A zona do desconforto – Jonathan Franzen

Tinha havido uma tempestade naquela noite em St. Louis. A água se acumulara em fumegantes poças escuras na calçada do aeroporto, e do banco traseiro do táxi eu via os ramos agitados dos carvalhos contra nuvens urbanas que pairavam em baixa altitude. As ruas da noite de sábado estavam saturadas de uma sensação de posterioridade, de atraso — a chuva não caía, já tinha caído. A casa de minha mãe, em Webster Groves, estava toda escura, com exceção de um abajur ligado a um timer na sala de estar. Assim que entrei, fui diretamente para a prateleira de bebidas e me servi de uma boa dose que vinha me prometendo desde o primeiro de meus dois vôos. Como um viking, eu me sentia com direito a todas as provisões que conseguisse pilhar. Estava à beira de completar quarenta anos, e meus irmãos mais velhos tinham me confiado a tarefa de viajar até o Missouri e escolher um corretor para vender a casa. Pelo tempo que eu fosse ficar em Webster Groves, trabalhando em prol do espólio, a prateleira de bebidas era minha. Toda minha! Assim como o arcondicionado, que regulei imediatamente numa temperatura gélida. Assim como o freezer da cozinha, que julguei necessário abrir na mesma hora e vasculhar até o fundo, na esperança de encontrar alguma coisa gostosa e rica em ácidos graxos que eu pudesse aquecer e comer antes de ir para a cama. Minha mãe era muito ciosa em matéria de rotular os alimentos com a data em que os congelava. Por baixo de incontáveis sacos de cranberries, encontrei uma perca que um vizinho pescador fisgara três anos antes. Por baixo da perca, uma peça de carne assada com nove anos de idade. Percorri a casa inteira recolhendo as fotos de família de todos os aposentos.


O desejo acumulado de me dedicar a essa tarefa era quase tão grande quanto o de tomar aquela primeira bebida. Minha mãe era apegada demais à arrumação formal de suas salas de estar e de jantar para enchê-las de fotografias, mas, por todo o resto da casa, cada peitoril de janela e cada mesinha transformara-se num torvelinho de porta-retratos do tipo mais barato. Enchi uma sacola de compras com o butimrecolhido no alto do armário da tevê, mais uma sacola com tudo o que tirei das paredes da sala de estar, como se colhesse as fotografias nos ramos de árvores frutíferas plantadas em filas regulares num pomar. Muitas das fotos eram dos netos, mas eu também aparecia nelas — exibindo um sorriso ortodôntico de brilho metálico numa praia da Flórida, ou com um ar de ressaca em minha formatura da faculdade, ou com os ombros caídos no dia do meu malfadado casamento, ou a um metro de distância do resto da família durante uma viagem de férias ao Alaska em que minha mãe, já perto do fim da vida, decidira gastar boa parte da sua poupança de toda a vida para nos reunir. A foto do Alaska era tão lisonjeira para nove de nós que ela aplicara uma caneta esferográfica azul aos olhos da décima personagem, uma das noras, que tinha piscado no flagrante e agora, com seus olhos disformes de pontos de tinta, exibia um ar monstruoso ou insano. Pensei comigo que estava fazendo um trabalho importante, despersonalizando a casa antes da chegada do primeiro corretor. Mas, se alguém me perguntasse por que também foi necessário, na mesma noite, empilhar as mais de cem fotos numa mesa do porão e rasgar, cortar, arrancar ou tirar cada foto do seu porta-retrato e depois jogar todos os porta-retratos em sacos de compra que enfiei nos armários e guardar todas as fotos em envelopes, para que ninguém pudesse vê-las, se alguém tivesse apontado o quanto eu lembrava um conquistador que se dedica a queimar as igrejas do inimigo e a destruir seus ícones — eu teria de admitir que estava saboreando a propriedade exclusiva da casa. Eu era a única pessoa da família que passara a infância inteira aqui. Na adolescência, quando meus pais iam sair, eu contava os segundos até poder tomar, provisoriamente, posse plena da casa, e enquanto eles ficavam fora eu sofria muito porque sabia que iam acabar voltando. Nas décadas que se passaram desde então, era com ressentimento que eu vinha acompanhando aquele acúmulo de fotos de família, e sofrendo com a usurpação das minhas gavetas e armários pela minha mãe. Quando ela me pedira para remover da casa meus caixotes de livros e papéis, eu reagira como um gato doméstico em quem ela tivesse tentado instilar algum espírito comunitário. Até parece que a casa era dela… E era, claro. Aquela era a casa para a qual, cinco dias por mês ao longo de dez meses, enquanto meus irmãos e eu levávamos adiante nossas vidas costeiras, ela voltava sozinha de sua quimioterapia e caía na cama. Foi daquela casa que, um ano depois disso, no início de junho, ela ligou para mim emNova York e disse que precisava se internar de novo para mais uma cirurgia exploratória, e então rompeu em lágrimas e pediu desculpas por decepcionar a todos e só ser capaz de nos dar más notícias. Foi naquela casa que, uma semana depois de o cirurgião balançar a cabeça desalentado e tornar a costurar seu abdome, ela atormentou a nora na qual mais confiava com perguntas sobre uma vida após a morte, e depois que minha cunhada confessara que a idéia lhe parecia totalmente despropositada por motivos de pura logística, minha mãe, concordando com ela, tinha como que feito uma marca ao lado do item “vida após a morte” e passado para o ponto seguinte na sua lista de coisas a fazer, obedecendo ao seu pragmatismo habitual, abordando as outras tarefas que sua decisão tornara mais urgentes do que nunca, como “convidar as melhores amigas uma a uma e despedir-se delas para sempre”.

Foi daquela casa que, numa manhã de sábado de julho, meu irmão Bob a levou de carro até sua cabeleireira, que era vietnamita, cobrava barato e a recebeu com as palavras “Oh, sra. Fran, sra. Fran, a senhora está com uma cara péssima”, e foi para ela que retornou uma hora mais tarde a fim de acabar de se arrumar, porque decidira investir suas milhas longamente guardadas em duas passagens de primeira classe, e uma viagem dessas era uma ocasião em que precisava estar coma melhor aparência possível; desceu do seu quarto adequadamente vestida para a primeira classe, despediu-se da irmã, que tinha vindo de Nova York para que a casa não ficasse vazia depois da saída de minha mãe — para deixar alguém à sua espera — e então seguiu rumo ao aeroporto commeu irmão e voou para o Noroeste, à costa do Pacífico, para o resto de sua vida. A casa dela, por ser uma casa, foi suficientemente mais lenta na morte para funcionar como uma zona de conforto para minha mãe, que precisava se aferrar a alguma coisa maior do que ela mesma, mas não acreditava ementidades sobrenaturais. Sua casa era o Deus pesado (mas não infinitamente pesado) e resistente (mas não eterno) que ela tinha amado e servido e que a amparava, e minha tia tomara a atitude certa ao vir ficar ali naquela hora. Mas agora precisávamos pôr logo o imóvel à venda. Já estávamos na segunda semana de agosto, e o melhor momento para vender a casa, cujos muitos defeitos (a cozinha minúscula, o quintal desprezível, o banheiro pequeno demais do andar de cima) eram contrabalançados por sua localização na área da escola católica ligada à igreja de Maria, Rainha da Paz. Dada a qualidade das escolas públicas de Webster Groves, eu não entendia por que uma família se dispunha a pagar mais para poder morar naquela área e então poder pagar mais para mandar os filhos a um colégio de freiras, mas havia muitas coisas na condição católica que desafiavam por completo meu entendimento. De acordo com minha mãe, os pais católicos de toda St. Louis viviam formando ansiosas listas de espera naquela área, e sabia-se de famílias de Webster Groves que tinham saído de casa e mudado para outro imóvel dois quarteirões além só para se instalarem dentro de suas fronteiras. Infelizmente, depois que começava o ano letivo, o que ocorreria daqui a três semanas, os jovens pais já não se mostravam tão ansiosos. Eu sentia alguma pressão adicional para ajudar meu irmão Tom, o inventariante do espólio, a acabar depressa com aquilo. E uma pressão de tipo diferente de meu outro irmão, Bob, que insistira para eu me lembrar que o que estava em jogo ali era dinheiro de verdade. (“Muita gente reduz 782 mil dólares a 770 mil quando negocia, e acha que é basicamente o mesmo número”, disse ele. “Mas não, na verdade são 12 mil dólares a menos.

Você eu não sei, mas, quanto a mim, consigo imaginar muitas coisas que prefiro fazer com 12 mil dólares do que dá-los de presente a algum desconhecido que esteja comprando minha casa.”) Mas a pressão mais séria vinha mesmo de minha mãe, que, antes de morrer, deixara bem claro que não havia melhor maneira de honrar sua memória e validar as últimas décadas de sua vida do que vender a casa por uma bela quantia. Contar sempre fora reconfortante para ela. Não colecionava nada além de bibelôs de Natal de porcelana dinamarquesa e blocos de lançamento de selos americanos, mas guardava listas de todas as viagens que tinha feito, de todo país onde pusera os pés, de cada um dos “Maravilhosos (Excepcionais) Restaurantes Europeus” em que tinha comido, de cada cirurgia a que fora submetida, de cada objeto de sua casa incluído nas apólices de seguro e guardado em seu cofre particular do banco. Era sócia fundadora de um clube de investimento de pequenas quantias chamado Girl Tycoons, algo como “Garotas Magnatas”, cujo desempenho do fundo de ações acompanhava minuciosamente. Nos últimos dois anos de vida, à medida que seu prognóstico piorava, dedicava uma atenção especial ao preço de venda de outras casas nas redondezas, anotando sua localização e a área construída. Numa folha de papel com o título de Guia para a apresentação ao mercado do imóvel da 83 Webster Woods , ela compusera um esboço de anúncio da mesma forma que outra pessoa poderia ter composto o rascunho de seu próprio obituário: Sólida casa de tijolo em dois pisos três quartos vestíbulo central casa colonial em terreno arborizado perto do final de rua particular sem saída. Tem três quartos, sala de estar, sala de jantar com jardim-de-inverno, sala de estar no piso térreo, copa-cozinha com máquina de lavar louça ge nova etc. Duas varandas cercadas de tela, duas lareiras em funcionamento, garagem anexa para dois carros, sistema de segurança contra arrombamentos e incêndio, pisos de madeira em todos os aposentos e porão subdividido. No pé da página, depois de uma lista de eletrodomésticos e pequenas reformas recentes, vinha seu palpite final sobre o valor da propriedade: “1999 — valor estim. 350 mil dólares+.” Essa cifra era dez vezes maior do que ela e meu pai tinham pagado pelo imóvel em 1965. A casa não só constituía o grosso de seu patrimônio, como era ainda o investimento mais bem-sucedido que jamais fizera. Eu não era uma pessoa dez vezes mais feliz do que meu pai, e os netos dela não tiveram uma formação dez vezes melhor do que a dela. Em que outro aspecto sua vida tivera um resultado comparável ao da valorização daquele imóvel? “Vai ajudar a vender a casa!”, exclamara meu pai depois de construir um meio-banheiro em nosso porão.

“Vai ajudar a vender a casa!”, dissera minha mãe depois de contratar um mestre-de-obras para revestir de tijolos a entrada da frente. Ela repetiu aquela expressão tantas vezes que meu pai acabou perdendo a cabeça e começou a listar os inúmeros melhoramentos que ele tinha feito, entre eles o meio-banheiro novo, que ela evidentemente pensava que não ia ajudar a vender a casa; e então ele se perguntou em voz alta por que afinal se dera ao trabalho de se ocupar com aquilo todos os fins de semana de não sei quantos anos quando, para “ajudar a vender a casa”, bastava revestir de tijolos a entrada da frente! Desde então, ele se recusou a ter qualquer envolvimento com a manutenção da entrada, deixando para minha mãe a tarefa de esfregar os tijolos para tirar o limo e quebrar delicadamente o gelo acumulado durante o inverno. Mas, depois que ele passou a metade dos domingos de todo um mês instalando alto-relevos decorativos em torno do teto da sala de jantar, aparando, engessando e pintando, ambos ficaram admirando o resultado do trabalho e repetindo, inúmeras vezes, com grande satisfação, “vai ajudar a vender a casa”. “Vai ajudar a vender a casa.” “Vai ajudar a vender a casa.” Bem depois da meia-noite, apaguei as luzes do térreo e fui para o meu quarto, que Tom e eu dividimos até ele entrar na faculdade. Minha tia fizera uma certa faxina na casa antes de voltar para Nova York, e depois eu removera todas as fotos de família: o quarto estava pronto para ser mostrado aos compradores. As cômodas e a mesa estavam vazias; os pêlos do carpete estavam cuidadosamente alinhados pela minha tia com o aspirador; as duas camas pareciam ter acabado de ser feitas. E assimeu me espantei, ao tirar minha colcha, quando encontrei alguma coisa no colchão ao lado do meu travesseiro. Era um monte de selos em pequenos envelopes de papel-manteiga: a velha coleção de blocos de selos da minha mãe. O pacote estava tão escandalosamente fora do lugar que senti um formigamento na nuca, como se, caso me virasse, pudesse me deparar com minha mãe de pé junto à porta. Tinha sido claramente ela quem escondera os selos. Deve tê-lo feito em julho, quando se arrumava para deixar a casa pela última vez. Alguns anos antes, ao lhe perguntar se ela me daria seus velhos blocos de selos, ela me respondeu que eu poderia ficar com o que sobrasse deles depois de sua morte. E é possível que ela temesse que Bob, que colecionava selos, quisesse se apoderar do pacote para si, ou talvez só estivesse cumprindo mais um item da sua lista de coisas a fazer.

Mas, de qualquer maneira, ela tinha removido os envelopes de uma gaveta da sala de jantar e os levara para o andar de cima, para o lugar que seria provavelmente eu a próxima pessoa a perturbar. Uma incrível presciência microgerencial! A mensagem particular que aqueles selos representavam, a piscadela cúmplice de olhos que ela me dava enquanto passava a perna em Bob, aquele sinal que me chegava quando o emitente já morrera: não era o olhar íntimo que Faye Dunaway e Warren Beatty trocam em Bonnie e Clyde um segundo antes de serem fuzilados, mas era a coisa mais próxima da intimidade que minha mãe e eu jamais conseguiríamos atingir. Encontrar aquele pacote agora equivalia para mim a ouvi-la dizer, “Estou prestando atenção nos meus detalhes. Você está prestando atenção nos seus?” As três corretoras com quem conversei no dia seguinte eram tão diferentes quanto os três pretendentes de um conto de fadas. A primeira era uma mulher magra de cabelos muito claros da Century 21, e me deu a impressão de que lhe seria muito difícil dizer qualquer coisa agradável a respeito da casa. Cada aposento parecia causar uma nova decepção para ela e para o seu sócio que recendia fortemente a água de colônia; trocavam idéias em voz baixa sobre “potencial” e “valor agregado”. Minha mãe era filha de um dono de bar, nunca terminou a faculdade e tinha um gosto que preferia chamar de Tradicional, mas me parecia improvável que as outras casas oferecidas pela Century 21 pudessem ter uma decoração de mais bom gosto. Fiquei aborrecido quando a corretora não se mostrou encantada com as aquarelas parisienses da minha mãe. Enquanto isso, comparava nossa cozinha diminuta com os espaços generosos como hangares que as cozinhas ocupavam nas casas mais novas. Se eu quisesse incluir minha casa entre as que ela tinha para vender, disse-me afinal, sugeriria que eu pedisse entre 340 e 360 mil dólares. A segunda corretora, uma bela mulher chamada Pat, envergando um elegante conjunto de verão, era amiga de um bom amigo da nossa família e vinha muito recomendada. Chegou acompanhada de sua filha, Kim, que trabalhava com ela. Enquanto as duas se deslocavam de aposento em aposento, parando para admirar precisamente os detalhes de que minha mãe mais se orgulharia, pareciam-me dois avatares da domesticidade de Webster Groves. Era como se Pat estivesse cogitando comprar a casa para Kim; era como se Kim estivesse prestes a chegar à idade de Pat e, a exemplo de Pat, fosse querer uma casa na qual reinava a contenção, e os tecidos e os móveis fossem do estilo certo. Filhos substituindo a mãe, família sucedendo a família, o ciclo da vida suburbana.

Sentamo-nos para conversar na sala de visitas. “A casa é adorável, simplesmente adorável”, disse Pat. “Sua mãe cuidava muito bem dela. E acho que podemos conseguir um bom preço, mas precisamos andar depressa. Eu sugeriria estabelecermos o preço de 350 mil dólares, pondo um anúncio já no jornal de terça-feira e começando a receber os interessados no próximo fim de semana.” “E sua comissão?” “Seis por cento”, respondeu ela, olhando firme para mim. “Sei de muita gente que já estaria bastante interessada.” Respondi que lhe daria uma definição no final do dia. A terceira corretora irrompeu casa adentro uma hora mais tarde. Seu nome era Mike, era uma loura bonita de cabelos curtos mais ou menos da minha idade, e usava um par de jeans da melhor qualidade. Estava totalmente abarrotada de clientes, revelou-me com voz rouca, e vinha da terceira casa aberta a interessados daquele dia, mas, depois que eu lhe telefonara na sexta-feira, ela tinha passado de carro para ver nossa casa e se apaixonara por ela da rua mesmo. A casa tinha um poder de atração fantástico, e então ela resolveu que tinha de vê-la por dentro e, caramba, era exatamente como ela tinha imaginado — deslocava-se ávida de aposento em aposento — a casa era encantadora, caía de tanto charme, por dentro lhe parecia ainda melhor, e ela iria adorar adorar adorar adorar adorar vender aquela casa, e, na verdade, se o banheiro de cima não fosse tão pequeno, poderia conseguir até 405 mil dólares, aquela área da cidade era tão boa, tão boa — eu sabia da escola Maria, Rainha da Paz, não é? — mas mesmo com o banheiro problemático e com o jardim tão pequenino do quintal ela não ficaria surpresa se conseguisse vender a casa na faixa dos 390, e além disso ainda podia fazer outras coisas por mim, normalmente ela cobrava uma comissão de cinco e meio por cento, mas, se o agente do comprador fosse do mesmo grupo que ela, aceitaria ficar só com cinco, e se ela própria fosse a agente do comprador estava disposta a baixar até quatro, meu Deus, ela adorava o que minha mãe tinha feito, sabia que ia adorar desde que viu a casa da rua, e queria muito aquela casa — “Jonathan, eu quero muito esta casa”, disse ela, olhando-me bem nos olhos — e, a propósito, só de passagem, não para se gabar, sério, mas tinha sido a corretora número um de imóveis residenciais da área de Webster Groves e Kirkwood nos últimos três anos. Mike me deixou animado. A frente de sua blusa, molhada de suor, a maneira como ela andava com aqueles jeans. Flertou comigo abertamente, admirando minhas ambições, comparando-as favoravelmente às suas próprias (embora as suas não fossem propriamente insubstanciais), sustentando meu olhar e falando sem parar com sua adorável voz rouca.

Disse que entendia totalmente por que eu queria ficar vivendo em Nova York. Disse que era raro encontrar alguém que entendesse tanto, como eu obviamente entendia, de desejo, de ânsia. Disse que ia fixar o preço da casa entre 380 e 385 mil dólares e que esperava começar uma guerra de lances. Ali sentado, ouvindo sua voz enquanto ela se estendia com entusiasmo, eu me sentia um verdadeiro viking. Não devia ter sido tão difícil telefonar para Pat, mas foi. Ela me dava a impressão de uma mãe que eu me via obrigado a desapontar, a mãe atravessada no caminho, uma consciência incômoda. Ela parecia saber de coisas sobre mim e sobre a casa — coisas realistas — que eu preferia que não soubesse. O olhar que ela me dirigira ao mencionar sua comissão tinha sido cético e avaliador, como se qualquer adulto responsável pudesse ver que ela e a filha eram obviamente as melhores corretoras para aquele caso, mas como se ela não tivesse certeza de que eu seria capaz de perceber aquele fato tão óbvio. Esperei até as nove e meia, o último momento possível, antes de ligar para ela. Como eu temia, Pat não escondeu sua surpresa e sua contrariedade. Eu me incomodava se ela perguntasse quem era o outro corretor? Tive especial consciência do sabor e da forma do nome de Mike enquanto ele atravessava minha boca. “Ah”, disse Pat em tom cansado. “Está certo.” Mike tampouco seria a escolha da minha mãe, nem de longe. Eu disse a Pat que a decisão tinha sido difícil, uma escolha complicada, e que eu agradecia ela ter vindo e sentia muito por ela e eu não termos — “Então, boa sorte”, disse ela.

Depois disso, fiz a ligação mais simpática, do tipo estou-livre-na-noite-de-sexta. Mike, em casa, confidenciou-me em voz baixa, como se não quisesse ser ouvida pelo marido. “Jonathan, eu sabia que você ia me escolher. Senti uma ligação entre nós desde o primeiro momento.” A única pequena complicação, disse ela, é que tinha planos antigos de uma viagem de férias com o marido e as crianças. Ia viajar na sexta-feira e não poderia começar a mostrar a casa antes do fim do mês. “Mas não se preocupe”, afirmou ela. Cresci no centro do país, em plena época de ouro da classe média americana. Meus pais eramoriginalmente de Minnesota, mudaram-se para Chicago, onde eu nasci, e por fim se instalaramdefinitivamente no Missouri, bem no meio do mapa do país. Quando criança, eu dava grande valor ao fato de que nenhum outro estado americano faz divisa com mais estados do que o Missouri (que, como o Tennessee, está ligado a outros oito) e de que reúne entre os seus vizinhos estados tão díspares quanto a Georgia e o Wyoming. O “centro da população” do país — seja qual for o milharal ou a encruzilhada de estradinhas rurais que o censo mais recente identificou como o centro de gravidade demográfica dos Estados Unidos — nunca esteve a mais de poucas horas de carro da nossa casa. Nossos invernos eram mais amenos que os de Minnesota, nossos verões, mais amenos que os da Flórida. E nossa cidade, Webster Groves, ficava na média desse meio. Não era um subúrbio tão próspero quanto Ladue ou Clayton; não era tão próximo da cidade quanto Maplewood ou tão distante quanto Des Peres; cerca de sete por cento da população era de classe média e negra. Webster Groves era, como gostava de dizer minha mãe, ecoando Cachinhos de Ouro, “do tamanho certo”.

Ela e meu pai tinham se conhecido num curso noturno de filosofia na Universidade de Minnesota. Meu pai trabalhava para a ferrovia Great Northern, e freqüentava as aulas como ouvinte para se distrair. Minha mãe trabalhava em tempo integral como recepcionista num consultório médico, e vinha acumulando lentamente os créditos necessários para um diploma superior em desenvolvimento infantil. Ela começava um dos seus trabalhos, intitulado “Minha Filosofia”, descrevendo-se como “uma jovem americana comum — comum, digo, porque tenho interesses, dúvidas, emoções e assimpor diante similares aos das moças da minha idade em qualquer cidade americana”. Mas em seguida admitia sérias dúvidas em matéria de religião (“Acredito firmemente nos ensinamentos de Cristo, emtudo o que Ele representou, mas não estou convencida do sobrenaturalismo”), dúvidas que revelavam o quanto sua afirmação de que era “comum” estava mais próxima de um desejo que de uma realidade. “Não acho que essa dúvida seja a mesma para o mundo como um todo”, escreveu ela. “Existe uma clara necessidade de religião na vida dos homens. Digo que está certo para a humanidade, mas, quanto a mim mesma, não tenho certeza.” Incapaz de se alinhar com Deus, o Reino dos Céus e a Ressurreição, e incerta quanto a um sistema econômico que produzira a Grande Depressão, ela concluía sua redação apontando a única coisa de que não duvidava: “Acredito com toda a firmeza na vida em família. Sinto que o lar é a base da verdadeira felicidade na América — muito mais do que a igreja ou a escola jamais chegarão a ser”. Por toda a vida, ela detestou estar excluída. Qualquer coisa que tendesse a nos distinguir do resto da comunidade (sua falta de fé, o sentimento de superioridade do meu pai) precisava ser contrabalançada com algum princípio que nos trouxesse de volta para a média e nos ajudasse a ser ajustados. Sempre que ela me falava sobre meu futuro, enfatizava que o caráter da pessoa importava muito mais do que aquilo que ele ou ela conseguisse realizar, e que, quanto mais capacidades a pessoa tinha, mais ele ou ela era devedor da sociedade. As pessoas que a impressionavam eram sempre “altamente competentes”, nunca “inteligentes” ou “talentosas”, nem mesmo “trabalhadoras”, porque as pessoas que se achavam “inteligentes” podiam ser vaidosas, egoístas ou arrogantes, enquanto as pessoas que se consideravam “competentes” nunca deixavam de se lembrar de sua dívida para com a sociedade. A sociedade americana da minha infância era moldada por ideais da mesma ordem.

Por todo o país, a distribuição de renda nunca fora mais eqüitativa e nunca mais tornaria a sê-lo; os presidentes de empresas recebiam normalmente apenas quarenta vezes mais que seu empregado de salário mais baixo. Em 1965, perto do auge da sua carreira, meu pai ganhava 17 mil dólares por ano (um pouco mais que o dobro da renda mediana nacional) e tinha três filhos na escola pública; possuíamos umDodge de porte médio e uma tevê preto-e-branco de 21 polegadas; minha mesada era de 25 centavos por semana, pagos a cada manhã de domingo; um bom programa de fim de semana consistia emalugar uma máquina de vapor para descolar papel antigo das paredes. Para os liberais, os meados do século passado foram uma época de materialismo acrítico dentro do país, de imperialismo desavergonhado no estrangeiro, de oportunidades negadas às mulheres e às minorias, de violência inominável contra o meio ambiente e de malévola hegemonia do complexo industrial-militar. Para os conservadores, foram uma era de colapso das tradições culturais, de inchaço do governo federal e da criação de impostos que eram um verdadeiro confisco, de uma assistência social e esquemas de aposentadoria que eram quase socialistas. No meio da média, porém, enquanto eu via o antigo papel de parede se desprender em pesadas maçarocas que lembravam pele, cheiravam a polpa e tornavama grudar nas botas de trabalho do meu pai, não havia nada além da família, da casa, do bairro, da igreja, da escola e do trabalho. Eu vivia encasulado dentro de casulos que, por sua vez, viviamencasulados. Fui o filho temporão a quem meu pai, que todas as noites da semana lia para mim, confessou seu amor pelo burro depressivo Bisonho nas obras de A. A. Milne, e para quem minha mãe, na hora de dormir, cantava uma música de ninar exclusiva que compusera para comemorar meu nascimento. Meus pais eram adversários e meus irmãos eram rivais, e cada um deles se queixava de todos os outros para mim, mas todos concordavam em me achar uma gracinha, e não havia nada neles que eu pudesse não amar. Preciso dizer que isso não durou muito? À medida que meus pais envelheceram e meus irmãos e eu fugimos do centro geográfico e fomos terminar nas zonas litorâneas, o país como um todo também se afastou do centro em matéria de economia, indo parar num sistema em que, hoje, o um por cento mais rico da população detém dezesseis por cento da renda total do país (em contraste com os oito por cento de 1975). Esta é a hora certa para ser um ceo americano e um péssimo momento para ser o empregado de menor salário desse ceo. A hora certa para ser o Wal-Mart, um péssimo momento para estar no caminho do Wal-Mart; a hora certa para ser um extremista sistemático, um péssimo momento para ser o moderado que o questiona. Um momento fabuloso para os fornecedores na área da defesa, uma merda de momento para ser um reservista; excelente para ter uma cátedra em Princeton, horrível para ser professor-adjunto no Queens College; extraordinário para gerir um fundo de pensão, horroroso para depender de um deles; melhor do que nunca para ser um autor de best-sellers, mais difícil do que nunca para ser um vendedor médio de livros; fenomenal para vencer um torneio de Texas Hold’Em, e miserável para ser viciado em videopôquer. Numa tarde de agosto, seis anos depois que minha mãe morreu, enquanto uma grande cidade americana era destruída por um furacão, fui jogar golfe com meu cunhado num campinho meio fuleiro das montanhas do norte da Califórnia.

Era uma péssima hora para estar em Nova Orleans, mas muito boa para estar ali naquela área do Oeste, onde o clima era perfeito e os Oakland A’s, um time mal pago que eu gosto de acompanhar, vinham cumprindo sua série anual de fim do verão em primeiro lugar no torneio. Minha maior preocupação daquele dia era decidir se eu devia me sentir mal por ter saído do trabalho às três da tarde ou se minha mercearia orgânica predileta teria os limões Meyer para as margaritas que eu planejava preparar après golfe. À diferença de Michael Brown, o cupincha de George Bush que àquela altura só pensava em sua manicure e nos jantares que reservara para o resto da semana, eu tinha a desculpa de não ser diretor da fema, a agência federal de gestão de emergências dos Estados Unidos. A cada bola que eu isolava no meio do mato ou fazia mergulhar na água, meu cunhado gracejava, “Pelo menos você não está sentado no telhado de casa sem água potável, esperando que algum helicóptero passe para recolhê-lo”. Dois dias mais tarde, quando voei de volta para Nova York, estava preocupado com as turbulências desagradáveis que o Katrina ainda pudesse criar para o meu vôo, mas a viagem foi especialmente tranqüila, e o tempo na Costa Leste estava quente e sem nuvens.

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