congelada no lixo e fui atender. Abri a porta e a senhora sorriu calorosamente para mim.

– Olá, querida, sou Anne Cabbott. Parece que você é a minha nova vizinha. Seja bem-vinda. Sorri também e peguei o cesto que ela me ofereceu. – Bree Prescott. Obrigada. Quanta gentileza! Levantei a ponta do pano de prato que cobria a cesta e senti o aroma doce de muffins de mirtilo. – Nossa, que cheiro delicioso! – falei. – Gostaria de entrar um pouco? – Na verdade, eu ia perguntar se você gostaria de tomar um pouco de chá gelado comigo na minha varanda. Acabei de preparar uma jarra fresquinha. – Ah – hesitei –, está bem, claro! Só me dê um segundo para eu me calçar. Entrei em casa novamente, coloquei os muffins sobre a bancada da cozinha e fui até o quarto, onde havia largado os chinelos. Quando voltei, Anne estava parada na extremidade da varanda esperando por mim. – A noite está adorável. Em noites assim, procuro me sentar na varanda e aproveitar um pouco.

Sei que logo estarei reclamando do frio. Começamos a caminhar na direção do chalé dela. – Então, mora aqui o ano todo? – perguntei, olhando para ela. Anne assentiu. – A maior parte de nós, deste lado do lago, mora aqui o ano inteiro. Os turistas não estão interessados nesta cidade. Lá – ela acenou com a cabeça na direção da outra extremidade do lago, que mal dava para ver dali – é onde estão todas as atrações turísticas. A maioria das pessoas daqui não se importa com isso, gosta de calmaria. Mas as coisas vão acabar mudando. Victoria Hale, a mulher que manda nesta cidade, tem planos para vários novos empreendimentos que vão trazer os turistas para cá também. Ela suspirou enquanto subia os degraus que levavam até sua varanda e se sentou em uma das cadeiras de vime. Eu me sentei no balanço para duas pessoas e me recostei na almofada. A varanda de Anne era linda e aconchegante, com uma mobília confortável de vime branco e almofadas alegres em azul e amarelo. Havia vasos de flores por toda parte: petúnias e uma variedade de trepadeiras cascateando pelas laterais. – O que acha de trazerem turistas para cá? – perguntei.

Ela franziu um pouco o cenho. – Ah, bem… gosto da nossa cidadezinha tranquila. Eu diria para deixá-los onde estão. Ainda somos um lugar de passagem, o que é o bastante para mim. Além do mais, gosto desse ar de cidade pequena. Ao que parece, vão construir condomínios por aqui, portanto não haverá mais chalés na beira do lago. Foi a minha vez de franzir o cenho. – Ah, sinto muito – falei, ao perceber que ela estava dizendo que teria que se mudar. Anne fez um gesto despreocupado com mão. – Vou ficar bem. O que mais me preocupa são os negócios da cidade que terão que fechar por causa da expansão. Assenti, ainda preocupada. Ficamos em silêncio por algum tempo, até que voltei a falar: – Passei as férias com a minha família do outro lado do lago, quando era criança. Anne pegou a jarra de chá que estava sobre a pequena mesa ao lado dela, serviu dois copos e me entregou um deles. – É mesmo? E o que a traz de volta agora? Dei um gole no meu chá, ganhando tempo de propósito.

Por fim, falei: – Resolvi sair de carro para viajar um pouco por aí. E fui feliz lá naquele verão. Dei de ombros e tentei sorrir, mas falar sobre a minha família sempre me deixava com um aperto no peito. Fingi uma expressão alegre e torci para Anne não perceber que não era real. Ela apenas me observou por um instante, enquanto dava um gole no chá. Então assentiu. – Ora, querida, acho que é um ótimo plano. E acho que, se este lugar lhe trouxe felicidade antes, trará novamente. Na minha opinião, alguns lugares combinam com as pessoas. Ela me dirigiu um sorriso caloroso e eu retribuí. Não contei a Anne que a outra razão pela qual eu estava ali era porque aquele era o último lugar em que a minha família fora realmente feliz e despreocupada. Minha mãe recebeu o diagnóstico de câncer de mama assim que voltamos daquela viagem e morreu seis meses depois. Dali em diante, fomos apenas meu pai e eu. – Quanto tempo está planejando ficar? – perguntou Anne, interrompendo meus devaneios. – Não sei bem.

Na verdade, não tenho um itinerário definido. Mas vou precisar conseguir umemprego. Sabe de alguém que esteja contratando? Anne pousou o copo. – Na verdade, sei, sim. A lanchonete da cidade está precisando de uma garçonete para o turno da manhã. Eles abrem para o café da manhã e para o almoço. Estive lá outro dia e havia um cartaz com o anúncio. A moça que trabalhava na lanchonete teve bebê e resolveu ficar em casa para cuidar dele. A lanchonete fica na rua principal e se chama Norm’s. Não tem como errar. Está sempre cheia e é um lugar agradável. Diga a eles que foi indicada pela Anne – disse ela, piscando para mim. – Obrigada – respondi. – Farei isso. Ficamos sentadas em silêncio por algum tempo, as duas bebericando o chá, o som dos grilos ao fundo e o zumbido ocasional de um mosquito passando perto do meu ouvido.

Podia ouvir os gritos distantes dos barqueiros no lago, provavelmente prestes a aportar e terminar o dia de trabalho, e também o som suave da água do lago batendo na margem. – É tão tranquilo aqui – comentei. – Bem, espero que não se incomode por eu dizer, querida, mas você parece estar precisando de um pouco de paz. Suspirei e ri baixinho. – Deve ser boa em avaliar as pessoas – falei. – Não está errada. Ela também riu baixinho. – Sempre fui boa em entender as pessoas. Meu Bill costumava dizer que não conseguia esconder nada de mim, mesmo se tentasse. É claro que o amor e o tempo também ajudam. Nós nos tornamos tão próximos da outra pessoa que ela passa a ser quase uma parte de nós. E não é possível esconder nada de nós mesmos. Embora muitos sejam bons em fazer isso, acho. Inclinei a cabeça. – Sinto muito.

Há quanto tempo seu marido se foi? – indaguei. – Ah, faz dez anos. Mas ainda sinto falta dele. Uma expressão melancólica dominou o rosto de Anne antes que ela endireitasse os ombros e acenasse com a cabeça para o meu copo. – Ele gostava de acrescentar um pouco de Bourbon ao chá doce. Isso o deixava travesso. Eu não me importava, é claro. Não tomava mais do que um minuto ou dois do meu tempo e o fazia sorrir. Eu acabara de tomar um gole do chá e tive que levar a mão à boca para não cuspir tudo. Depois que engoli o chá, finalmente soltei a gargalhada que estava presa e Anne sorriu para mim. Assenti depois de algum tempo. – Acho que os homens são mesmo simples assim. Anne sorriu. – Nós, mulheres, aprendemos isso desde cedo, não é mesmo? Há algum rapaz esperando por você no lugar de onde veio? Balancei a cabeça, negando. – Não.

Tenho alguns poucos e bons amigos, mas ninguém mais está esperando por mim em casa. Conforme as palavras saíam da minha boca, a verdadeira natureza da minha solidão foi como um soco no estômago. Aquilo não era novidade para mim; ainda assim, por algum motivo, dizer as palavras tornou tudo mais verdadeiro. Bebi o resto do chá, tentando engolir junto a emoção que me dominara subitamente. – Eu preciso ir – falei. – Obrigada pelo chá e pela companhia. – Sorri para Anne e ela retribuiu o sorriso, começando a se levantar junto comigo. – Sempre que quiser, Bree. Se precisar de qualquer coisa, sabe onde me encontrar. – Obrigada, Anne. Você é um amor. Ah! Preciso ir a uma farmácia. Há alguma na cidade? – Sim, a Haskell’s. Basta atravessar a cidade, pelo mesmo caminho por onde veio, e você verá a farmácia à sua esquerda. Fica pouco antes do semáforo.

Não tem como errar. – Está certo, ótimo. Obrigada novamente – falei, descendo os degraus e acenando para ela. Anne assentiu, sorrindo, e acenou de volta. Enquanto atravessava meu quintal para ir pegar a bolsa dentro de casa, vi um dente-de-leão solitário cheio de penugem. Então me inclinei, colhi-o e o levei aos lábios. Fechei os olhos e me lembrei das palavras de Anne. Depois de um instante, sussurrei: – Paz. Então assoprei a flor e vi a penugem ser levada pela brisa até perdê-la de vista. Torci para que, de algum modo, aquelas sementes pudessem alcançar algo ou alguém que tivesse o poder de tornar aquele desejo realidade.

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