Agua na Boca – Carlo Lucarelli Andrea Camilleri

Prezada Grazia Negro, recebi sua carta e os anexos. Estou muito indeciso quanto a ajudá-la ou não, porque você me parece alguém que procura sarna para se coçar. E a sarna é contagiosa. Não me refiro ao fato de você querer levar adiante uma investigação que lhe foi expressamente proibida pelos seus superiores, isso até a tornaria simpática aos meus olhos. Não, refiro-me ao fato de você querer me envolver numa espécie de investigação privada e não autorizada fazendo-me esse pedido em papel timbrado da Chefatura de Bolonha, e ainda por cima endereçando a carta ao Comissariado de Vigàta! E de fato a carta foi aberta por Catarella, que me telefonou para Marinella dizendo que um negro havia matado um certo Peixinho, de sobrenome Vermelho. E você queria manter o assunto escondido?! Mas imagine! E, também, não sabe que não podia enviar cópia daqueles documentos a um estranho como eu, já que eles estão sob sigilo instrutório? Está maluca, minha filha? De tudo o que você me enviou, a única coisa que emparte funciona é a última página, porque escrita em papel não timbrado e assinada apenas com sua inicial. Só em parte, porque você fez mal em escrevê-la de próprio punho, teria sido melhor digitá-la no computador. Uma simples perícia caligráfica levaria a você. Então, concluindo, sou obrigado a responder não ao seu pedido de colaboração. Lamento, mas não confio em você. Comunico-lhe que queimei os documentos anexados, por medo de que Catarella os devolvesse à Chefatura de Bolonha. Sei que a decepcionei, mas não posso agir de outro modo. Posso saber seu endereço particular? Você pode me escrever endereçando para S. M. — Marinella, Vigàta.


Grazia Negro Via ########## BOLONHA Cara inspetora Negro, meu colega Fazio, que sofre do complexo do registro civil, me relatou que Arturo Magnifico, nascido aqui em Vigàta em 26/10/1960, deixou sua cidade natal em 1985 e se mudou para Bolonha depois de ser demitido da empresa Fratelli Boccanera, transportadores marítimos. Sobre os motivos da demissão pouco se sabe, a empresa faliu em 1993, e os dois irmãos Boccanera morreram numacidente rodoviário. De qualquer modo, Fazio está tentando localizar quem trabalhava na empresa na época da demissão, para saber um pouco mais. Tenho umas perguntas a fazer. Primeira: Qual era a estatura do Magnifico? Que tipo de compleição ele tinha? Veja bem: se ele usava sapatos número 42, ou tinha o pé pequeno ou não era um homem muito alto. A senhorita pode descobrir se o mocassim encontrado tinha palmilha com calço? E, se não tinha, pode me dizer de quantos centímetros é o salto? Desculpe, mas não sei como é esse modelo Tod’s. Segunda: pode me informar as medidas exatas do saco plástico? A cabeça entrava nele bem justa ou o saco era grande? Terceira: o fato de não haver fragmentos de vidro junto à cabeça do morto é uma omissão no relatório? Ou eles não existiam mesmo? Quarta: Silio Bozzi (que conheço de fama) teria condições de lhe dizer se a água que molhou os cabelos e a parte superior da camisa caiu sobre o Magnifico quando ele estava de pé, ou quando já caíra no chão? Penso, mas gostaria de ter confirmação, que a água caiu quando o Magnifico estava de pé, e portanto ainda vivo, porque Bozzi escreve que a água molhou, além dos cabelos, “a parte superior da camisa”. Do contrário, considerando seu bem conhecido pernosticismo, ele não teria escrito a parte superior, mas “a parte anterior da camisa”, já que o cadáver jazia de costas. Peço que a senhorita me informe. Cordiais saudações. Poderia me mandar uma foto do cadáver na cozinha? Prezada Grazia, reabro o envelope para acrescentar esta folha, aproveitando que é noite alta e Livia foi dormir. Desculpe o tom oficial que precisei usar anteriormente, porque escrevi a carta enquanto Livia ainda circulava pela casa e de vez em quando espiava o que eu escrevia. O fato é que, tendo chegado de Boccadasse para uns dias de férias, ela casualmente leu a carta na qual você me comunicava seu endereço particular. E teve um ataque inexplicável de ciúmes. Então, precisei listar para você uma série de perguntas em tom burocrático, e sobretudo sem lhe fornecer o motivo daquelas perguntas.

Desculpe, mas por estes dias eu gostaria de ficar em paz com Livia, sem dar a ela o pretexto para me encher o saco. — Se o assassino levou apenas um pé do mocassim, significa que provavelmente (é uma hipótese, veja bem!) esse mocassim continha algo muito importante, escondido ou no salto ou entre o revestimento interno e a parte superior interna da sola. — Não é possível que o saco plástico com o qual o Magnifico foi sufocado tenha contido precedentemente os peixes vermelhos, com a água correspondente? Em certos jogos de parques de diversões, um dos prêmios é justamente um saquinho plástico com peixinhos vermelhos. Ou será que estou falando besteira? — Como os peixes vermelhos chegaram à cozinha de Magnifico, que os odiava? Não pode ter sido em apneia, claro. Se não há fragmentos de vidro (ou seja, os cacos de um vaso cheio d’água com os peixes dentro), isso reforça a hipótese do saco plástico. — Acho importante saber se a água dentro da qual estavam os peixes vermelhos molhou a cabeça e a parte superior dos ombros de Magnifico, porque isso significaria que o saquinho com a água e os peixes lhe foi enfiado na cabeça enquanto ele estava de pé: os peixes, evidentemente, deslizaram para fora junto com a água. Mas seria um barato se um dos peixes tivesse permanecido dentro do saquinho. Já imaginou o Magnifico, que detesta peixes e é alérgico a eles, morrendo lentamente sufocado, enquanto um peixe se debate desesperadamente sobre seu nariz, sua boca, seus olhos? Não leve em conta isto que acabo de escrever, faz parte das minhas fantasias pessoais. — Você sabe o quanto é importante “fotografar” com os próprios olhos e a própria sensibilidade o ambiente no qual ocorreu um crime. Portanto, sinto necessidade de ter pelo menos uma foto da polícia científica. Prezada Grazia, desculpe de novo. Saudações efusivas, Reabro novamente o envelope. Afinal, qual é sua opinião sobre essa história toda? Prezado colega, desculpe responder com tanto atraso, mas, pela matéria do Carlino que anexo aqui, você vai entender por quê. Não se preocupe, cin a esquedra consigo tanto telcar quanto atirar, no máxio vou cometer algusn errros de diigtaçaõ (afinal paar atirar eu não eragrande coisa). Começo respnodendo algumas de suas perguntas.

NÃO havia gframentos de vidro na cozinha. Sei com certeza porque conversei com os peritso da científica que foram ao local (com Silio me foi impeossivél falar: estão de olho em no´s dois). NADA DE VIDRO, portanto. En não só: indiscrilão do labortatorio da cientifívica (me custou um futruro jantar com o pilnantra Cinelli, que o dirige, mas isso não é problema, cm a esqyerdca eu tabméam sei dar porrada). No saqiunho, do qual lhe anexo uma foto roubada do dossiê enquanto o pilnatra me olhava as pernas, havia resíduos de ração para éixes, vestígios de escmaass de Carasius auratus (são os peixes vemrelhos) e mais uma ciosaa que nãolhe digo paramnão lhe estargar a surpresa (está no resumo da prícia necroscópica que anexei.) O que eu penso é: os peixes chegam no saqiunho que é enfiado na cabeça de Magnifico. A água se derrama sobre a camisa, os peixse quase (veja perícia) e o Magnifico se sufoca. No que se refere aos sapatos: parabéns. O número não bate. Arturo Magnifico tinha 1,82 de altura e pelo que o pessoal da científica lembra também tinha duas boas lanchas em vez de pés. Conferi no primeiro relatório: está escrito que o sapato estava enfiado no pé, e não calçado. Conhecendo também o pernosticismo de Silio, tenho certeza de que ele queria dizer que o pé não estava dentro do sapato. Se eu pudesse voltar ao local do crime e verificar os sapatos que existem na casa, descobriria que Arturo Magnifico usava outro número. Anexo também uma foto do Tod’s (roubada, o safado tinha passado aos meus peitos). Sua ideia de que eles continham alguma coisa me parece uma excelente dica para investigação.

Quanto à foto do cadáver não pude fazer nada, já não tinha argumentos para opilantra. Mas h´pa umjronalista que fez uma e vou ver se me entnedo com ele. Por enquanto é tudo, leia a perícia. Ciao, G. Prezado colega, você me transmitiu esta mania de reabrir os envelopes e colocar mais alguma coisa dentro, e acho que esta é importante. Já que estou forçosamente de licença por algnus dias, andei circulando por aí. Percorri as pet shops que têm peixes tropicais, procurando uma que tivesse vendido no mesmo dia tanto peixes vermelhos quanto um Betta Splendens. Encontrei. Fica do outro lado da cidade. O comreciante me mostrou o comprovante que foi emitido justamente em 27/05/2006, o dia do crime, às 16h30. Também me mostrou os saquinhos que usa para o transporte dos peixes, e são idêntcicos ao encontrado na cabeça do Magnifico. Golpe de sorte: o cara recorda miuto bem quem os comprou. Porque era uma mulher, uma blea ruiva muito elegante, com cerca de 35 anos, e seios “discretos” (mas afinal vocês homens saõ todos assim?). Ciao, G. P.

S. Não é só Livia que tem ciúmes. Eu tenho Simone, que fica me rondando e que, embora não enxergue, percebe muito bem que estou escrevendo e me agito como uma louca. “Para quem você está escrevendo?”, me perguntou. “Para um colega”, respondi, mas acho que ele não acredita e é melhor assim. Me permite usar você como suspeito amante? As coisas entre mim e Simone não vão muito bem, e eu queria dar um tranco nele. É uma relação muito importante para mim. Mas não quero aborrecer você com meus problemas pessoais. Ciao de novo, G. UNIVERSIDADE DOS ESTUDOS DE BOLONHA INSTITUTO DE MEDICINA LEGAL Bolonha, 30 de junho de 2006 Prezado dr. La Pietra, para comodidade de V. Sa., resumo abaixo o que se constatou sobre as causas da morte de ARTURO MAGNIFICO a partir da autópsia executada em 28/05/2006, por solicitação desta Autoridade Judiciária. — O supracitado faleceu por asfixia de sufocação em virtude de oclusão das vias respiratórias provocada pelo saco plástico encontrado. — A asfixia foi facilitada por uma ulterior oclusão das vias respiratórias, em um primeiro momento fugida à observação do legista que interveio logo após os fatos, e emergida somente no decorrer de perícia autóptica.

— A ulterior oclusão foi provocada por um exemplar de Betta Splendens, mais conhecido como “peixe-de-briga”, que deslizou profundamente para dentro da cavidade oral do Magnifico. Cordiais saudações. prof. Antonio Cipolla D’Abruzzo IL RESTO DEL CARLINO BOLONHA ESPETACULAR ACIDENTE NA VIA EMILIA: AVANÇA O SINAL E É ABALROADA BOLONHA — O sinal, os freios que não funcionam, o caminhão chegando. Correu sério risco de morte a srta. Grazia N., inspetora de polícia junto ao Grupamento Móvel da Chefatura de Bolonha, que ontem à tarde se envolveu num acidente à via Emilia, perto de San Lazzaro. O Fiat Panda dirigido pela inspetora estava entrando na via Emilia quando o sinal fechou. O carro da inspetora não conseguiu parar e atravessou em velocidade a via Emilia, justamente quando um caminhão vinha chegando em direção a Bolonha. O Panda, abalroado, girou várias vezes e acabou capotando à beira da estrada. A inspetora sofreu algumas contusões, um princípio de derrame cerebral e a fratura da mão direita. Ainda estão sendo apuradas as causas do acidente. Causas a apurar é o caralho, me sabotaram o freio. Já conferi, o motorista do caminhão não tem culpa. Em minha opinião, só queriam me dar um aviso.

Mas pelo quê? CORREIOS ITALIANOS — ENTREGA DE BOLONHA EM DOMICÍLIO ZCZC GTI105 016/2F IGRM CO IGMI 022 0922 VIGATAFONE 22 04 1055 04/07/2006 GRAZIA NEGRO (I1322) GRUPAMENTO MÓVEL CHEFATURA DE BOLONHA SABEDOR GRAVE ACIDENTE SOFRIDO ALEGRO-ME TENHA SIDO RESOLVIDO RELATIVAMENTE BEM FORMULO VOTOS PRONTA RECUPERAÇÃO E A MIM SE ASSOCIA O ECLESIÁSTICO SRTA. CONHECE HÁ 11 ANOS E QUE RESIDE À MINHA MESMA RUA 31/33 REITERO VOTOS SALVO MONTALBANO REMETENTE SALVO MONTALBANO COMISSARIADO DE POLÍCIA VIGÀTA (MONTELUSA)

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