Agente 6 – Tom Rob Smith

O jeito mais seguro de escrever um diário era imaginar Stalin lendo cada palavra. Mesmo com todo esse cuidado, ainda havia o perigo de alguma frase escapar com um eventual duplo sentido e a expressão ser malcompreendida. Um elogio poderia ser interpretado como escárnio, uma adulação sincera talvez fosse considerada paródia. Como nem o mais cuidadoso autor podia se proteger de todas as interpretações possíveis, uma alternativa era esconder o diário, método escolhido neste caso pela suspeita: uma jovem artista chamada Polina Pechkova. Seu diário foi encontrado numa lareira, dentro da chaminé, enrolado numa lona e apertado entre dois tijolos soltos. Para pegá-lo, a autora era obrigada a esperar o fogo apagar, enfiar a mão na chaminé e sentir a lombada do livro. Por ironia, a complexidade desse esconderijo foi a ruína de Pechkova. Uma simples marca de digital cheia de fuligem em sua escrivaninha despertou a suspeita do agente e mudou o foco da busca — um trabalho de investigação exemplar. Do ponto de vista da polícia secreta, esconder um diário era crime, independentemente do conteúdo dele. Demonstrava a tentativa de o cidadão separar a vida pública da privada, quando tal divisão não existia. Não havia pensamento ou acontecimento que fugisse à autoridade do partido. Por isso, um diário escondido costumava ser a prova mais incriminadora que um agente podia desejar. Como o texto não era direcionado a leitor algum, o autor escrevia livremente, baixava a guarda, fazia nada menos que uma confissão não solicitada. A total sinceridade tornava o documento adequado para avaliar não só o autor, mas seus amigos e familiares. Um diário podia acrescentar até 15 suspeitos, 15 novos caminhos e, muitas vezes, ser mais útil que um intenso interrogatório.


O encarregado dessa investigação era o agente Liev Demidov, 27 anos: soldado condecorado, recrutado da polícia secreta após a Grande Guerra Patriótica. Ele se destacara no MGB graças a uma combinação de obediência cega, fé no Estado ao qual servia e rigorosa atenção aos detalhes. Seu entusiasmo não era calcado na ambição, mas na adoração por sua terra natal, o país que havia vencido o fascismo. Tão bonito quanto sério, tinha o rosto e o espírito de um cartaz de propaganda, com queixo quadrado, lábios definidos, sempre disposto a citar um slogan. Na curta carreira de Liev no MGB, ele supervisionou a leitura de centenas de diários, examinou milhares de anotações na incansável caça aos acusados de agitação antissoviética. Como umprimeiro amor, ele se lembrava do primeiro diário que analisou. Entregue por seu chefe, Nikolai Borisov, foi um caso difícil, pois Liev não encontrou nada incriminador nas páginas. O chefe então leu o mesmo diário e salientou uma observação aparentemente inocente: 6 de dezembro de 1936: Na noite passada, entrou em vigor a nova constituição de Stalin. Sinto o mesmo que todo o país, i.e., uma total e absoluta alegria. Borisov não achou que a frase transmitisse uma felicidade crível. O autor parecia mais interessado em unir seu sentimento ao do restante do país. Era estratégico e cínico, uma declaração vazia para ocultar suas dúvidas. Quem sente um encanto sincero usa uma abreviação — i.

e. — antes de descrever sua emoção? A pergunta foi feita ao suspeito, no interrogatório que se seguiu. INTERROGADOR BORISOV: Como se sente agora? SUSPEITO: Não fiz nada de errado. INTERROGADOR BORISOV: Mas minha pergunta foi: como se sente? SUSPEITO: Estou preocupado. INTERROGADOR BORISOV: Claro, é muito natural. Mas note que você não disse: “Me sinto como qualquer pessoa na minha situação, i.e., preocupado.” O homem foi condenado a 15 anos de prisão. E Liev aprendeu uma valiosa lição: um detetive não se restringia a buscar provas de revolta. Bem mais importante era ficar atento a declarações de amor e fidelidade que não convenciam. Com a experiência adquirida nos últimos três anos, Liev folheou o diário de Polina Pechkova e notou que, para uma artista, a suspeita tinha uma caligrafia pouco elegante. Escrevia com um lápis rombudo, sem jamais se preocupar em fazer a ponta. Ele passou o dedo pelo verso de cada folha, sentindo as frases escritas como em código braile. Ergueu o diário até seu nariz.

Tinha cheiro de fuligem. Ao contato com o polegar, o papel estalava como folhas secas de outono. Liev farejou, avaliou e segurou o diário em suas mãos, examinando-o de todos os jeitos, menos lendo. Para o relatório sobre o conteúdo do diário, procurou seu estagiário. Como parte de uma recente promoção, Liev foi encarregado de supervisionar novos agentes. Já não era um discípulo, mas mestre. Esses novos agentes o acompanhariam no trabalho diário e nas prisões noturnas, adquirindo experiência ao seu lado até estarem prontos para administrarem seus próprios casos. Grigori Semitchastni tinha 23 anos e era o quinto agente que Liev instruía. Era talvez o mais inteligente e, sem dúvida, o menos promissor. Perguntava demais, duvidava muito das respostas. Sorria quando descobria algo interessante e franzia o cenho quando um fato o incomodava. Para saber o que pensava, bastava observar sua expressão. Foi recrutado na Universidade de Moscou, onde era excelente aluno e recebeu um diploma, diferente de seu mentor. Liev não tinha inveja, aceitava que jamais teria cabeça para estudos formais. Capaz de analisar as próprias deficiências intelectuais, não entendia por que seu estagiário quis investir numa profissão para a qual era totalmente inadequado.

Chegou a pensar em dizer para Grigori procurar outra atividade. Porém uma saída tão repentina faria com que fosse vigiado e, com toda a probabilidade, o condenaria aos olhos do Estado. A única opção viável para Grigori era ir tropeçando ao longo do caminho, por isso Liev achou que tinha a obrigação de ajudá-lo. Grigori virava as páginas do diário com atenção, para a frente e para trás, parecia procurar alguma coisa em particular. Por fim, olhou para Liev e constatou: — O diário não diz nada. Lembrando-se da própria experiência quando calouro, Liev não se surpreendeu muito com a resposta, desapontado com a falha de seu protegido. Duvidou: — Nada? Grigori assentiu com a cabeça. — Nada importante. Era pouco provável. Mesmo se não tivesse exemplos claros de provocações, as coisas não mencionadas num diário eram tão importantes quanto as que foram efetivamente escritas. Liev se levantou, decidido a oferecer sua sapiência ao estagiário. — Vou lhe contar uma história. Uma vez, um jovem anotou em seu diário que naquele dia ele se sentia inexplicavelmente triste. O dia era 23 de agosto. O ano, 1949.

Que conclusão você tiraria disso? Grigori deu de ombros. — Nenhuma. Liev insistiu: — Quando foi assinado o Tratado de Não Agressão Mútua entre a Alemanha nazista e a Rússia soviética? — Em agosto de 1939. — Foi em 23 de agosto de 1939. O que mostra que esse homem sentia uma tristeza inexplicável no décimo aniversário do tratado. Além de não fazer qualquer elogio aos soldados que derrotaram o fascismo e à proeza militar de Stalin, a tristeza desse homem foi interpretada como uma crítica inconveniente à nossa política externa. Por que focar nos erros e não demonstrar orgulho? Você entende? — Talvez a tristeza dele não estivesse relacionada ao tratado. Todos temos dias em que nos sentimos infelizes, solitários ou melancólicos. Não verificamos o calendário histórico toda vez que nos sentimos assim. Liev ficou irritado. — A afirmação dele podia não ter nada a ver com o tratado, certo? Talvez não existam inimigos. Talvez todos adorem o Estado. Talvez ninguém queira prejudicar o nosso trabalho. Nossa missão é revelar a culpa, e não esperar ingenuamente que ela não exista. Grigori refletiu, ao perceber a raiva de Liev.

Com um tato incomum, ele ponderou sobre a resposta e deixou de confrontar o superior para concluir: — O diário de Polina tem anotações mundanas sobre sua rotina diária. Na minha opinião, não há nada contra ela. É a minha conclusão. A artista, que Liev notou ser tratada por Grigori informalmente pelo nome, tinha sido encarregada de criar e pintar uma série de murais públicos. Como havia o perigo de que ela, ou qualquer artista, criasse algo sutilmente subversivo, uma obra de arte com sentido latente, o MGB fazia uma checagemde rotina. A lógica era simples. Se o diário dela não manifestasse um sentido subversivo secreto, era pouco provável que os murais o fizessem. Era uma tarefa simples, adequada para um calouro. O primeiro dia correu bem. Grigori encontrou o diário enquanto Pechkova trabalhava no ateliê. Concluindo a busca, devolveu a prova ao esconderijo na chaminé para a artista não perceber que estava sob investigação. Grigori comunicou ao superior e, por um tempo, Liev acreditou que havia esperança para o jovem: considerar a digital cheia de fuligem como uma pista fora incrível. Nos quatro dias seguintes, Grigori manteve alta vigilância, por muito mais horas que o necessário. Mas, apesar do serão, não fez mais relatórios nem observações. E agora dizia que o diário não tinha valor.

Liev pegou o diário, notando a relutância de Grigori em entregá-lo. Pela primeira vez, leu. Logo percebeu que o conteúdo não era provocativo como se poderia esperar de um diário tão cuidadosamente escondido numa lareira. Sem querer concordar que a suspeita era inocente, pulou as páginas e foi para o final, examinando as anotações mais recentes, escritas nos últimos cinco dias da vigilância de Grigori . A suspeita comentava sobre o encontro com um vizinho, morador de um bloco de apartamentos do outro lado da rua. Nunca o tinha visto, mas ele se aproximou e os dois conversaram na rua. Ela comentou que o homem era interessante, disse que esperava encontrá-lo de novo e acrescentou discretamente que era bonito. Ele disse o nome? Não lembro. Deve ter dito. Como posso ser tão esquecida? Me distraí. Gostaria de lembrar o nome dele. Vai ficar ofendido quando nos encontrarmos de novo. Se isso acontecer, o que espero. Liev virou a página. No dia seguinte, ela conseguiu o que queria e, por acaso, encontrou o homemnovamente.

Desculpou-se por ser esquecida e pediu que repetisse o nome. Ele disse que era Isaac e os dois caminharam juntos, falando como se fossem amigos de longa data. Por uma feliz coincidência, Isaac ia na mesma direção que ela. Chegando ao ateliê, ela lamentou ter de deixá-lo. Segundo a anotação, assim que ele foi embora, ela começou a desejar o próximo encontro. Será que isso é amor? Não, claro que não. Mas será que é assim que o amor começa? Como o amor começa — sentimental, consistente com o estranho temperamento de alguém que escreve um diário inofensivo, mas o esconde cuidadosamente como se contivesse traição e intriga. Que coisa mais boba e perigosa. Liev não precisava de uma descrição física daquele simpático jovem para saber quem era. Olhou o protegido e perguntou: — Isaac? Grigori ficou indeciso. Preferiu não mentir e admitiu: — Achei que uma conversa seria boa para avaliar o caráter dela. — Sua missão era apenas vasculhar o apartamento e observar as atividades. Não devia ter feito contato direto. Ela podia descobrir que você é do MGB. Então mudaria de comportamento para enganá-lo.

Grigori balançou a cabeça. — Ela não desconfiou de mim. Liev ficou desapontado com aqueles erros primários. — Você só sabe disso pelo que ela escreveu no diário. Mas ela pode ter destruído o diário original e colocado essas anotações inofensivas por saber que estava sendo investigada. Ao ouvir isso, a rápida tentativa de demonstrar respeito afundou como um navio se chocando contra rochedos. Grigori zombou, exibindo uma incrível insolência: — O diário inteiro escrito para nos enganar? Ela não faria isso. Não pensa como nós. É impossível. Contestado por um jovem estagiário, acusado de ser um profissional incompetente. Liev era paciente e mais tolerante que outros agentes, mas Grigori o estava pondo à prova. — Em geral, pessoas que parecem inocentes devem ser vistas com mais atenção. Grigori encarou Liev como se ele fosse digno de pena. Dessa vez, a expressão dele não combinou com a resposta. — Você tem razão: eu não devia ter falado com ela.

Mas é uma boa pessoa, isso posso garantir. Não achei nada no apartamento nem nas atividades cotidianas que dê a entender que ela não seja uma cidadã leal. O diário é inofensivo. Polina Pechkova não precisa ser interrogada. Deve continuar seu trabalho de artista, que é ótimo. Tenho que devolver o diário antes que ela volte do trabalho. Não precisa saber dessa investigação. Liev olhou de relance a foto dela, presa com clipe na capa da pasta. Era linda. Grigori sentia-se atraído por ela. Será que o seduziu para evitar suspeitas? Será que escreveu sobre amor sabendo que ele leria e iria protegê-la? Liev precisava examinar essa declaração. A única solução era ler o diário inteiro. Não podia mais confiar no que seu protegido dizia. O amor o deixara vulnerável. O diário tinha mais de cem páginas.

Polina Pechkova escrevia sobre sua vida e seu trabalho. A personalidade dela transparecia com força: estilo excêntrico, cheio de digressões, ideias súbitas e exclamações. As anotações pulavam de um assunto a outro, em geral abandonando uma linha de raciocínio sem completá-la. Não fazia afirmações políticas, concentrava-se nos acontecimentos cotidianos de sua vida e nos desenhos. Depois de ler o diário inteiro, Liev admitiu que a mulher tinha algo de sedutor. Costumava rir dos próprios erros, documentados com honestidade. A franqueza podia explicar porque escondeu o diário com tanto cuidado. Era pouco provável que tivesse sido forjado para enganar alguém. Pensando nisso, Liev fez sinal para que Grigori se sentasse. Ele havia ficado de pé, como se estivesse em guarda, durante todo o tempo em que Liev leu. Estava nervoso. Grigori sentou-se na ponta da cadeira. Liev então perguntou: — Diga uma coisa: se ela é inocente, por que escondeu o diário? Parecendo perceber que Liev desconfiava dela, Grigori ficou nervoso. Falou rápido, correndo para oferecer um provável motivo. — Ela mora com a mãe e dois irmãos menores.

Não quer que bisbilhotem. Talvez fossem rir dela, não sei. Ela fala de amor, talvez isso a embarace. É só isso. Temos que perceber quando uma coisa não tem importância. Os pensamentos de Liev voavam. Imaginou Grigori se aproximando da jovem. Mas não conseguia imaginá-la reagindo positivamente à pergunta de um estranho. Por que ela não pediu para deixá-la empaz? Ser tão receptiva parecia imprudente demais. Liev se inclinou para a frente e falou mais baixo, não por medo de ser ouvido, mas para mostrar que não estava mais conversando formalmente como agente secreto. — O que houve entre vocês? Você se aproximou e foi falando? E ela… Liev hesitou, não tinha ideia de como terminar a frase. Por fim, engasgando, perguntou: — E ela disse… Grigori não sabia se a pergunta era de um amigo ou de um superior hierárquico. Ao entender que Liev estava sinceramente curioso, respondeu: — Como conhecer uma pessoa, senão se apresentando? Falei sobre o trabalho dela, disse que tinha visto alguns, o que, aliás, é verdade. A conversa partiu daí. Ela foi simpática, amigável.

Liev achou extraordinário. — Ela não desconfiou? — Não. — Pois devia. Falaram brevemente como amigos sobre assuntos do coração e logo voltaram a ser agentes secretos. Grigori abaixou a cabeça. — Você tem razão, ela devia ter desconfiado. Não estava zangado com Liev. Estava zangado consigo mesmo. A ligação dele com a artista se baseava numa mentira: seu afeto se baseava em falsidade e ilusão. Surpreso consigo mesmo, Liev entregou o diário a Grigori. — Fique com ele. Grigori não se mexeu, tentava entender o que estava acontecendo. Liev sorriu. — Fique com ele. Ela pode continuar seu trabalho de artista.

Não é preciso insistir mais. — Tem certeza? — Não achei nada no diário. Ao compreender que ela estava salva, Grigori sorriu. Estendeu a mão para pegar o diário de Liev. No momento em que as páginas escaparam de seus dedos, Liev sentiu algo prensado junto ao papel — não era uma carta ou um bilhete, mas uma forma, algo que não tinha notado antes. — Espere. Liev pegou de novo o diário, abriu a página e examinou o canto superior direito. Estava embranco. Mas ao tocar o lado avesso, sentiu os rabiscos. Algo havia sido apagado. Pegou um lápis e passou a ponta no papel, revelando o fantasma de um pequeno rabisco, umesboço pouco maior que seu polegar. Era uma mulher de pé num pedestal segurando uma tocha, uma estátua. Liev olhou distraído até entender o que era. Era um monumento americano, a Estátua da Liberdade. Estudou a expressão de Grigori.

Grigori tropeçou nas palavras. — Ela é artista, desenha sem parar. — Por que o desenho foi apagado? Não houve resposta. — Você desconsiderou uma prova? A resposta de Grigori tinha um toque de pânico. — Assim que entrei no MGB, no primeiro dia, me contaram uma história sobre Fotievam, a secretária de Lenin. Ela disse que um dia Lenin perguntou ao chefe de segurança dele, Felix Dzierzinski, quantos contrarrevolucionários estavam presos. Felix lhe entregou um papel com o número 1.500 anotado. Lenin devolveu o papel, marcado com uma cruz. Segundo a secretária, Lenin fazia isso para mostrar que tinha lido um documento. Felix entendeu mal e executou todos os presos. Por isso apaguei o esboço. Ele podia ser mal-interpretado. Liev achou que aquele era um exemplo inadequado. Já tinha ouvido demais.

— Dzierzinski foi o idealizador e criador desta agência. Comparar a sua situação com a dele é ridículo. Não podemos nos dar ao luxo de interpretar. Não somos juízes. Não decidimos que prova deve ser mostrada ou destruída. Se ela é inocente, como você garante, será verificado eminterrogatórios posteriores. Na vã tentativa de protegê-la, você se incriminou. — Liev, ela é uma boa pessoa. — Você está apaixonado por ela. Sua avaliação é tendenciosa. A voz de Liev havia ficado dura e cruel. Ele percebeu e suavizou o tom. — Como essa prova está intacta, não vejo motivo para chamar atenção para o seu erro, que certamente acabaria com a sua carreira. Faça o relatório, ponha o esboço como prova e deixe que os homens mais experientes que nós resolvam. E acrescentou: — E Grigori, não posso proteger você mais uma vez.

Moscou Ponte Moskvoretski Bonde KM Mesmo dia Liev expirou na vidraça, formando um vapor. Como uma criança, pressionou o dedo contra o vidro embaçado e, sem pensar, desenhou a silhueta da Estátua da Liberdade — uma versão grosseira do esboço que tinha visto naquele dia. Rapidamente a apagou com o punho áspero do paletó e olhou ao redor. O esboço só seria identificado por ele mesmo e o bonde estava quase vazio: só havia mais um passageiro, sentado na frente, coberto com tantas camadas de roupa para protegê-lo do frio que só se via uma nesga de seu rosto. Após garantir que ninguém vira o esboço, concluiu que não tinha por que se alarmar. Em geral tão cuidadoso, achou incrível que cometesse um deslize tão perigoso. Vinha fazendo muitas detenções à noite e, mesmo quando não ficava trabalhando, era incapaz de dormir. Exceto de manhã cedo e tarde da noite, os bondes estavam sempre lotados. Pintados com uma faixa larga no centro, eles trepidavam barulhentos pela cidade como enormes balas de caramelo. Em geral, Liev precisava empurrar as pessoas para conseguir entrar. Os bondes tinham lugar para cinquenta passageiros, mas costumavam levar o dobro. Seus corredores repletos de viajantes lutando por espaço. Nesta noite, Liev teria preferido o desconforto de um vagão lotado, com cotoveladas e empurrões. Mas teve o luxo de arranjar um lugar ao ir para casa, rumo ao privilégio de umapartamento vazio — que não tinha de dividir com ninguém, mais uma vantagem da profissão. A posição social de uma pessoa passou a ser definida pelo espaço de que dispunha.

Dali a pouco ele teria direito a um carro, a um apartamento maior, talvez até a uma dacha, uma casa de campo. Mais espaço, menos contato com as pessoas que precisava controlar. As palavras despencaram na cabeça de Liev: Como o amor começa. Nunca tinha se apaixonado, pelo menos não da maneira descrita no diário: nervosismo ante a perspectiva de rever alguém; tristeza assim que a pessoa vai embora. Grigori havia arriscado a vida por uma mulher que mal conhecia. Sem dúvida, esse era um ato de amor. O amor parecia se caracterizar pela idiotice. Liev tinha arriscado a vida pelo país diversas vezes. Demonstrou enorme coragem e dedicação. Se o amor era sacrifício, então ele só tinha amado o Estado. E o Estado retribuiu esse amor como se ele fosse o filho preferido, premiando-o e promovendo-o. Era ingrato, infame, sequer pensar que tal amor não bastava. Enfiou as mãos embaixo das pernas, buscando um pouco de calor. Como não encontrou, tremeu de frio. As botas chapinhavam nas poças de neve derretida no piso de ferro do bonde.

Sentia o peito pesado como se tivesse uma gripe assintomática, a não ser pelo cansaço e pela sensação de fraqueza. Queria se encostar à janela, fechar os olhos e dormir. A vidraça estava fria demais. Desembaçou uma parte e contemplou o exterior. O bonde atravessava a ponte e seguia por ruas cheias de neve. Ainda mais caía dos céus, grandes flocos colidiam contra o vidro. O bonde diminuiu a velocidade até parar. As portas dianteiras e traseiras abriram com um estrondo, mais neve foi carregada para o interior do veículo. O motorneiro se virou para a porta aberta e gritou na noite: — Rápido! O que está esperando? Uma voz respondeu: — Estou raspando a neve das botas! — Você está deixando mais neve entrar do que tirando. Entre, senão fecho as portas! A passageira entrou. Era uma mulher com uma sacola pesada e botas com placas de neve. Quando as portas se fecharam, ela reclamou para o motorneiro: — Aqui também não está muito quente. O motorneiro fez um gesto para fora. — Prefere ir a pé? Ela sorriu, acabando com a tensão. Conquistado por ela, o motorneiro mal-humorado sorriu também.

A mulher se virou, deu uma olhada no bonde e encontrou os olhos de Liev. Ele a reconheceu. Moravam perto. Ela se chamava Lena. Ele sempre a via. Na verdade, notou-o exatamente porque não queria ser percebida. Usava roupas simples, como a maioria das mulheres, mas ela estava longe de ser comum. O desejo de anonimato contrastava com sua beleza, e mesmo se o trabalho de Liev não fosse observar as pessoas, ele certamente a teria notado. Uma semana antes, viu-a no metrô. Estavam tão próximos que seria descortês não a cumprimentar. Como já haviam se visto várias vezes, era educado pelo menos admitir o fato. Ficou tão nervoso que levou alguns minutos para tomar coragem, demorando tanto que ela saltou, e Liev, frustrado, desceu atrás, embora não fosse seu ponto, um ato impulsivo que não era do feitio dele. Ela se encaminhou para a saída da estação, Liev a alcançou e tocou em seu ombro. Ela se virou, os grandes olhos castanhos em alerta, prontos para o perigo. Perguntou o nome dela.

Ela o avaliou com um olhar, conferiu os passageiros próximos antes de dizer que era Lena e se desculpar por estar com pressa. Pronto, foi-se. Sem o menor sinal de estímulo, nem o menor traço de grosseria. Liev não ousou seguila. Voltou humildemente para a plataforma e aguardou o próximo trem. Aquilo foi um tremendo esforço. Acabou chegando tarde ao trabalho, coisa que nunca havia acontecido. Mas era um consolo finalmente saber o nome da mulher. Era a primeira vez que a via depois daquela estranha apresentação. Ficou tenso quando ela passou, esperava que sentasse ao seu lado. Balançando com o movimento do bonde, Lena se deslocou semuma palavra. Será que não o reconhecera? Liev olhou para trás. Ela escolheu um lugar quase no fundo do vagão. Ficou com a sacola no colo, os olhos fixos na neve caindo lá fora. Não havia por que mentir: claro que se lembrava dele, era garantido pela maneira como propositalmente o ignorava.

Ficou ofendido com a distância posta entre os dois; cada metro era uma demonstração do desprezo que tinha por ele. Se quisesse conversar, teria sentado mais perto. Pensando bem, isso teria sido positivo demais. Cabia a ele procurá-la. Sabia o nome dela. Eram conhecidos. Não havia nada de errado em iniciar uma segunda conversa. Quanto mais tempo esperasse, mais difícil seria. Se a conversa ficasse sem graça, ele só perderia um pouco do orgulho. Brincou consigo mesmo: conseguia aguentar, talvez ele fosse orgulhoso demais. Levantou-se abruptamente como se tivesse algo a fazer e foi na direção de Lena com um falso ar de segurança. Sentou-se no banco na frente dela e debruçou-se no encosto. — Meu nome é Liev, nos conhecemos outro dia. Ela demorou tanto a responder que Liev pensou que fosse ignorá-lo. — É.

Eu lembro. Só então ele concluiu que não tinha nada a dizer. Sem graça, improvisou rápido e observou: — Ouvi você dizer há pouco que este bonde está tão frio quanto lá fora. Concordo, está muito frio. Corou com o comentário bobo, amargamente arrependido por não pensar antes no que dizer. Ela fitou o casaco de Liev e comentou: — Frio? Mesmo com esse casaco incrível? O cargo de agente secreto permitia que comprasse muitas roupas de qualidade, botas feitas a mão, gorros de pele grossa. O casaco era como uma declaração de superioridade. Não queria contar que era da polícia secreta, por isso mentiu. — Foi presente do meu pai. Não sei onde comprou. Liev mudou de assunto. — Vejo você sempre. Acho que moramos perto. — Deve ser. Liev ficou intrigado com a resposta.

Claro que Lena não queria contar onde morava. Esse cuidado era comum. Não devia tomar como uma ofensa pessoal. Ele entendia melhor do que ninguém. Na verdade, isso o atraía. Ela era inteligente, fazia parte da sedução. Olhou a sacola cheia de livros e cadernos de exercícios escolares. Tentando se aproximar, pegou um dos livros. — Você é professora? Leu o que estava na capa. Lena pareceu se empertigar um pouco. — Sim. — De quê? A voz dela ficou frágil. — De… Esqueceu o que ia dizer, e ficou massageando a testa. — De política. Desculpe, estou muito cansada.

Não havia dúvida. Queria que ele a deixasse em paz. Esforçava-se para ser educada. Ele devolveu o livro. — Desculpe incomodar. Liev se levantou, inseguro como se o bonde atravessasse um oceano agitado. Voltou para seu lugar segurando na barra de apoio. A humilhação tinha substituído o sangue nas veias, e era bombeada pelo corpo — sentia uma queimação na pele. Após vários minutos sentado, a mandíbula contraída, olhando pela janela, a suave rejeição na cabeça, percebeu que tinha fechado as mãos com tanta força que as unhas marcaram suas palmas.

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