Agente do caos – Kami Garcia

Bandos de adolescentes, agitados por conta do início oficial do recesso de primavera, passaramcorrendo pelo sedan preto estacionado do outro lado da rua do colégio, alheios ao fato de que eramobservados por trás das janelas fumê do carro. Atletas usando casacos da Wilson High carregavam belas líderes de torcida nos ombros, aproveitando a chance de finalmente tocar em uma ou outra coxa. Outros caras faziam palhaçadas na rua, se exibindo para garotas que usavam jeans apertados e fingiam não reparar neles. A maioria dos adolescentes não olhou duas vezes para o carro. Veículos pretos com janelas fumê eram tão comuns quanto pombos em Washington, DC — base do Serviço Secreto, da CIA e do FBI. O homem no assento do passageiro observava o rosto de cada garoto que atravessava a rua fora da faixa, procurando por um em particular. — Nenhum sinal dele, ainda — disse o homem, direcionando o comentário para o homem mais velho ao volante. — Uma observação poderosa, Reginald — debochou o chefe. Ele soava como o avô de alguém e, comparado a Reggie, se parecia com um. A pele marrom-escura de Reggie era lisa como a de um bebê recém-nascido, e os cabelos crespos curtos enfiados sob uma boina de tweed apenas salientavam a beleza jovial dele. O bigode farto e o estilo sofisticado — como a camisa branca justa, o blazer de camurça bege e a calça preta boca de sino que usava naquele dia — evitavam que fosse confundido com um universitário. Mesmo que o chefe abandonasse a camisa engomada, a gravata larga e o corte de cabelo conservador dividido para o lado, não conseguiria esconder as rugas sulcadas na pele pálida como se fossem cicatrizes, ou a expressão cansada por trás dos olhos frios. Reggie voltou a atenção para os adolescentes. Ainda eram movidos a adrenalina e à ilusão de liberdade que a juventude oferece. Reggie os observou com uma pontada de inveja.


— É como se achassem que nada pudesse tocá-los. Lembra dessa sensação? — Não. Eu nunca fui um idiota. — O chefe tamborilou o polegar no volante sem agitar o volume de cinzas na ponta do cigarro que tinha na mão. — As pessoas veem o que querem ver, o que em geral não é nada importante. E lá se vai a conversa fiada, pensou Reggie, enquanto continuava observando a horda de jovens. — Impossível termos deixado o moleque passar. — Seus poderes de dedução jamais me desapontam. — O chefe fumou um trago do Morley e exalou devagar. A nuvem de fumaça fez os olhos de Reggie se encherem d’água, mas ele ignorou isso e se concentrou nas cinzas, esperando que caíssem. — Surge o filho pródigo. — O chefe apontou o cigarro para o outro lado da rua, para dois meninos caminhando pela calçada com mochilas jogadas por cima dos ombros. Fox Mulder era um garoto bonito — esguio como um nadador, com uma aparência que era o equilíbrio perfeito entre arrumadinho e desleixado. Os cabelos castanho-escuros chegavam até logo abaixo do colarinho da camisa listrada, e a franja era longa o suficiente para cobrir um pouco os olhos do garoto. As garotas ficavam caidinhas por esse tipo de coisa.

Fox tinha o olhar perdido conforme caminhava arrastando os pés, segurando um papel amassado. O segundo garoto era outra história. Era trinta centímetros mais baixo do que Fox, e os cabelos loiros lisos tapavam o rosto, como se estivesse deixando crescer um corte tigelinha malfeito. A camisa marrom suja estampava uma imagem desbotada de uma cena de Guerra nas Estrelas, e a calça jeans era tão longa que a bainha desfiada se arrastava pela calçada. O menino falava sem parar, com gestos espalhafatosos e movimentando-se em torno de Fox como uma mosca. Pelo jeito, seria útil a Fox um pedaço de fita adesiva para tapar a boca do jovem. Reggie não era fã de tagarelas. Eram um risco. — Quem é o menino com o filho de Bill Mulder? — Está familiarizado com o conceito de pesquisa? — O chefe finalmente bateu o cigarro na borda do cinzeiro e a cinza se partiu em um pedaço, como se por uma ordem. Ele amassou a guimba e concentrou os olhos azuis marejados em Reggie. — Permita-me esclarecer. É uma prática que profissionais usam para obter informações sem depender de suposições. Reggie se sentiu tentado a disparar de volta uma observação engraçadinha própria, mas o chefe o faria se arrepender mais tarde. A organização para a qual trabalhavam tinha sido erguida por homens e mulheres com gelo correndo nas veias — indivíduos dispostos a fazer o que fosse preciso, independentemente do custo —, e o fumante ao lado dele era um desses indivíduos. — Qual é meu trabalho? — Reggie queria partir para a ação.

— Quer que eu recolha o filho de Bill? Recolher parecia mais civilizado do que sequestrar. — Levar Samantha Mulder foi, em parte, uma garantia para evitar que o pai dela falasse. — O chefe abriu um novo maço de cigarros e com um gesto do pulso liberou um. — E todos precisamos fazer sacrifícios. Mas Bill ficaria arrasado se levássemos o filho também e, no momento, precisamos do homem. O Projeto está em um estágio crítico que requer pessoas com habilidades específicas, e Bill Mulder é uma dessas pessoas. O chefe acendeu o Morley e continuou falando, com o cigarro preso no canto da boca. — Então precisamos ficar de olho em Bill e no filho dele. Siga o menino e me informe se fizer algo interessante. Também estamos avaliando Fox para potencial recrutamento. Seguir um adolescente durante o recesso de primavera era uma bosta de serviço, mas Reggie ainda não estava suficientemente no topo da cadeia alimentar profissional para reclamar. Então perguntou: — Quem diabos batiza o filho de Fox? Os pais devem odiá-lo. — Bill e Teena estão ocupados demais odiando um ao outro. Mal se falavam quando Bill saiu de casa, no outono. — O chefe olhou pela janela, acompanhando o caminhar de Fox Mulder pela rua.

—O momento foi perfeito, na verdade. Nós nos intrometemos e realocamos Bill de Martha’s Vineyard para a capital, para que pudesse trabalhar no Projeto em tempo integral. Fox veio com ele. — Fico surpreso que a mãe do garoto tenha permitido — disse Reggie. — Minha tia e meu tio se divorciaram quando eu era novo e brigavam por tudo. — Se eu dei a impressão de que queria trocar memórias de infância, me deixe esclarecer. Não quero. — O chefe deu um longo trago no cigarro e um novo volume de cinzas começou a se formar. — O interessante é que mandar Fox para morar com o pai foi ideia de Teena. — Isso não parece estranho? — perguntou Reggie, ignorando o insulto. — Parece. — O chefe exalou e uma nuvem de fumaça rodopiou até Reggie, que finalmente tossiu e levou a mão à maçaneta da janela. O chefe estalou os dedos e apontou para o vidro. — A janela fica fechada. Reggie ignorou a queimação na garganta.

Ele se recusava a parecer fraco diante de um homem que certa vez se referira à fraqueza como uma doença durante uma reunião de instruções. — Acha que a mãe de Fox sabe de alguma coisa? — Isso ainda não foi definido. Mas, quando for, lidarei com Teena Mulder pessoalmente. — Mais um rastro de fumaça serpenteou dos lábios rachados do chefe. — Você se concentra em Fox. Passe as novidades diretamente para mim, apenas para mim. — Então nada de relatórios? — Se atenha ao mínimo. Não queremos deixar nenhum rastro. Então, de agora em diante, você não tem mais um nome. Assine seus relatórios como X. CAPÍTULO 2 Colégio Woodrow Wilson 15:47 Fox Mulder encarava o C escrito no topo da prova de história enquanto caminhava pela calçada comGimble. O amigo não tinha parado de falar desde o toque do sinal no fim do sexto tempo, oficialmente sinalizando o início do recesso de primavera. Essa era uma característica de Gimble —nada perturbava o cara. Ele jamais desperdiçaria tempo se preocupando com uma nota péssima, mas Mulder não conseguia esquecer. Depois de três provas que seguiram o mesmo formato — trinta questões de múltipla escolha tiradas diretamente do livro-texto e vinte questões de respostas curtas —, a professora de história tinha saído do padrão e mudado para perguntas dissertativas.

— Não entendo. — Gimble olhou para a prova de Mulder. — Não leu os capítulos? — Sim. — Então qual o problema? — perguntou Gimble. — Com esse seu superpoder, era para você ter gabaritado a prova. — Uma memória fotográfica não é um superpoder. É uma anomalia. — E uma maldição social, pensou Mulder. O fato de que Mulder conseguia se lembrar de cada palavra que lia irritava as pessoas da escola — os colegas de turma porque, mesmo que gastassem dias estudando para um teste, Mulder ainda assim tiraria uma nota mais alta; e os professores, porque odiavam o fato de que Mulder sabia mais do que eles. Então Mulder não contava a ninguém sobre isso se pudesse evitar. Mas ficou difícil esconder de Gimble depois que se tornaram amigos. Depois que Mulder recitou páginas inteiras da revista Starlog, palavra por palavra, ele se entregou. Mas a memória fotográfica não poderia ter ajudado naquele dia. Mulder amassou a prova e a enfiou no bolso de trás da calça jeans. Gimble reparou e pareceu tomar aquilo como um sinal de que Mulder estava estressado com a nota.

— Talvez tenha sido um dia ruim e você entrou em curto-circuito? — Não tenho dias ruins. — Pelo menos não por causa da memória, pensou Mulder. — Não é assim que funciona. Lembro de tudo que li. — Então como acabou tirando C? — Livros-texto de história americana são parciais — falou Mulder. — Muitas informações neles são imprecisas. Gimble deu um tapa na própria testa. — Cara? Diz que não escreveu isso na prova? — Quando os delegados do Congresso Continental assinaram a Declaração de Independência? —perguntou Mulder, sem hesitar. — Diga uma data. — Isso é obviamente uma pegadinha. — Gimble franziu a testa. — Estamos falando da Declaração de Independência… Daquela assinada por 56 homens, com a famosa assinatura de John Hancock? — Essa mesma. — Fácil. Quatro de julho de 1776 — disse Gimble, confiante. — Não faça teste para participar do Jeopardy! tão cedo, porque está errado — disse Mulder.

— O Congresso Continental votou pela independência no dia dois de julho. Quatro de julho é a data emque a Declaração foi adotada pelo Congresso e assinada por John Hancock. — Como isso é diferente do que eu disse? Perguntou quando os delegados assinaram, não quando votaram. Mulder concordou. — Verdade. Mas Hancock foi o único delegado que assinou em quatro de julho. — Agora você está de brincadeira comigo. — Gimble não acreditava. — Já vi a verdadeira Declaração de Independência, no Arquivo Nacional. A parte de baixo está cheia de assinaturas. — Cinquenta e seis — disse Mulder. — E a maioria delas assinada em dois de julho. Pode pesquisar; só não no nosso livro de história. Gimble coçou a cabeça. — Nosso livro é uma droga.

Saquei. Mas por que não escreveu o que diz nele e saiu com um A? Mulder deu de ombros. — Porque a informação está errada. — Quem se importa? Eu me importo. Mulder estava de saco cheio de pessoas lhe dizendo mentiras. Precisava engoli-las em casa, mas se recusava a fazer isso na escola também. — Seu pai vai ficar puto com a nota? — perguntou Gimble. Mulder riu com escárnio. — Ele nem sabe que tive uma prova. — Sortudo. O Major está sempre me fazendo perguntas. Não ficaria surpreso se tivesse uma cópia da ementa da aula. Mulder não conhecia o pai de Gimble, mas pelo que o amigo contava, o homem parecia intenso. A maioria dos pais não obrigaria os filhos a chamarem-nos de “o Major”. — Seu pai não pode ser tão ruim assim — falou Mulder.

— Poucas pessoas têm um telescópio refletor de campo de visão amplo em casa. Gimble sorriu. — Tudo bem… o telescópio é bem irado. Um amigo do Major da força aérea conseguiu para ele. Nem se compara aos modelos amadores vendidos nas lojas. — Sério? Eu não fazia ideia. — Mulder persistiu no sarcasmo. — Não estou nada familiarizado com telescópios newtonianos de eixo infinito. — Exibido. Mulder riu. — Seria ótimo fazer algo de bom com a minha insônia e conseguir que um asteroide ou uma cratera marciana receba meu nome, como George Hale. Tem certeza de que seu pai não vai se importar se eu experimentar? — Já falei, ele disse que não tinha problema. — Gimble inclinou a cabeça para o lado apenas o bastante para tirar os cabelos longos dos olhos, algo que fazia no mínimo cinquenta vezes por dia. —Vamos ver o cara do telescópio. Mulder apressou o passo.

Na infância, queria ser um astronauta quando crescesse. Tinha dez anos quando o pai disse a ele que isso jamais aconteceria. Astronautas precisavam passar em um teste de visão, e Mulder tinha protanopia — um tipo de daltonismo de verde e vermelho. A maioria das pessoas achava que significava que ele não podia distinguir entre vermelho e verde, mas protanopia só afetava a habilidade de Mulder de enxergar vermelho. Uma cor. Tudo o que foi preciso para esmagar o sonho dele. — Tem um monte de outras coisas que quero mostrar a você também. — Gimble seguiu à frente e se virou para andar de costas, encarando Mulder. — Tenho 48 cartões de Jornada nas Estrelas, semcontar os repetidos. Ninguém conta os repetidos, né? E tenho o cartão do Dr. “Bones” McCoy que saiu há três anos, ainda novo. — Legal. — Mulder estava acostumado com níveis épicos de devoção a Jornada nas estrelas. Phoebe, a melhor amiga dele em Martha’s Vineyard, colecionava os cartões também, junto com tudo mais relacionado ao programa de TV ou ao filme. — Tenho uma coisa ainda mais legal.

— Gimble tropeçou em uma rachadura na calçada, mas conseguiu se equilibrar. — Bem, talvez não mais legal, mas quase tão legal. Ou igualmente legal —corrigiu ele, como se os deuses de Jornada nas estrelas o tivessem feito tropeçar pelo comentário. — Tipo o quê? Gimble virou em uma rua residencial ao longo de pequenos prédios de tijolinhos. Em vez de responder à pergunta, ele parou diante da segunda casa. — É aqui. — Espero que tenha um monte de porcaria para comer. — Mulder seguiu o amigo pelos degraus. — Tudo o que tem na casa do meu pai é semente de girassol. Gimble hesitou à porta. — O Major é meio estranho. Eu já contei, não é? — Pelo menos umas cem vezes — disse Mulder. — Inclusive trinta segundos atrás. E que pai não é? — “Meio” é provavelmente um eufemismo. E todas as notícias sobre o menino perdido estão fazendo ele piorar.

Billy Christian — era o nome do menininho. Por um momento, Mulder não conseguiu tomar fôlego. Parecia que alguém estava espremendo o ar para fora dos pulmões dele, então a sensação passou, como sempre passava. Gimble ainda estava falando. — A morte da minha mãe ferrou muito com ele, sabe? — Sei como é. A mãe de Mulder jamais fora a mesma depois que a caçula, Samantha, desaparecera, cinco anos e meio antes. Toda noite ela colocava o avental e preparava uma das suas especialidades culinárias, bolo de carne ou uma caçarola, na tentativa de fazer parecer que a família não estava desmoronando. Ela se sentava à mesa da cozinha e lia uma revista ou cortava cupons enquanto esperava o timer do forno apitar. Depois da terceira vez que Mulder encontrou a mãe encarando o vazio, enquanto o timer do forno apitava e uma caçarola queimava até virar carvão a três metros de distância, aprendeu a prestar atenção ao apito. Certa noite ele cometeu o erro de entrar no banho antes que disparasse. Quando chegou à cozinha, o alarme de incêndio estava aos berros e um véu de fumaça preta preenchera a cozinha. A mãe de Mulder permaneceu sentada em meio a tudo aquilo, com as bochechas manchadas de lágrimas. O garoto engoliu em seco e afastou a memória. — Vamos entrar ou não? — Acho que sim. — Gimble pegou as chaves e abriu as cinco trancas da porta.

Mulder o seguiu para dentro, mas parou subitamente logo além do corredor da entrada. Ele se abria para o que Mulder presumiu que deveria ser a sala de estar, mas não tinha certeza, porque cada centímetro quadrado do local — exceto por um sofá, uma poltrona reclinável e um pequeno trecho de carpete em frangalhos no centro — estava coberto de quinquilharias. Não era surpreendente que Gimble não o tivesse convidado antes. A maioria das pessoas teria dado meia volta assim que entrasse, mas Mulder achou a casa do amigo estranhamente fascinante. — O Major guarda tudo. — Gimble foi até a televisão e pegou um walkie-talkie que estava sobre ela. O garoto apertou o botão lateral e falou contra o aparelho. — Sou eu. Estou em casa. Estática estalou pelo receptor, seguida pela voz grave de um homem. — Esta é uma linha segura. Senha? Gimble revirou os olhos. — Agente do Caos. O rádio estalou de novo. — Me encontre no ponto de extração a mil e seiscentos.

— Ele quer dizer quatro horas — explicou Gimble a Mulder antes de desligar. — Entendi. Desligando. — Ele devolveu o walkie-talkie para o lugar original em cima da televisão e deu de ombros. — Desculpe. Se eu não “relatar a entrada” quando chego em casa, o Major vai pensar que sou um intruso. — Isso seria interessante. — Mulder sorriu para mostrar ao amigo que não estava julgando. Gimble se animou. — Você definitivamente não quer ser a cobaia nesse experimento. Confie em mim. Mulder achou a coisa toda de senha meio legal, como todo o resto na sala. Mas visitar uma vez depois da escola não era o mesmo que morar ali. Ele olhou com mais atenção ao redor. Além de livros, uma fileira de prateleiras continha caixas pequenas de papelão com rótulos de fita adesiva, fitas VHS numeradas, dois rádios de frequência curta, algum tipo de transceptor ou rádio amador, um sextante, tigelas com rochas e caixas de bolinhos recheados com creme.

Mulder pegou uma pedra cinza do tamanho de um punho e rolou entre os dedos, como se fosse uma bola de beisebol. Nada especial a respeito dela, até onde ele podia ver. Mulder seguiu para os livros, verificando os títulos em algumas das pilhas: A enciclopédia de fenômenos inexplicáveis, Decifrando o código dos círculos nas plantações, Evolução do cérebro humano, A verdade sobre o assassinato de Abraham Lincoln, Segredos do sistema solar e Astrofísica aplicada. Havia alguns títulos que ele reconhecia — como O guia do mochileiro das galáxias, 1984 e As crônicas marcianas —, pelo menos meia dúzia de cópias de brochuras de umlivro do qual Mulder jamais ouvira falar, chamado A espada diabólica. A julgar pelo guerreiro albino de cabelos longos na capa, era um romance de fantasia. A sala estava entulhada, mas Mulder percebeu que o Major tinha criado o próprio sistema de organização. Jornais e revistas estavam empilhados junto às paredes de acordo com publicação e ano, e as torres de livros ao lado deles estavam separadas por categoria, como física, exploração do espaço, desastres naturais, presidentes americanos e… alienígenas? Mas o gosto do Major pela leitura não era sequer tão interessante quanto o revestimento que ele colocou nas paredes da sala. Recortes de jornais e fotografias do que pareciam ser círculos emplantações e óvnis obscureciam a maior parte da tinta azul, e um imenso mapa cobria a parede mais afastada, com trechos de barbante amarelo entrecruzando os alfinetes coloridos. — O que é tudo isso? — Mulder encarou as paredes, hipnotizado. — O Major está sempre acompanhando alguma coisa: desastres naturais, meteoros, padrões meteorológicos incomuns, transmissões de rádio de curta frequência. Mil coisas. — As bochechas de Gimble ficaram vermelhas e ele virou o rosto. — Vamos para meu quarto antes que ele suba do porão. É lá que guarda os arquivos. — Que tipo de arquivos? — Depois de ver as paredes, Mulder ficou curioso.

— Quem sabe? Talvez esteja guardando as “mensagens secretas” que decodifica do verso de nossas caixas de cereal. — Gimble manteve o tom de voz despreocupado enquanto levava Mulder pela cozinha até uma escada nos fundos. Ele parecia cansado e um pouco envergonhado, então Mulder fingiu não reparar em um cadeado de bicicleta prendendo os puxadores da geladeira. O quarto de Gimble ficava no alto da escada. — É aqui — disse o amigo, com orgulho, quando abriu a porta. Quando Mulder entrou, o primeiro pensamento foi o quanto o quarto de Gimble lembrava a ele do de Phoebe. Livros transbordavam das prateleiras, e um modelo em miniatura da Enterprise estava pendurado acima de uma pequena escrivaninha. Listas e mapas feitos à mão estavam presos com fita adesiva em uma parede, perto de um pôster do filme Guerra nas Estrelas que ainda tinha as marcas das dobras. Outro pôster cobria a parte de trás da porta de Gimble — Farrah Fawcett, usando o maiô vermelho que tinha feito todas as garotas da escola comprarem maiôs vermelhos. Mulder tinha o mesmo pôster na parede do quarto em casa. Ele apontou para Farrah. — Agora sei por que nos entendemos. — Acha que ela é uma trekkie? — perguntou Gimble, esperançoso. — Duvido. — Mulder olhou com mais atenção para a miniatura da Enterprise.

O modelo era meticulosamente pintado à mão, exatamente como o de Phoebe, embora Gimble tivesse acrescentado um G na parte traseira da nave dele. Gimble suspirou, ainda olhando para Farrah. — Você deve estar certo. Ninguém é perfeito. Farrah Fawcett chega bem perto. — Espere até ver isso. — Gimble correu para o criado-mudo e abriu a gaveta. Ele se virou devagar, com uma das mãos às costas, então fez um espetáculo dramático ao revelar o que segurava. Um panfleto. — É uma zine original de Lorde Manhammer. Mulder deu de ombros. — Eu deveria saber quem é? — Não ensinei nada a você nos últimos três meses? Lorde Manhammer… o rei de D&D? — Dungeons and Dragons? — perguntou Mulder. A maior parte do que sabia sobre o jogo de RPG tinha aprendido ouvindo Gimble falar a respeito. Até mesmo o apelido de Gimble, pelo qual todos, inclusive os professores, o chamavam vinha do jogo. — Só existe um D&D.

— Não é verdade — respondeu Mulder. — Pode querer dizer Delinquente e Depravado ou Deutério-Deutério. — Como pude me esquecer de deutério-deutério? — Resmungou Gimble com um tapa exagerado na cabeça. — Quando a maioria das pessoas ouve “D&D”, as mentes delas definitivamente pensam“fusão nuclear”. — Ele ergueu um panfleto, inabalado. — Esta é uma cópia do Guia da estratégia secreta de PE de Lorde Manhammer. Ele descreve a estratégia de Manhammer para acumular pontos de experiência. Só imprimiu quatrocentas cópias, e tenho uma delas. — Posso dar uma olhada? — perguntou Mulder. Gimble era seu único amigo verdadeiro em Washington. O mínimo que podia fazer era fingir um pouco de interesse no que parecia ser o mais valioso bem dele. Gimble entregou o panfleto impresso em papel-jornal a Mulder. — Cuidado. O papel é fino. Mulder pegou o guia e folheou.

Muitas referências a classe de armadura e objetivos da missão. Coisas seriamente geeks. Phoebe amaria. — Interessante, né? — Gimble inclinou o pescoço para ver que página Mulder estava lendo. —Temos uma vaga em nosso grupo. — D&D não é bem minha praia. Joguei uma vez e mandei mal. — Mulder entregou o panfleto de volta. — Pelo menos pense a respeito. Nosso mestre, Theo, gosta de sangue novo, e você tem a mim. Sou o melhor professor na área. — Vou pensar a respeito. E então dizer que não. Gimble devolveu o texto sagrado de Lorde Manhammer para a mesa de cabeceira. — Quer ver minhas cartas de Jornada nas Estrelas antes de vermos o telescópio? Elas vão lhe dar um assunto caso seja detido para conhecer o Major mais tarde, o que provavelmente vai acontecer, pois ele assiste Projeto U.

F.O.: Contatos imediatos na sala todo dia às quatro. — O programa sobre alienígenas? — Mulder assistira a alguns episódios com Phoebe. — Mais sobre as pessoas que acreditam neles. — Eu não sabia que passava todo dia. — Não passa — falou Gimble. — Temos em VHS. O Major grava os episódios e assiste um todo dia às quatro horas, até no Natal. Ele costuma me obrigar a assistir junto. Mulder tentou imaginar o próprio pai gravando um programa para assistirem juntos. Mas foi difícil demais, porque jamais aconteceria. — Na verdade, é um programa legalzinho, se quiser assistir um pouco — sugeriu Gimble. —Algumas das filmagens de óvnis parecem reais. — Talvez sejam.

O Ames Research Center, da NASA, ainda não encontrou uma forma de explicar o sinal Wow!

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